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Suplementos Alimentares e Produtos “Naturais” nas Farmácias

Dos anos 70 em diante assistiu-se a uma gradual convergência nas preocupações da saúde com o culto da forma. Era já então notório o aumento da esperança de vida, estabeleciam-se os conceitos de promoção da saúde e qualidade de vida, valorizaram-se os estilos de vida mais saudáveis e noções como “estar bem dentro da pele” entraram na gíria comum.

Como é evidente, o mercado, sempre atento às tendências e expectativas dos consumidores, reagiu das mais diversas maneiras, através do surgimento de ginásios e health centers; investigação na dermocosmética, incremento dos auto-cuidados em saúde, pesquisas das indústrias agro-alimentares na área dos suplementos alimentares, inúmeras propostas para o emagrecimento, apareceram alimentos referindo a adição de vitaminas ou minerais, os suplementos alimentares saíram do desporto para a vida quotidiana, entre outros.

Não haverá exagero em dizer-se que nos anos 80 “estar bem dentro da pele” se transformou num conceito com vários sentidos abarcando a alimentação, a higiene, a cosmética, os produtos de saúde, os suplementos alimentares, os produtos ditos “naturais”, probióticos/prebióticos e os biológicos, os alimentos com alegações de saúde, apareceram ruidosamente os alimentos funcionais, entre outros.

O capital “saúde” invadiu assim a saúde pública, a agricultura, a indústria alimentar, a própria ecologia. Parecia (e parece) que a capacidade terapêutica deixara de ser um assunto exclusivo dos profissionais de saúde, o bem-estar tornara-se na mais florescente oportunidade de negócios.

E emergiram, claro está, as contradições de um paradigma em que a atracção pela saúde passou a estar monitorizada acima de tudo pelo espírito do lucro, com a sugestão de que tudo o que estava no mercado é para dar saúde e prevenir a doença.

Estamos hoje confrontados com concretos e difusos problemas de saúde que resultam de escolhas de produtos de consumo e serviços que podem afectar o estado normal de saúde ou agravar o estado da doença crónica.

Os exemplos apresentados têm a ver com produtos que são equiparados aos alimentos mas que, muitas vezes, são utilizados como se de medicamentos se tratassem, e outros ditos “naturais” que não deixam por isso de ter riscos, para os quais os potenciais compradores devem estar alertados.

 

Nem tudo o que luz é ouro

Dizia o médico grego Hipócrates que “o teu alimento seja o teu único alimento”.

Paradoxalmente, não se podia imaginar melhor publicidade para os suplementos alimentares. Quem lê a maior parte desta publicidade até pode ser levado a supor que vivemos todos em desequilíbrio alimentar, o que está muito longe de ser verdade.

Há promessas que falam em perda e gordura, em preparar a pele para o bronzeado e não é incomum vermos afirmações que avançam veladamente para promessas terapêuticas. Nunca como hoje se venderam tantos suplementos sobre a miragem de que facilitam ou promovem o emagrecimento ou favorecem a redução de peso.

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Ora o consumo de um suplemento alimentar deve ter por trás a recomendação de um profissional de saúde.

Na generalidade dos casos, uma alimentação diversificada é mais do que suficiente para fornecer ao nosso organismo tudo o que ele necessita. É evidente que há circunstâncias na vida que podem justificar a proposta de um suplemento: estão nesse caso a gravidez, a menopausa, uma actividade profissional que nos incompatibilize temporariamente um regime alimentar sadio, por exemplo.

A legislação dos suplementos é, no plano dos princípios, rigorosa: a empresa responsável pelo produto deve mencionar “suplemento alimentar” na embalagem, indicar o modo de emprego e a dose diária recomendada bem como a lista de todas as substâncias que fazem parte da composição do suplemento; as precauções do uso devem aparecer de modo bem visível na rotulagem, bem como a recomendação de que um suplemento não substitui uma alimentação variada e equilibrada.

Se a publicidade não pode mencionar nos suplementos alimentares propriedades profilácticas ou de tratamento, o que leva as pessoas a tais consumos? Trata-se certamente de uma atmosfera que extravasa as subtilezas de alguma comunicação publicitária, a descrença de que só se emagrece cumprindo disciplinadamente um regime alimentar adequado à natureza do peso a mais e ao estado fisiológico de cada um, é a convicção da mezinha ou da panaceia.

 

Prudência com os produtos ditos “naturais”

O farmacêutico, quando solicitado para recomendar um medicamento não prescrito, tem em atenção toda a terapêutica que o doente esteja a fazer e questiona-o se está a tomar “produtos naturais”. Procede assim porque pode haver incompatibilidades entre os medicamentos não prescritos e alguns destes “produtos naturais” como também há entre estes e alguns medicamentos prescritos pelo médico.

Cabe ao doente informar em todas as circunstâncias o farmacêutico sobre os medicamentos que toma (prescritos ou não prescritos) e ter em consideração que os “produtos naturais” ou à base de plantas ou mesmo os suplementos alimentares podem, em conjunto com as substâncias presentes nos medicamentos, aumentar a sua toxicidade, pelo que o farmacêutico deve dispor de informação sobre os chás ou outros “produtos naturais” que o doente esteja a tomar.

Pode ainda suceder que o produto seja prejudicial a doenças que a pessoa possui, pelo que também deve informar o farmacêutico sobre as suas doenças para que se verifique se é seguro tomar determinado produto.

Nada é inofensivo: um chá verde que contém cafeína, consoante a quantidade presente, pode provocar reacções adversas como transtornos gastrointestinais e ansiedade; no caso da papaia ou do ananás, e, mais uma vez, dependendo da quantidade a tomar, pode haver necessidade de ter precaução no caso da toma de certos anticoagulantes.

Não arrisque, peça sempre o conselho do seu farmacêutico antes de usar produtos ditos naturais, diga em todas as circunstâncias o que anda a tomar antes que este dispense qualquer medicamento.

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Alegações nutricionais e de saúde

Desde Dezembro de 2006 que existe legislação europeia referente às alegações nutricionais e de saúde sobre os alimentos, impulsionada pelas indústrias agro-alimentares que dão ênfase em ingredientes, com promessas de saúde: para reduzir o colesterol (com os fitoesteróis), para prevenir problemas cardiovasculares (com os ómega 3), para promover o bem-estar digestivo (com os probióticos) ou o envelhecimento (com os antioxidantes).

A corrida à inovação é de tal ordem que há empresas que procuram abranger cada vez mais situações de saúde com o mercado dos probióticos. A conjugação de esforços com o sector farmacêutico é também muito grande, à procura de novos ingredientes para incorporar no fabrico de alimentos.

Duas coisas ocorrem dizer: na maior parte dos casos há falta de dados resultantes de estudos científicos, e muita investigação independente rejeita estas promessas, remetendo os consumidores ou para o médico ou para um regime alimentar diversificado; continua a não ser possível associar de forma robusta a estes alimentos referências ao ritmo ou à quantificação da perda de peso, são obrigatórias as informações nutricionais e o uso de alegações deve basear-se e fundamentar-se em evidências científicas geralmente aceites.

Aguarda-se que a Comissão Europeia estabeleça perfis nutricionais específicos, que os alimentos ou determinadas categorias devem respeitar para poderem ostentar alegações nutricionais ou de saúde, bem como as condições de utilização das alegações nutricionais e de saúde no que respeita aos perfis nutricionais.

É sempre positivo sensibilizar a indústria alimentar e as empresas dos suplementos para esta necessidade de prudência, com contenção nas promessas publicitárias.

FARMÁCIA SAÚDE – ANF

www.anf.pt

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