Crononutrição: horas para comer?
Há cada vez mais estudos experimentais que revelam uma importante influência da alimentação (horas e quantidade) na regulação dos ritmos biológicos, não só dos órgãos mais directamenteenvolvidos no metabolismo, como o fígado, como no próprio relógio central.
Um investigador da Universidade Johns Hopkins, depois de publicar uma excelente revisão sobre a ingestão de energia e frequência das refeições (Mattson MP: Energy intake, meal frequency, and health: a neurobiological perspective. Ann Ver Nutr 25: 237, 2005), lançou um desafio, na Lancet, para a investigação dos efeitos do número e horas das refeições na saúde (Mattson MP: The need for controlled studies of the effects of meal frequency on health. Lancet 365: 1978, 2005). Talvez estejamos a comer refeições a mais (pense-se na moda dos snacks), talvez a horas inconvenientes…Há que investigar!
Há muito, muito tempo que se conhecem os ritmos biológicos. As primeiras descrições dizem respeito a plantas, que ora levantam as folhas, ora as deixam cair, ora abrem a corola, ora a fecham, ora emitem odores, ora não, de acordo com as horas. Quanto aos animais, são seguramente muito antigas, também, as observações de ritmos de comportamento, sendo um dos mais evidentes a alternância sono/vigília, mas também a alternância de períodos férteis/inférteis e a migração em certas épocas do ano.
O que são relógios biológicos?
A descoberta de marcadores de tempo (relógios biológicos) e o conhecimento dos respectivos mecanismos só pôde ser feita nas últimas décadas, com as metodologias entretanto disponíveis. Podemos descrevê-los, de uma forma simplificada, como a oscilação na expressão de certos genes que, aumentando, leva ao aumento da concentração das respectivas proteínas que, por sua vez, ao atingirem determinada concentração conduzem à frenação da actividade dos genes; deixam de se sintetizar as proteínas que, ao serem degradadas, a certa altura permitem, de novo, a actividade dos genes. E repete-se o ciclo.
Agora sabemos que temos efectivamente relógios endógenos, em vários tecidos do organismo, havendo um relógio central, que tenta manter a sintonia do conjunto, no sistema nervoso central (núcleo supraquiasmático, no hipotâlamo). Na realidade, todos os seres vivos na terra estão adaptados aos ciclos correspondentes aos movimentos da terra em torno do seu eixo, que marcam o dia de 24 horas, com a sucessão dia-noite (ritmos circadianos). Outros fenómenos fisiológicos relacionam-se com o movimento da lua em torno da terra, que marca o mês lunar, e da terra em torno do sol, que marca as estações do ano.
Benefícios dos relógios endógenos
Os relógios endógenos permitem aos seres vivos anteciparem a necessidade de preparação para determinadas actividades, as que as condições do ambiente vão permitir. Este poder de antecipação tem também vantagens económicas, pois permite a activação de sistemas (enzímicos, celulares, organísmicos) quando vão ser necessários, restando num nível de actividade muito mais baixo fora desses períodos.
Um aspecto muito interessante e importante do funcionamento dos relógios biológicos é o que diz respeito ao seu acerto por sinais externos, um dos sinais mais importantes sendo a luz (solar, que indica o dia), mas também a temperatura, a actividade física, o sono e as refeições.
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