Doença mental, uma sombra na sociedade
A área de Dia, o Hospital de Dia, os fóruns sociocupacionais e as articulações com outras estruturas da área, como a Câmara de Odivelas, os Bombeiros e o Centro de Emprego, entre outros, permitem criar actividades promotoras da inserção social e do desenvolvimento de competências sociais.
De acordo com Teresa Gil, «é possível treinar determinado tipo de actividades que, posteriormente, melhoram a sua integração, ou na família ou, se possível, numa ocupação profissional. Os doentes necessitam, cada vez menos, do internamento e necessitam mais de uma assistência adequada para garantir-lhes qualidade de vida».
Para algumas patologias do foro psiquiátrico é essencial pensarmos numa complementaridade entre a terapêutica e a reabilitação.
«Tratam-se os sintomas, a pessoa fica com mais capacidades, mas se não se fizer mais nada os doentes mantêm a tendência ao isolamento. Daí a necessidade de se criar outro tipo de abordagens para estas doenças que devem incidir em áreas do social, familiar, profissional e mesmo individual, no que diz respeito às próprias capacidades do doente, no sentido de recuperar as perdidas e ganhar outras», salienta Ana Cristina Farias.
Além disso, a articulação da unidade com outras estruturas da comunidade possibilita uma alteração de conceitos criados relativamente ao doente mental. Para a Dr.ª Noélia Canudo, psicóloga e supervisora dos psicólogos da unidade, «o doente mental é tradicionalmente visto como uma pessoa à parte, mas o contacto próximo com instituições da comunidade tem auxiliado no rompimento deste estigma. Por exemplo, fizemos alguns debates em escolas sobre saúde mental que motivaram os alunos a olhar para o doente mental de uma forma mais adequada».
A inserção na comunidade de Odivelas tem sido bastante positiva e agora faltam outras condições, como um espaço maior e mais recursos humanos, que possibilite uma maior diferenciação das intervenções.
Para Ana Cristina Farias, «a evolução lógica de um projecto como este seria a abertura de residências na comunidade e a formulação de projectos de emprego protegido, no sentido da melhoria da qualidade dos cuidados».
Actualmente, a Unidade conta com consultas de Psicologia, Psiquiatria, Alcoologia e Tabagismo, uma área de Dia e um Hospital de Dia, no qual os doentes têm a oportunidade de desenvolver actividades no atelier de artes plásticas, que assume uma função terapêutica, na medida em que permite observar-se a evolução do doente e funciona como uma outra forma de comunicação – o doente consegue descobrir e exprimir coisas que de outra forma não seria capaz de transmitir.
A sala de Informática para formação na Internet, os fóruns sociocupacionais, a culinária, a dançoterapia e a sessão de movimento são outras das actividades presentes na unidade. A Associação Comunitária de Saúde Mental de Loures Ocidental também se situa no mesmo edifício e rege-se pelas mesmas intenções e princípios da unidade.
Com um intuito ocupacional e terapêutico, esta associação conta o trabalho de uma assistente social, de uma psicóloga e de um professor de artes, que gerem e fazem o desenvolvimento de actividades como sessões de movimento e relaxamento, acções com o objectivo de fomentar a comunicação e as relações interpessoais, jogos e saídas ao exterior. Nesta associação funcionam, ainda, os ateliers de encadernação, carpintaria, reciclagem do papel e artes plásticas para os utentes que apresentam uma faixa etária dos 20 aos 65 anos.
Grupo de Teatro Terapêutico
Desde finais de 1968 que o Grupo de Teatro Terapêutico (GTT) existe e à frente dele tem estado João Silva, encenador e responsável pelo GTT. A ideia deste grupo partiu, na altura, de alguns médicos do hospital e, desde então, tem mantido a sua actividade. A proposta inicial era realizar uma peça, apresentada como trabalho de fim de ano.
A iniciativa resultou e depois foi dar continuidade ao grupo. Ao longo de 36 anos, o GTT tem passado por dias melhores e dias piores, no entanto, o resultado é positivo.
«A apresentação de dezenas de trabalhos para milhares de pessoas tem provado a eficácia e a utilidade do grupo na possibilidade de servir a comunidade», adverte João Silva.
No fim dos anos 70, o grupo estreia as peças no hospital e dá início a apresentações no exterior, «levando os doentes-actores à comunidade, o que ajuda a desmistificar estigmas». A partir de 1997, o GTT passou a estrear os trabalhos no exterior do hospital, em lugares como o Teatro Maria Matos, o Instituto Franco-
-Português e a Culturgest, entre outros, e a apresentá-los, posteriormente, sempre que possível, na instituição.
No corrente ano, «Tordos à Deriva» estreou no Salão Nobre do Hospital Júlio de Matos e concretizou 18 exibições. Agora, prepara-se uma comédia.
«Nas reuniões, a maioria dos doentes-actores manifestou o interesse em realizar uma farsa ou uma comédia, visto que anteriormente as peças foram mais orientadas para o género dramático», explica o encenador.
Deste modo, João Silva escreveu A Borralhona, uma adaptação livre do conto tradicional A Gata Borralheira, no formato de «simbologia humorista». Esta é, com certeza, mais uma peça com potencial para brilhar dentro e fora dos muros do Hospital de Júlio de Matos, transpondo fronteiras e estigmas, referentes à doença mental, demasiado enraizados e possibilitando um contacto mais directo com a sociedade.
O GTT consegue, pelo seu trabalho, conciliar duas vertentes: a terapêutica com a artística/cultural, possuindo, deste modo, características pouco vulgares. Os actores são, de facto, doentes do Júlio de Matos, ou do exterior, que «vão aparecendo no Grupo de Teatro por recomendação dos médicos ou por iniciativa dos próprios utentes, desde que tragam uma autorização médica», afirma João Silva, salientando:
«A abordagem terapêutica, aliada a uma vertente artística/cultural, ajuda os actores a ultrapassar barreiras, proporcionando-lhes mais confiança e vontade. Aqui o trabalho também tem de se reger por uma certa sensibilidade e permite-se a liberdade que é possível, com algumas regras, para fazer surgir a criatividade.»
Porém, desengane-se quem pensa que aqui não há profissionalismo.
«Os actores acreditam no que estão a fazer porque aqui também as pessoas acreditam nelas e esse é o maior incentivo que se pode dar. Além disso, procura-se que o empenho e o profissionalismo seja idêntico ao de lá fora. Posso mesmo afirmar que a construção dos espectáculos é igual à construção de um outro tipo de trabalho lá fora», adverte o responsável pelo GTT.
E para que este grupo de teatro, com componentes menos usuais, continue a progredir no seu trabalho, com objectivos louváveis, há «necessidade de mais apoios de entidades exteriores ao hospital, como o Ministério da Cultura, por exemplo», apela, em tom de conclusão, João Silva.
Unidade de Terapia Ocupacional
Os corredores não enganam. São cores e formas que inundam as paredes e que nos levam de visita a outros mundos expressos nas telas. Estes mundos são construídos pelos doentes e conseguem exprimir fantasias, desejos, emoções e pensamentos para os quais, muitas vezes, faltam as palavras. É deste modo que eles se nos apresentam no seu mais íntimo porque, de outra forma, é difícil de comunicar.
O desenho e a pintura são actividades desenvolvidas no atelier das artes, que integra a Unidade de Terapia Ocupacional. Além das artes, existem ainda ateliers de carpintaria, reciclagem, encadernação e cozinha, entre outros.
De acordo com Maria João Gaudêncio, terapeuta ocupacional, «o recurso a actividades deste género tem como fim o desenvolvimento das competências. Por exemplo, na actividade criativa procura-se, através da expressão escrita, verbal ou até por desenho, debater com os doentes agudos um conjunto de ideias que nos permitem, depois, trabalhar com esses conteúdos e que nos ajudam a perceber como o internamento está a ser vivido por eles e que emoções estão mais presentes, entre outras noções».
Outro exemplo é a sessão de movimento que envolve duas fases: a mobilização articular e o relaxamento. Na primeira, através de jogos interaccionais procura-se corrigir padrões posturais viciosos, isto é, «corrigir as posturas cifóticas, que são indicadores e consequências, muitas vezes, do quadro clínico dos doentes. Além disso, nas doenças mentais há um “fechar em si” e ao pedirmos interacção estamos a contrariar a tendência deles», esclarece a terapeuta ocupacional.
No relaxamento, há uma orientação para «repor as energias do doente e reproporcionar o equilíbrio pelo desgaste anterior realizado», salienta Maria João Gaudêncio.
Libertar e descarregar as tensões acumuladas, adquirir uma sensação de bem-estar são outros dos objectivos do relaxamento.
O balanço, por parte dos doentes, é positivo.
«Gostei da sessão e gostei muito do relaxamento»; «Sinto-me com mais energia»; «Gostei de todos os exercícios» – foram alguns dos comentários ouvidos no fim da sessão.
Unidades de Vida Apoiada e de Treino Residencial
Casa das Olaias
Inserida na Unidade de Vida Apoiada, a Casa das Olaias é uma estrutura residencial destinada a doentes de evolução autónomos que, apesar de serem relativamente autónomos, necessitam de alguns cuidados mínimos médicos e de enfermagem. Aqui os residentes têm uma faixa etária mais elevada, entre os 50 a 60 anos, e o principal objectivo não é tanto a pretensão de adquirir autonomia, mas, pelo menos, manter as capacidades.
Todas as actividades procuram, nesse sentido, estimular a partilha entre o grupo, uma vez que, dada a idade avançada e pela própria doença mental, há uma maior predisposição para o isolamento. Os trabalhos artesanais, por exemplo, têm o objectivo de congregar o grupo, unindo-os para a realização de uma mesma actividade, como a elaboração de um tapete. Para tal existe uma escala de tarefas com várias perspectivas pedagógicas.
Casa das Tílias
A Casa das Tílias, inserida na Unidade de Treino Residencial, com capacidade para 10 utentes, tem, neste momento, seis residentes do sexo masculino, com a particular característica de serem doentes em vias de desinstitucionalização. Neste sentido, e com o objectivo de manter, ganhar e não perder capacidades, procura-se formar um projecto de vida.
Os residentes são responsáveis pela manutenção da residência (limpeza e conservação das instalações), pelo tratamento das roupas e, consoante os progressos, podem ou não ter as refeições a seu cargo. Todas as semanas há uma reunião com a equipa terapêutica, que é uma equipa multidisciplinar, na qual se discute a organização da casa, o relacionamento entre eles e onde se procura resolver eventuais conflitos.
Serviço
de Reabilitação
• Unidade de Transição
• Unidade de Treino Residencial:
o Casa das Tílias
• Unidade de Vida Autónoma:
o Casa de S. Bento
• Unidade de Vida Apoiada:
o Casa de Santa Rita
o Casa das Olaias
• Unidade de Terapia Ocupacional
• Hospital de Dia
• Escritório Europa
• Cooperativa Tíliascoop
A filosofia da intervenção comunitária
O projecto da Unidade Comunitária de Cuidados Psiquiátricos de Odivelas foi desenvolvido pelo Dr. João Cabral Fernandes que desempenhou, durante muitos anos, a função de coordenador e actualmente continua ligado à unidade.
A organização dos serviços de saúde mental e dos serviços de psiquiatra devem estar, fundamentalmente, nos hospitais gerais, como filosofia. Esta realidade deve ser adaptada a cada País em concreto. No caso de Portugal, não há hospitais gerais que comportem os serviços de psiquiatria.
«Neste sentido, a equipa da Clínica Psiquiátrica I, das quatro que existem no hospital, fez uma transferência de recursos para estas instalações, privilegiando a filosofia da intervenção comunitária», refere João Cabral Fernandes, acrescentando:
«Por essa filosofia entende-se a criação de serviços acessíveis, racionais, integrados e que possam fazer a ponte entre os cuidados primários e os hospitais gerais.»
A equipa, em 89, começou por equacionar e reflectir no projecto a concretizar e, em 91, arrancaram com a área de dia, dirigida a doentes psicóticos com menos capacidades de reabilitação, mas que necessitam de cuidados e, em 97, surge o Hospital de Dia.

