Pressão da tesouraria e pressão arterial: Fight or flight
O nosso organismo está dotado de diversos mecanismos que nos permitem reagir às mais diversas situações de stress. São, de resto, estas respostas que nos têm permitido sobreviver ao longo dos tempos, reagindo às situações mais adversas durante toda a nossa evolução.
Os mecanismos de fight or flight são hoje reconhecidos como tendo sido essenciais para a manutenção da nossa espécie. Todavia, os riscos a que o Homem foi exposto no passado, foram substituídos por desafios completamente diferentes nas nossas sociedades industrializadas, onde a sobrevivência está muito mais relacionada com gestão do ambiente hostil em termos emocionais, do que em termos puramente físicos.
É, hoje, globalmente aceite que uma vida profissional intensa com elevados níveis de stress pode constituir-se como um risco para a saúde de cada um de nós. À guisa de exemplo, a pressão causada pela gestão de tesouraria de uma empresa: a dificuldade em saldar as suas dívidas de curto prazo, porque as despesas e as receitas tendem a ocorrer em momentos distintos e porque, em muitos negócios, não existe uma coincidência temporal entre o momento da concretização da compra/venda e o do respectivo pagamento/recebimento.
Conclusões de estudo recente
Na realidade, existem dados científicos sérios que relacionam o estado emocional com algumas alterações fisiológicas com repercussões directas no estado de saúde. Elevação da tensão arterial (TA) e diminuição das defesas orgânicas, por comprometimento do sistema imunitário, são dois exemplos largamente difundidos no senso comum, mas também sustentados por evidências científicas robustas, que têm merecido a atenção de numerosos investigadores.
Num estudo publicado no American Journal of Public Health (2006), foram avaliadas cerca de 8500 pessoas igualmente repartidas por ambos os sexos. Este estudo, que decorreu durante sete anos e meio, tentou encontrar uma relação entre o stress do emprego, particularmente naqueles que assumem funções de elevada responsabilidade nas suas empresas (job strain of white collar workers), e as variáveis relacionadas com a saúde, como sejam os casos da TA, o perímetro abdominal e o peso. Este trabalho foi considerado como o mais prolongado e envolvendo o maior número de sujeitos até hoje publicado sobre o tema.
Os resultados revelam dados muito curiosos. Os sujeitos submetidos a stress cumulativo apresentavam aumentos significativos da TA, particularmente da tensão arterial sistólica.
Paralelamente, foi também constatado que o grupo dos indivíduos que demonstravam níveis de stress mais altos tinham um risco 40 por cento maior de vir a desenvolver hipertensão. Mas, para além destas conclusões, talvez o mais interessante seja o facto deste efeito do stress na TA ser atenuado por um adequado suporte social.
Ou seja, aqueles profissionais que se sentiam mais apoiados, seja pela empresa ou pela família, ficavam como que mais protegidos e, portanto, menos afectados na sua saúde.
Coaching e exercício
Esta constatação, baseada em dados científicos, parece, por si só, justificar que as empresas tenham uma preocupação adicional no envolvimento emocional dos seus quadros. Este apoio poderá ser baseado em actividade de grupo extra empresa, em acções de coaching e, principalmente, pela promoção de actividades com forte participação do exercício. As actividades físicas são amplamente reconhecidas como “moduladoras” do stress e, deste modo, com influência directa e indirecta em factores de risco de acidente cardiovascular com particular incidência na TA.

