Acidentes rodoviários, quedas, intoxicações…“Os acidentes são possíveis de prevenir”
Antes de tudo, é necessário estabelecer um sistema integrado de recolha e análise da informação que facilite não só a análise epidemiológica, mas também a avaliação da eficácia e da relação custo-benefício das estratégias.
Porque é que os jovens portugueses sofrem mais acidentes?
Os traumatismos e lesões não intencionais constituem a primeira causa de morte entre os jovens até aos 15 anos. Perguntámos à Presidente da APSI, Helena Cardoso de Meneses, quais as razões.
HCM – Trata-se de uma “epidemia” em toda a Europa. Apesar de ser notória a redução da mortalidade, e a maior sensibilidade nesta área, há ainda um longo caminho a percorrer. Portugal é um dos países com as taxas de mortalidade e morbilidade mais elevadas devido aos traumatismos e lesões. Esta realidade é devida ao atraso estrutural e cultural no nosso País que se reflecte em insuficiências ou lacunas na educação, nos critérios que ainda orientam determinadas políticas, ou que justificam a falta delas, e ainda em distorções, ou ausência de noção, do que é sentido cívico.
Temos também um paradoxo em relação à visão do que é o desenvolvimento saudável: por um lado, há um super-proteccionismo que as limita em nome da segurança, e, por outro, uma negligência relativamente aos ambientes e aos modelos a que são expostas.
Qual o envolvimento da APSI no Plano de Acção para a Segurança Infantil (projecto europeu – Child Safety Action Plan)?
HCM – A APSI, enquanto membro da Aliança Europeia de Segurança Infantil, assumiu em 2004 a coordenação deste projecto que conta actualmente com o apoio do Ministério da Saúde. A nossa missão é conseguir envolver e promover o trabalho conjunto entre todos os sectores necessariamente envolvidos na prevenção de acidentes e na redução das suas consequências, e depois de elaborado e aprovado, acompanhar e monitorizar a sua concretização. Este projecto pretende dar execução ao PNPCA e ao PNS.
Neste momento, já terminámos uma proposta da visão para os próximos dez anos. Estamos confiantes de que esta plataforma intersectorial, pela sua eficácia, possa constituir um exemplo de metodologia a adoptar para outras áreas dos acidentes, como por exemplo nos idosos.
“É preciso diminuir a morbilidade das crianças e dos adolescentes”
Prof.ª Doutora Maria do Céu Machado
Alta Comissária da Saúde
Em Portugal, a mortalidade infantil (abaixo de um ano de idade) melhorou muito nos últimos vinte ou trinta anos. Neste momento estamos com uma taxa de mortalidade ao nível dos países mais evoluídos.
Devemos estar satisfeitos e desencadear todas as acções para sustentar essa taxa de mortalidade. No entanto, estamos ainda aquém do desejável na mortalidade abaixo dos cinco anos e dos 0 aos 14 anos.
Mais concretamente, abaixo de um ano, a principal causa de mortalidade é a patologia perinatal (relacionada com o nascimento e com a prematuridade). Acima de um ano a principal causa de mortalidade são realmente os acidentes.
O principal objectivo do PNPCA é baixar a causa de morte dos 0 aos 14 anos, que, em Portugal, é de 8,95 por 100 mil crianças e que nos coloca no pior país comunitário e numa posição intermédia nos países europeus.
“Os acidentes são um grave problema de saúde pública”
Dr. Pedro Ribeiro da Silva
Divisão de Promoção da Educação para a Saúde da Direcção-Geral da Saúde
Os acidentes são uma causa importante de mortalidade, de deficiência crónica, de elevados custos com internamentos e tratamentos hospitalares, de perda de dias de trabalho.
Como uma percentagem elevada das pessoas que morrem e ficam com deficiência crónica são jovens, há um enorme potencial de materialização de projectos e energias que não se concretiza, apesar do grande investimento, emocional, afectivo e material despendido pelas vítimas, familiares e sociedade.
A morte e a incapacidade temporária ou definitiva são um enorme prejuízo para qualquer sociedade e cada lesão evitável será sempre uma lesão inaceitável perante os parâmetros científicos actuais.
Devido à magnitude dos efeitos dos acidentes sobre a sociedade, passou a ser consensual na comunidade científica que os acidentes configuram um grave problema de saúde pública.

