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Hipertensos não tomam medicamentos

21 Abril, 2007 0

Muitos hipertensos não dão o devido valor à doença de que padecem, sobretudo, devido à ausência de sintomas. Sem saberem, estão em sério risco de sofrer um enfarte do miocárdio ou um acidente vascular cerebral. Assim, para evitar males maiores, urge medir a tensão arterial e, no caso de se sofrer deste mal, controlar os valores com a terapêutica adequada.

Tensão arterial controlada previ ne 40% dos AVC

Se a hipertensão arterial for tratada e controlada na devida altura, é possível prevenir a ocorrência de aproximadamente 40% dos acidentes vasculares cerebrais (AVC) e 25% dos enfartes do miocárdio.
«É importante que as pessoas percebam que a prevenção dos acidentes cardio e cerebrovasculares passa pelo controlo da hipertensão arterial», afirma o Dr. João Saavedra, cardiologista e chefe de Serviço de Medicina do Hospital de Santa Maria, em Lisboa.

Acontece, no entanto, que um dos principais entraves ao controlo eficaz da hipertensão é a própria terapêutica. Isto porque muitos hipertensos não tomam os medicamentos.

«Alguns doentes acham que são caros, outros, sentindo-se bem, não encontram motivos para fazer uma terapêutica vitalícia, ainda para mais quando alguns fármacos provocam efeitos secundários muito desagradáveis», explica João Saavedra, que também é presidente eleito da Sociedade Portuguesa de Hipertensão (SPH).

E continua: «Há uma luta constante entre o médico e o doente devido aos efeitos acessórios que quase todos os medicamentos indicados no tratamento da hipertensão provocam. Sendo esta uma patologia silenciosa, o doente não tem sintomas e, de repente, quando passa a fazer terapêutica para controlar a tensão arterial, aí é que começa a ter problemas como, por exemplo, fraqueza, tonturas ou disfunção sexual.»

Porém, existem outros motivos infundados para a falta de adesão à terapêutica por parte dos doentes.

Segundo João Saavedra, «muitas pessoas, apesar de saberem que são hipertensas, não valorizam o seu problema. Noutros casos, abandonam a terapêutica quando atingem os valores normais, como se não fosse preciso continuar. Há também aqueles doentes que só descobrem o seu problema quando têm um enfarte ou um AVC».

O único estudo realizado em Portugal até à data sobre a prevalência da hipertensão arterial comprova todos estes factos. Segundo a pesquisa, apenas 11% dos doentes têm a hipertensão controlada.

«Os números são muito semelhantes ao que se verifica nos outros países», garante o cardiologista.
A título de exemplo, no Reino Unido a taxa de controlo é de 6%, enquanto nos EUA atinge os 30%.

Sal, hipertensão e AVC

No que diz respeito à incidência de acidentes vasculares cerebrais associados à hipertensão, os japoneses apresentavam níveis muito semelhantes aos dos portugueses.

Contudo, o estado japonês promoveu a redução da quantidade de sal na alimentação. Tal medida teve como consequência a descida do número de hipertensos e da taxa de AVC.

«Ainda não passa de uma hipótese, mas pensa-se que a alimentação rica em sal, principalmente o pão – que em Portugal é muito salgado, quando comparado com o consumido noutros países –, pode ser uma explicação para a elevada taxa de mortalidade por AVC registada no nosso país», indica João Saavedra, comentando:
«Se houvesse uma directiva emitida pelo Estado português que obrigasse à redução em apenas dois gramas da quantidade de sal no pão, de certo seriam poupados milhões de euros hoje gastos em tratamento da hipertensão e nos consequentes acidentes cardio e cerebrovasculares.»

Os clínicos gerais recebem as primeiras queixas de hipertensão

Quando João Saavedra estava no Reino Unido, a trabalhar em Londres, há mais de 20 anos, constatou que existiam sociedades científicas dedicadas à hipertensão, em vários países europeus.

«Quando regressei a Portugal, fui um dos motores da ideia de transformar o então Grupo de Estudos de Hipertensão da Sociedade Portuguesa de Cardiologia numa sociedade científica autónoma. Era considerada uma posição muito revolucionária à época», lembra o especialista.

Actualmente, já foram realizadas duas reuniões científicas, contando com a que teve lugar entre 17 e 20 de Março último, no Algarve. Foi, aliás, no âmbito deste encontro que João Saavedra sucedeu ao Prof. Agostinho Monteiro, professor de Medicina Interna na Faculdade de Medicina do Porto.

Como responsável pela SPH, João Saavedra espera conseguir organizar em 2007 o I Congresso Nacional de Hipertensão.

«A hipertensão é uma problemática que atravessa muitas especialidades, desde as ciências básicas à nefrologia, endocrinologia e obstetrícia», considera o cardiologista, prosseguindo:
«É meu objectivo alargar o âmbito da própria SPH, abrindo as portas a todos estes profissionais que, no seu dia-a-dia, trabalham de muito perto com a hipertensão.»

Nesta perspectiva, os clínicos gerais têm um papel determinante, já que recebem a maioria das primeiras queixas de hipertensão.

Assim, na opinião de João Saavedra, «a parceria entre a SPH e os clínicos gerais será uma mais-valia no tratamento e controlo da hipertensão em Portugal».

Entretanto, um dos desafios da Sociedade será encontrar uma nova sede, pois continua a funcionar em instalações cedidas pela Sociedade Portuguesa de Cardiologia.

«Contamos com a indústria para se juntar a nós neste projecto, enquanto sócios colectivos fundadores», observa o cardiologista.

Fármaco alterado,
desaparecimento
de efeitos secundários

João Grilo, de 46 anos, deixou de fumar e passou a ter mais cuidado com a alimentação. Isto porque há um ano atrás lhe foi diagnosticada hipertensão.

Este oficial de Justiça tem a consciência de que se não controlar a hipertensão, poderá vir a sofrer de outras doenças ainda piores.

Sempre foi bastante nervoso, mas foi após a chegada, há três anos, a um cargo de chefia no Tribunal de Boa Hora – que o obriga a lidar de perto com casos que envolvem alta criminalidade e processos mediáticos – que a ansiedade, as tremuras e as dores de cabeça lhe tiraram o sossego. Foi, então, que resolveu consultar um médico.
«Há um ano tinha valores de tensão arterial de 180/80 mmHg, muito elevados», diz João Grilo.

Nessa altura, foi-lhe receitado um medicamento «para acalmar» e um outro para a tensão, este último de toma diária para o resto da vida.

«Mas, ao fim de dois ou três meses, desenvolvi prisão de ventre, coisa de que nunca tinha sofrido, e passei a ter os pés inchados», lembra João Grilo, acrescentando:
«O meu médico pediu-me, quando me receitou este medicamento para a hipertensão, para o avisar se sentisse algo desagradável. Foi o que fiz quando passei a ter estes problemas.»

O fármaco foi alterado e os efeitos secundários da medicação desapareceram.

«Hoje sinto-me bem e nunca mais tive problemas de qualquer ordem devido à terapêutica para controlar a tensão arterial», comenta o nosso entrevistado, cujos valores da tensão, agora, rondam os 140/70 mmHg.

João Grilo tem também o colesterol elevado o que, somado à hipertensão, pode ser muito prejudicial.

A juntar a tudo isto, os antecedentes familiares fizeram-no conhecer de perto uma das consequências de uma hipertensão não controlada. A sua mãe sofreu um AVC devido à tensão arterial elevada.

«Não me custa nada tomar um comprimido todos os dias. Sei que me protege de problemas de saúde futuros», conclui João Grilo.

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