Contrariamente ao que se pensa, as doenças musculoesqueléticas não são exclusivas da idade adulta. Nos primeiros anos de vida, podem surgir algumas deformidades congénitas que colocam em risco o desenvolvimento físico da criança. Mas, hoje em dia, já é possível corrigir grande parte destas complicações com uma elevada taxa de sucesso.
Até há bem pouco tempo, quem nascia com deformidades dos pés ou, por algum motivo, cambaleava estava “condenado” a usar as famosas botas ortopédicas. Este cenário mudou, graças ao aperfeiçoamento de técnicas de reconstrução ortopédica. “Actualmente, com gestos simples consegue-se introduzir pequenas alterações do crescimento das crianças”, diz o Dr. Manuel Cassiano Neves, director do Serviço de Ortopedia do Hospital D. Estefânia.
Hoje, sabe-se que algumas situações congénitas podem prejudicar o desenvolvimento da criança. É, por isso, importante que, desde cedo, os pais estejam atentos a eventuais alterações do sistema musculoesquelético para que estas possam ser corrigidas precocemente. Para tal, o ortopedista garante que rastreio de alguns problemas pode ser efectuado em três etapas da vida da criança.
“Até aos dois anos de idade, deve-se reparar se os pés da criança apresentam alguma deformidade, bem como as ‘pernas em cavaleiro’. Mais tarde, por volta dos 8 anos, o alinhamento dos membros é a segunda preocupação. Isto porque há crianças que não endireitam automaticamente as pernas em forma de X até esta idade. Na adolescência – a fase final de crescimento – há necessidade de redobrar os cuidados com a coluna vertebral.”
Nascer com deformidades ortopédicas
No grupo das doenças congénitas que mais afectam a população infantil estão as displasias do desenvolvimento da anca (luxação) e as deformidades do pé, nomeadamente o pé boto. Há, ainda, situações de torcicolo congénito que se conseguem observar em crianças que “andam sempre com a cabeça de lado”.
“O pé boto (vulgo torto) é uma deformidade grave, quando não tratada”, fundamenta o especialista. Os números indicam que esta situação ocorre em cada três casos por mil nascimentos. Para tratar o pé boto recorrer-se a “gesso envolvendo o pé e até à coxa”, já que a cirurgia “está confinada a uma pequena secção do tendão de Aquiles”.
No leque de malformações do pé aparece, ainda, o pé chato. Uma situação “benigna” que, até há uns anos, era “corrigida” com botas ortopédicas. “Estas ortoteses não têm uma acção terapêutica sobre o pé chato”, acrescenta o ortopedista. E adianta: “Sabe-se que 95% das crianças com o pé chato conseguem fazer uma vida perfeitamente normal na vida adulta, pelo que falar em tratamento desta patologia é algo controverso.”
O especialista refere, no entanto, que, hoje em dia, as malformações congénitas “têm diminuído”, em virtude de uma maior facilidade do diagnóstico pré-natal. Mas não só: “As melhores condições de higiene reduziram o impacto de infecções.”
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Escoliose afecta 30% das crianças
Quando surge numa fase precoce, a escoliose – uma afecção que consiste num desvio da coluna vertebral – tem repercussões no desenvolvimento da criança. Embora se possa imputar como causa o peso das mochilas e a obesidade, o especialista indica que, na maioria dos casos, a origem desta patologia é desconhecida.
É, por isso, de evitar que o peso que se carrega às costas ultrapasse os 10% do peso corporal da criança, já que esta situação pode ser um factor agravante da escoliose. O mesmo se passa em relação à má postura.
Torna-se, então, imperativo que as crianças, desde cedo, “sejam educadas para terem uma postura correcta”, do mesmo modo que são ensinadas a lavar os doentes. “A postura faz parte de uma higiene corporal”, remata Manuel Cassiano Neves.
Quando a escoliose ultrapassa os 40 graus de curvatura (a coluna forma um “S” no plano antero-posterior), está indicada a realização de cirurgia. “Os avanços das técnicas cirúrgicas passaram a ser mais eficazes e capazes de corrigir as deformidades, de modo menos agressivo e com menos segmentos atingidos.”
A par da escoliose, o especialista regista outras deformações do desenvolvimento, que tanto podem estar associadas ao nascimento ou a factores externos, adquiridos durante a fase de crescimento. “O osso é um tecido vivo que precisa de sangue para viver. Se não há um fluxo adequado, verifica-se um défice de vascularização e o tecido ósseo morre.”
É no início da infância e da adolescência que surgem algumas alterações do desenvolvimento ósseo, nomeadamente a doença de Perthes ou a epifisiólise superior do fémur. “No primeiro caso, a cabeça do fémur não se desenvolve naturalmente.
Já a epifisiólise está directamente relacionada com a cartilagem de crescimento, que se torna mole e, deste modo, contribui para um deslizamento da cabeça do fémur e uma consequente deformidade ao nível da anca.”
Prevenir antes de remediar
“Há mais interesse em apostar num medicina preventiva do que curativa”, refere o ortopedista. Por esta razão, “nas consultas de Ortopedia pediátrica tenta-se fazer uma avaliação do crescimento da criança”. Segundo a Academia Americana de Pediatria, “todas as crianças, mesmo as saudáveis, devem ser acompanhadas por um ortopedista aos 2, aos 8 e aos 12 anos”.
É nestas idades que se “observam alterações no desenvolvimento da criança, pelo que compete ao ortopedista realizar um exame de rastreio para evitar complicações na idade adulta”. Com este acompanhamento, os especialistas “percebem o potencial de desenvolvimento e conseguem modular o crescimento”.
Ortopedia infantil em números
Luxação da anca: 3 em cada mil nascimentos
Pé boto: 1 em cada 3 mil nascimento
Escoliose: 1 em cada 5 mil nascimentos
Jornal do Centro de Saúde
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