Acidentes rodoviários, quedas, intoxicações…“Os acidentes são possíveis de prevenir” - Médicos de Portugal

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Acidentes rodoviários, quedas, intoxicações…“Os acidentes são possíveis de prevenir”

12 Outubro, 2007 0

“Portugal poderia salvar anualmente 560 crianças vítimas de acidentes se conseguisse reduzir a taxa de mortalidade por esta causa para os níveis da Suécia, o país da União Europeia com melhor prestação nesta área, como estimou a Aliança Europeia de Segurança Infantil”, assegurou ao Jornal do Centro de Saúde, a responsável pela área dos traumatismos e lesões do Alto Comissariado da Saúde (ACS), Dra. Elsa Rocha.

A entrevista decorreu no quadro da reunião sobre estratégias nacionais para a prevenção de acidentes e promoção da segurança que o ACS promoveu, em colaboração com a Direcção-Geral da Saúde (DGS) e a Associação para a Promoção da Segurança Infantil (APSI), em Lisboa, noticiada na última edição.

Os grupos mais vulneráveis a traumatismos e lesões não intencionais são as crianças, deficientes e idosos. Como prevenir os acidentes em cada um destes grupos?

Elsa Rocha – Tradicionalmente são conhecidos os 4 Es das estratégias globais para a prevenção de acidentes – Education, Enforcement, Engineering, Environment. Na prática, o importante é a construção de ambiente mais seguros, com os quais todos os grupos etários irão beneficiar, sobretudo as populações mais vulneráveis de crianças, deficientes e idosos.

O facto de termos dado um enfoque maior às crianças é porque neste grupo etário os acidentes constituem a primeira causa de morte. Portugal poderia salvar anualmente 560 crianças vítimas de acidentes se conseguisse reduzir a taxa de mortalidade por esta causa para os níveis da Suécia. Na Europa dos 25, apenas cinco países têm pior taxa de mortalidade do que Portugal, com 8.95 por 100 000 habitantes. Os acidentes são possíveis de prevenir, as estratégias de intervenção estão identificadas, temos só que seguir os exemplos de boas práticas.

Investir na prevenção de acidentes é um bom investimento! DE acordo com um estudo do CDC, de 2000, por cada euro gasto em aconselhamento por pediatras em prevenção de acidentes ganham-se 10 euros, por cada euro gasto em detectores de fumo ganham-se 69 euros, por cada euro gasto em sistemas de retenção para o automóvel ganham-se 32 euros e por cada euro gasto em capacetes de bicicleta, ganham-se 29 euros.

Para quando se prevê a implementação em Portugal do Programa Nacional de Prevenção e Controlo de Acidentes?

Elsa Rocha – O Programa é ainda um documento de trabalho da Direcção-Geral da Saúde (DGS). Está em fase de consulta e discussão pública.

Pretende-se um maior envolvimento de outros Ministérios e da sociedade civil no seu processo de elaboração, para que se promova um sentido de pertença, responsabilidade e compromisso que facilite a sua implementação. Nesta área dos acidentes, a causalidade múltipla implica uma abordagem política multidisciplinar e transversal.

Antes de tudo, é necessário estabelecer um sistema integrado de recolha e análise da informação que facilite não só a análise epidemiológica, mas também a avaliação da eficácia e da relação custo-benefício das estratégias.

Porque é que os jovens portugueses sofrem mais acidentes?

Os traumatismos e lesões não intencionais constituem a primeira causa de morte entre os jovens até aos 15 anos. Perguntámos à Presidente da APSI, Helena Cardoso de Meneses, quais as razões.

HCM – Trata-se de uma “epidemia” em toda a Europa. Apesar de ser notória a redução da mortalidade, e a maior sensibilidade nesta área, há ainda um longo caminho a percorrer. Portugal é um dos países com as taxas de mortalidade e morbilidade mais elevadas devido aos traumatismos e lesões. Esta realidade é devida ao atraso estrutural e cultural no nosso País que se reflecte em insuficiências ou lacunas na educação, nos critérios que ainda orientam determinadas políticas, ou que justificam a falta delas, e ainda em distorções, ou ausência de noção, do que é sentido cívico.

Temos também um paradoxo em relação à visão do que é o desenvolvimento saudável: por um lado, há um super-proteccionismo que as limita em nome da segurança, e, por outro, uma negligência relativamente aos ambientes e aos modelos a que são expostas.

Qual o envolvimento da APSI no Plano de Acção para a Segurança Infantil (projecto europeu – Child Safety Action Plan)?

HCM – A APSI, enquanto membro da Aliança Europeia de Segurança Infantil, assumiu em 2004 a coordenação deste projecto que conta actualmente com o apoio do Ministério da Saúde. A nossa missão é conseguir envolver e promover o trabalho conjunto entre todos os sectores necessariamente envolvidos na prevenção de acidentes e na redução das suas consequências, e depois de elaborado e aprovado, acompanhar e monitorizar a sua concretização. Este projecto pretende dar execução ao PNPCA e ao PNS.

Neste momento, já terminámos uma proposta da visão para os próximos dez anos. Estamos confiantes de que esta plataforma intersectorial, pela sua eficácia, possa constituir um exemplo de metodologia a adoptar para outras áreas dos acidentes, como por exemplo nos idosos.

“É preciso diminuir a morbilidade das crianças e dos adolescentes”

Prof.ª Doutora Maria do Céu Machado
Alta Comissária da Saúde

Em Portugal, a mortalidade infantil (abaixo de um ano de idade) melhorou muito nos últimos vinte ou trinta anos. Neste momento estamos com uma taxa de mortalidade ao nível dos países mais evoluídos.

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