Tratamento da leucemia linfocítica crónica: realidade actual
A LEUCEMIA LINFOCÍTICA OU LINFÁTICA crónica B (LLC-B) continua a ser uma doença incurável, mas o seu tratamento tem evoluído indiscutivelmente na última década.
Os critérios de diagnóstico utilizados (NCI-WG = National Cancer Institute Working Group, 1996) são relativamente simples, mas a sua evolução clínica nem sempre é igual, o que torna necessário utilizar critérios de prognóstico para estabelecer um programa de tratamento.
Existem critérios de ordem clínica e laboratorial que podem e devem ajudar nas decisões terapêuticas. Os primeiros, estadiações de Rai e de Binet, são muito simples clássicos e de há longo tempo estabelecidos. Os segundos incluem uma panóplia de exames que percorrem várias áreas de laboratório, desde a citopatologia (morfologia e padrão de infiltração da medula óssea), passando por determinações bioquímicas (DHL, 2-microglobulina, CD23 solúvel), pela citometria de fluxo (CD38, ZAP-70) e pela citogenética FISH (sondas 17p-, 14IgH, 13q-, 12+, 11q- e 6q-), até à biologia molecular (estado mutacional da IgVH – região variável do locus das cadeias pesadas das imunoglobulinas no cromossoma 14).
Tratando-se de uma doença incurável, mas com uma evolução crónica, em que um número conside-rável de doentes nunca irá ser tratado e morrerá de outras causas, torna-se também especialmente importante decidir quando e como tratar. Também nesta matéria, estão bem-definidos os critérios de doença activa e em progressão que devem determinar o início do tratamento (NCI-WG, 1996).
Quanto ao tipo de tratamento, a escolha deve considerar as características da LLC (determinadas pelo maior número possível de critérios de prognóstico) e do próprio doente, onde a idade e as co-morbilidades adquirem muita importância. Das armas tera-pêuticas disponíveis, os análogos das purinas, em especial a fludarabina, têm um papel fundamental. Mais recentemente têm sido utilizados anticorpos monoclonais (alemtuzumab = antiCD52 e rituximab = antiCD20) e a transplantação de progenitores hemato-poiéticos com regimes de condicionamento submieloa-blativos. A quimioterapia clássica, baseada em combinações contendo agentes alquilantes ou em monoterapia, tem sido progressivamente relegada para situações pontuais ou de fase avançada de doença, onde a paliação hábil adquire um papel preponderante.
No entanto, a capacidade em obter respostas completas, quer com combinações de fármacos, quer utilizando as técnicas de transplantação, e a possibilidade em pesquisar a doença residual mínima, têm entusiasmado ultimamente a comunidade médica internacional. Fala-se em tratamentos intencional e potencialmente curativos e discute-se qual o significado clínico de resposta completa, bem como o preço a pagar pelo doente – a toxicidade e as complicações daí derivadas, algumas delas podendo ser mortais.
Fora do contexto de ensaios clínicos e/ou de protocolos institucionais, o tratamento dum doente com LLC-B deverá ser programado tendo em conta o tipo de doença e de doente, e sempre com o objectivo de aumentar a quantidade de vida sem prejudicar a qualidade da mesma. De um modo geral, a LLC-B é uma doença característica da terceira idade do hemisfério ocidental, e como tal atinge um escalão cada vez mais importante da nossa sociedade, quer em número quer em utilidade social.
Comentário
A Reunião Anual do Grupo de Estudo das Doenças Linfoproliferativas Crónicas decorreu no dia 29 de Janeiro de 2005, na Quinta das Lágrimas, em Coimbra, por iniciativa da Schering Lusitana, e cujo conteúdo científico tive o prazer de elaborar.
A escolha incidiu sobre duas doenças linfoproliferativas crónicas – a leucemia linfocítica crónica (LLC) e o linfoma folicular (LF) –, que se caracterizam por serem ainda incuráveis, terem uma evolução crónica e uma incidência que aumenta com a idade. A LLC é a leucemia mais frequente das sociedades ditas ocidentais e o LF representa cerca de 1/3 de todos os linfomas não-Hodgkin, que é tão só a doença hematoncológica mais frequente (é o sétimo tumor mais frequente nos países desenvolvidos).
Atendendo as estas características, adquire espe-cial relevância um diagnóstico correcto e uma caracterização prognóstica o mais precisa possível, de modo a permitirem estabelecer qual o tratamento mais indicado e qual a altura em que deve ser utilizado.
Sendo que nos últimos tempos tem havido uma indiscutível evolução tecnológica, sobretudo nas vertentes laboratorial e farmacológica, foram seleccionados dois temas: 1) A contribuição para o diagnóstico, prognóstico e seguimento do laboratório (citometria de fluxo, biologia molecular e citogenética FISH) e dos métodos de imagem (tomografia axial computorizada, ressonância magnética nuclear e tomografia emissora de positrões); 2) Actualidades no tratamento.
Assim, foram convidados especialistas portugueses com particular relevo nestas áreas e um especialista estrangeiro de renome mundial.

