Cada mulher vive o fim da menstruação à sua maneira. Como defende o Dr. Daniel Pereira da Silva, «há uma susceptibilidade individual que não tem tradução em qualquer exame ou análise».
O importante, sublinha o ginecologista, é que esta nova fase da vida seja «aceite pela mulher com naturalidade, com galhardia, com alegria de ser quem é».
A menopausa é um processo natural, determinado sobretudo por mecanismos genéticos, e traduz-se na ausência de menstruação em consequência da paragem de funcionamento do ovário.
Os primeiros sinais são os atrasos menstruais e os afrontamentos e a menopausa ocorre, em média, aos 50 anos, sendo que a maior parte dos casos acontece entre os 47 e os 52 anos. A idade em que a mãe ou a avó tiveram a menopausa é sempre um indicador de referência. Um choque emocional intenso pode precipitar todo o processo, assim como o tabagismo, que favorece o seu aparecimento mais precoce.
Os sintomas mais frequentes são os calores, os afrontamentos e os suores nocturnos.
«A mulher sente uma onda de calor que a invade desde a cintura até à face; sente um rubor intenso e súbito na face e pescoço, acompanhado de suores profusos», explica o Dr. Daniel Pereira da Silva, presidente da Sociedade Portuguesa de Ginecologia (SPG), acrescentando:
«Estes são os sintomas que as mulheres mais associam à menopausa, mas a carência hormonal implica muitas outras queixas, por exemplo, maior irritabilidade, maior dificuldade de concentração e memória, maior tendência para a ansiedade e depressão, perturbações nas relações sexuais e insónias.»
Alguns anos mais tarde, se nenhuma correcção for feita precocemente, «intensificam-se as queixas urinárias e as relacionadas com as relações sexuais, como sejam a secura vaginal e as dores que surgem durante o acto sexual». O ginecologista adianta que a menopausa também tem um forte impacto na osteoporose, «na medida em que acelera a sua progressão».
Será, ainda, sentida como
um castigo?
A intensidade do impacto que a menopausa tem no quotidiano está directamente relacionada com as características pessoais da mulher e com a sua personalidade. É inegável que a estabilidade psico-afectiva é determinante neste processo.
«Há, por outro lado, uma susceptibilidade individual que não tem tradução em qualquer exame ou análise. Só metade das mulheres valorizam as queixas, um quarto não as sente e para outras tantas é um verdadeiro tormento!», sublinha o ginecologista, adiantando:
«A questão fundamental é que, nesta fase da vida, a mulher faz face a problemas muito exigentes. É uma etapa em que ela questiona muito os seus atributos femininos e valoriza em demasia os sinais dos anos, aumentando assim a sua insegurança como mulher.»
É também nesta altura que, muitas vezes, aumentam as exigências na família. Basta pensar na idade dos filhos, na idade dos pais e na falta de disponibilidade do companheiro.
«E ela aos 47 – 50 anos? O que sente? Como está a sua situação profissional?
É neste contexto que aparece a menopausa, com aquele cortejo de sintomas, que mais a vulnerabilizam», explica Daniel Pereira da Silva, frisando que «quanto mais estiver segura de si própria mais prontamente enfrentará os problemas e melhores soluções encontrará».
A forma como a menopausa é vivida depende de muitos factores, nomeadamente das relações interpessoais no seio do casal, entre amigos ou colegas de trabalho.
«Tal como em muitas outras situações, a sociedade é, por vezes, perversa. Basta ter atenção aos termos que se usam quando uma mulher é rabugenta. Há logo quem a apelide de menopáusica, em termos jocosos», refere Daniel Pereira da Silva, acrescentando:
«Julgo que há uma tendência para melhorar, até porque é crescente o número de mulheres em pós-menopausa com quem convivemos.»
O especialista reforça que o mais é importante é mesmo a atitude da mulher: importa que ela assuma com naturalidade mais esta fase da sua vida, que o faça com galhardia, com alegria de ser quem é.
«É determinante que saiba valorizar os seus atributos e que constate estar apenas a viver uma nova fase, que implica algumas perdas, mas também alguns ganhos. Deixar de menstruar é bom ou mau? Deixar de se preocupar com a gravidez é bom ou mau?», reforça o ginecologista.
Recuperar a qualidade
de vida
Sendo que os sintomas da menopausa decorrem da falta das hormonas do ovário, o melhor tratamento é, indiscutivelmente, a administração dessas mesmas hormonas. É este o conceito do tratamento hormonal de substituição (THS), que pode ser administrado por via oral ou através da pele.
«Não há outros tratamentos tão eficazes. Sem dúvida alguma, a grande mais-valia da THS reside na sua eficácia na recuperação da qualidade de vida da mulher no pós-menopausa», garante o ginecologista.
Há que distinguir os dois grandes tipos de THS: uma com estro-génios isolados e outra com estrogé-nios associados à progesterona.
A primeira destina-se a mulheres sem útero, a segunda a mulheres com útero.
«Misturam-se os dois tipos na comunicação social, quando se sabe que o tratamento com estrogénios isolados tem menos riscos que o outro. De qualquer forma são genericamente seguros. Não são panaceia e não devem ser usados por todos as mulheres. Quando são correctamente usados e quando se faz um bom acompanhamento, os riscos não são significativos», afirma Daniel Pereira da Silva.
«Como já referi, não existem alternativas válidas à THS. Os fitoestrogénios têm sido muito referidos, mas não são muito eficazes. Para os calores e afrontamentos têm uma eficácia cerca de 10% acima do placebo, o que não é muito elevado», esclarece o especialista, adiantando:
«Só devem ser usados em alternativa à THS quando a mulher não a aceita ou quando está contra-indicada. Neste âmbito, podemos usar ainda alguns antidepressivos e o sulpiride. Para os outros indicadores de qualidade de vida não conheço trabalhos que justifiquem o uso dos fitoestrogénios.»
Há, contudo, uma nova classe de substâncias muito promissoras – o grupo dos STEAR (reguladores selectivos da actividade estrogénica tecidular) –, da qual já é usada a tibolona.
«Em minha opinião, deve ser considerada como um grupo especial de THS, e é alternativa à associação do estrogénio com progesterona. Parece ser mais segura que aquela associação a nível da mama e a sua mais-valia é o efeito positivo na estimulação da libido e a melhoria dos indicadores de qualidade de vida», refere o nosso interlocutor.
Estar na menopausa implica vigilância médica?
A mulher deve ter mais cuidado com a sua saúde, na medida em que há uma série de perturbações ou doenças que são mais frequentes após os 50 anos.
«Não deve deixar de fazer os exames de prevenção: consulta de ginecologia, citologia e mamografia, análises gerais, controlo da tensão arterial, do peso e da dieta», explica Daniel Pereira da Silva, adiantando:
«Deve dar maior atenção ao que sente, aos sinais do seu corpo. Procure o seu médico logo que sinta algo de anormal: os sintomas que já referi, uma perda de sangue inesperada, qualquer alteração na mama, modificação nos seus hábitos intestinais.»
BAIXA DE ANDROGÉNIOS
PROVOCA DIMINUIÇÃO DA LIBIDO
Disfunção sexual é frequente
A diminuição da libido e a dor durante as relações sexuais são problemas frequentes no pós-menopausa, embora sejam desvalorizados por muitas mulheres, que os encaram como resultado do normal processo de envelhecimento.
Embora a dor seja a queixa mais frequente, esta pode esconder outro tipo de disfunções sexuais, sendo frequente a quebra do desejo e da excitação sexual, resultado de uma atrofia da área genital despoletada pela entrada na menopausa.
Com o objectivo de investigar os efeitos da tibolona no tratamento da disfunção sexual na pós-menopausa, está a decorrer uma investigação internacional, que envolve um total de 360 mulheres em vários centros clínicos na Europa, Austrália e EUA.
De acordo com os especialistas, a tibolona tem uma acção diferente das terapêuticas de substituição hormonal convencionais. Apresenta uma acção estrogénica, progestragénica e androgénica, que permite actuar de uma forma mais completa do que as outras associações: melhora o humor, corrige a atrofia vaginal e a própria resposta sexual parece melhorar, sendo que o aumento da resposta sexual corresponde a um aumento do desejo, da excitação e das fantasias.
O estudo está, portanto, a avaliar a acção da tibolona na disfunção sexual feminina, além do seu efeito no alívio dos sintomas típicos da menopausa. As mulheres envolvidas no estudo têm entre 48 e 68 anos e apresentam uma diminuição da actividade sexual satisfatória relacionada com a menopausa.
Liberate avalia impacto em mulheres com história de cancro da mama
Mais de 3100 mulheres estão a participar num novo estudo clínico (Liberate) com o objectivo de aliviar os sintomas da menopausa em mulheres que tenham tido cancro da mama. Uma vez que as terapêuticas hormonais de substituição (THS) estão contra-indicadas para mulheres com história clínica de cancro da mama – teme-se que as terapêuticas hormonais estimulem a recorrência do cancro da mama –, este estudo investiga a tibolona como uma potencial opção terapêutica para mulheres que tiveram cancro da mama e que agora estão a vivenciar os sintomas da menopausa.
«Setenta por cento das mulheres que receberam tratamento para o cancro da mama não voltam a ter a doença, mas têm todas queixas relacionadas com a menopausa», explica o líder do estudo, Peter Kenemans, referindo que, «para este grupo, tem de haver uma alternativa aos tratamentos hormonais».
A tibolona está aprovada para o alívio dos sintomas da menopausa e na prevenção da osteoporose nas mulheres pós-menopáusicas. «Os estudos já realizados demonstram que a tibolona tem um efeito diferente dos estrogénios: não estimula o tecido mamário nem aumenta a densidade mamária. Por isso, acreditamos que é a melhor opção para estas mulheres», defende o investigador holandês.
Como se diagnostica?
Na maior parte dos casos basta a sintomatologia, o diagnóstico é fácil. Quanto mais jovem for a mulher mais importantes são alguns exames, nomeadamente as análises hormonais, suficientes para afirmar o diagnóstico e pôr de parte outras perturbações que importa descartar.
Conceitos e definições
1. Menopausa: data da última menstruação em consequência de falência ovárica definitiva. O diagnóstico clínico ocorre após um ano de amenorreia (sem menstruação). Habitualmente acontece entre os 45 e os 55 anos. Se tiver lugar antes dos 40 é considerada menopausa precoce.
2. Climatério: é o período da vida da mulher em que ocorre um declínio progressivo da função ovárica. Com frequência está associado a um conjunto de sinais e/ou sintomas (irregularidades menstruais, calores, afrontamentos, transpiração nocturna, alterações do humor e do sono, entre outros), que no seu conjunto caracterizam a «síndroma do climatério». Compreende três fases (pré, peri e pós-menopausa), cuja individualização não é linear:
• Pré-menopausa: em sentido geral, inclui toda a idade fértil até à menopausa. Em sentido estrito é todo o período de tempo decorrido entre o início do declínio da função ovárica e a menopausa;
• Perimenopausa: período de tempo que engloba a pré-menopausa até um ano após a menopausa;
• Pós-menopausa: é o período que se inicia com a última menstruação.
LEONTINA GOUVEIA, 54 ANOS:
«Inconscientemente, sentimo- -nos um pouco diminuídas»
Aos 45 anos começou a ter menstruações irregulares, aos 47 chegou o último período.
«Sentia-me mais irritada, comecei a ter suores nocturnos, taquicardia e andava muito ansiosa», explica Leontina Gouveia, funcionária pública.
A entrada no pós-menopausa não foi fácil «e continua a ser uma situação com que tenho de lidar todos os dias». É que, diz a nossa entrevistada, «inconscientemente sentimo-nos um pouco diminuídas», além de que, defende, «o nosso parceiro vê-nos com outros olhos depois da menopausa».
Por exemplo, quando surge algum problema, a probabilidade é grande de ouvir algo do género: «Desde que entraste na menopausa estás impossível de aturar». Leontina sublinha que estas afirmações simples em tom depreciativo a fazem sentir-se menos bem. Em contrapartida, o seu filho de 33 anos «diz-me que continuo muito bonita e aceitou bem a minha entrada nesta fase da vida».
Um ano depois de ter tido a sua última menstruação, Leontina começou a fazer um tratamento de substituição hormonal, «mas não me dei bem e a minha ginecologista receitou-me tibolona», medicamento que não largou desde então, já lá vão sete anos.
«Senti logo melhorias. Por exemplo, tinha osteoporose e a minha massa óssea aumentou – faço densitometrias de dois em dois anos –, além de que deixei de ter secura vaginal».
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