Elevada taxa de mortalidade por AVC » Hipertensão está mal controlada
À semelhança do que acontece na maior parte dos países industrializados, cerca de um quarto da população adulta portuguesa sofre de hipertensão. Contudo, ao contrário do que se passa nos países da União Europeia, existe uma elevada taxa de mortalidade por acidente vascular cerebral (AVC), uma realidade directamente relacionada com o impacto da pressão arterial alta.
«As estatísticas em Portugal envergonham-nos: a mortalidade por acidente cerebrovascular, no contexto europeu, só é comparável à verificada na Rússia e nas antigas repúblicas da União Soviética. São números muito elevados, cerca de duas vezes os verificados em Espanha e quatro vezes os observados em França», esclarece o Prof. Agostinho Monteiro, presidente da Sociedade Portuguesa de Hipertensão (SPH).
Isto acontece porque existem muitos hipertensos que não têm o seu problema controlado. Grande parte nem sabe que tem pressão arterial elevada porque, precisamente, esta é uma síndrome assintomática, que não se denuncia a si própria de forma alguma durante muito tempo.
O primeiro sinal acaba por ser o AVC. Ou seja, «o doente nunca se queixou, nunca mediu a pressão arterial, e só quando tem um acidente cerebrovascular é que se verifica que ele já tinha, há muito tempo, a pressão arterial elevada», explica Agostinho Monteiro, avançando que, em Portugal, o facto de termos muitos acidentes vasculares cerebrais «indica que, provavelmente, há imensa hipertensão arterial não controlada».
O que fazer para melhorar?
Os números relativos ao impacto da hipertensão em Portugal são escassos: não se sabe, ao certo, quantos doentes existem e, destes, quantos estão controlados.
Nos EUA sabe-se que 34% do total de hipertensos estão controlados, enquanto na França os números descem para os 20 a 24%. Já no Reino Unido, o último relatório aponta para apenas 9% dos doentes controlados.
«Nós, provavelmente, estamos abaixo dos ingleses», adianta o presidente da SPH.
Para alterar estes números é também preciso que os médicos arregacem as mangas.
«O grande investimento deve ser feito na prevenção, diagnosticando precocemente a pressão arterial elevada e educando o doente sobre a hipertensão arterial», diz o nosso interlocutor.
No que toca aos médicos, existem normas de orientação definidas por sociedades científicas internacionais. Contudo, verificou-se, através de um estudo realizado na Alemanha, que quanto mais anos de prática tinha o médico menor adesão às normas de orientação clínica demonstrava.
«Há um problema: o próprio médico tem de aderir às guidelines», salienta Agostinho Monteiro.
Esta é, aliás, uma das funções definidas nos estatutos da SPH:
«Vamos divulgar essas normas junto dos médicos para os incentivar a aderir. As linhas de orientação não são tudo, mas, se as seguirmos, a probabilidade de termos mais doentes controlados é maior do que se não forem seguidas.»
Ao nível do Sistema de Saúde, Agostinho Monteiro encontra outras lacunas:
«O doente em Portugal tem de ter um médico, não pode ter 50. Deve ter um médico de família, que o conhece bem, que tem tempo para o ouvir. Só depois deve ser encaminhado para outro clínico, se houver necessidade disso.»
O especialista não tem dúvidas:
«O médico de família é a pessoa ideal para tratar a hipertensão arterial, provavelmente, o motivo mais frequente de visita numa consulta de Clínica Geral em adultos.»
Além de baixar os valores da pressão arterial do doente, o médico deve, também, fazer prevenção primária e secundária, ou seja, tratar todos os factores de risco e estar atento às causas do problema. Cada plano terapêutico deve ser personalizado.
«Por exemplo, dois doentes que têm valores de 150/95 mmHg, em que um deles é diabético e o outro não. Isto altera tudo. A probabilidade de o diabético ter um acidente cardiovascular ao fim de 10 anos é muito superior à do indivíduo que não é diabético», frisa.
Ou seja, coexistem vários problemas que contribuem para a falta de controlo da hipertensão em Portugal. A não aplicação das guidelines, o tempo que o médico deve dedicar a estes problemas e, noutra perspectiva, o problema da ausência de educação e de adesão à terapêutica por parte do doente.
Aqui a SPH assume também um papel importante: pretende levar até junto da população noções sobre a pressão arterial alta. O objectivo é consciencializar o doente e fazê-lo perceber que, apesar de não ter sinais ou sintomas, é essencial aderir à medicação ou, em alternativa ou em simultâneo, adoptar estilos de vida saudáveis que contribuam para a melhoria da sua qualidade de vida.
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