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Aprender a falar… falar a brincar

Há crianças que revelam algumas dificuldades na comunicação, ou porque a fala não surge na idade apropriada ou porque se detêm em determinados estados de desenvolvimento da linguagem por demasiado tempo. Nestes casos, a terapia da fala é chamada a intervir.

Com a meiguice estampada no rosto e a traquinice característica dos seus 4 anos, Ângelo frequenta semanalmente as sessões de terapia da fala desde os 3 anos e 6 meses. O nascimento prematuro, com apenas 6 meses de gestação, trouxe-lhe pro­blemas ao nível da linguagem. Francisco Sousa, pai de Ângelo, afirma que «todos os bebés prematuros têm pro­blemas e o do Ângelo foi ao nível da fala».

Os pais aperceberam-se de que algo estava mal quando, aos 2 anos, o Ângelo não conseguia construir frases, por comparação com o irmão, que na idade dele já possuía meios de comunicação mais desenvolvidos.

Francisco confessa que, por um lado, se apercebia de que algo não estava bem, mas havia também uma recusa em admiti-lo:

«Quando ele não conseguia dizer determinadas palavras, fazíamos por compreendê-lo. Até que percebemos que não o estávamos a ajudar.»

A primeira desconfiança destes pais recaiu sobre a hiperactividade.

«Não se conseguia concentrar, era muito irrequieto, mas os exames diagnostica­ram-lhe dificuldades na fala e na compreensão», conta Francisco Sousa.

Ângelo não falava, a não ser por pistas, e não construía frases com mais de duas palavras.

«O irmão não o entendia e só brincavam juntos em jogos que não envolvessem uma comunicação mais elaborada. O Ângelo ressentia-se e o resultado era afastar-se e retrair-se», recorda Francisco.

Outra situação apontada pelo pai diz respeito à competitividade natural que há entre irmãos:
«Se fazíamos uma pergunta dirigida aos dois, o Ângelo gritava para que o irmão não respondesse primeiro que ele.»

O pediatra encaminhou-o, então, para uma avaliação de terapia da fala.

De acordo com Francisco, os resultados são visíveis:
«A evolução foi muito positiva e ele está bastante melhor. Mesmo a nível de relacionamento com os outros. Já não é uma criança retraída, brinca com o irmão e na escola vai bem melhor. Ele também se apercebia que alguma coisa não estava bem e notou que nós, os pais, fizemos e estamos a fazer um esforço e esta é a maneira de ele retribuir. Aliás, na escola e em casa sente-se mais confiante.»

A terapia da fala

A terapia da fala está associada à comunicação humana (fala e linguagem), assim como a perturbações relacionadas com as funções auditiva, visual, cognitiva, oromuscular, respiração, deglutição e voz. A intervenção terapêutica pode ser realizada em crianças e adultos, envolve a terapia, reabilitação e reintegração no meio social e profissional, bem como intervenção precoce, orientação e aconse­lhamento, como esclarece a Dr.ª Andreia Rodrigues, terapeuta da fala no Espaço para a Saúde da Criança e do Adolescente (ESCA) e na Clínica Ponto da Saúde.

Na criança, as dificuldades relacionadas com a linguagem/fala podem reve­lar-se quando esta surge tardiamente, ou quando por exemplo aos 3 anos ainda não produz frases ou possui um vocabulário reduzido. Um discurso pouco perceptível, com alterações na fluência e na articula­ção verbal podem constituir sinais de alerta para os pais.

No desenvolvimento da linguagem, a criança passa por várias etapas em dife­rentes idades, adquirindo novos conhecimentos linguísticos. Pode acontecer manter-se numa etapa do desenvolvimento por mais tempo do que seria esperado para a sua faixa etária, não conseguindo avançar, surgindo os tais sinais de alerta. Torna–se, muitas vezes, pertinente realizar uma avaliação, para determinar se as características da comunicação da criança são ou não adequadas à sua idade. O diagnóstico é feito após uma avaliação (perceptiva e/ou instrumental), complementado com informação proveniente de uma entrevista com os pais, e/ou do profissional que encami­nhou a criança para a terapia da fala.

O plano terapêutico é elaborado de acordo com o quadro clínico da criança. A intervenção decorre num ambiente lúdico, utilizando material didáctico e informático.

«É importante que as sessões motivem as crianças. Um dos objectivos é que se sintam à-vontade e gostem do espaço onde vão “brincar para aprender a falar”», refere Andreia Rodrigues.

Falemos em estratégias

Para a terapeuta, faz mais sentido falar em estratégias do que em técnicas:
«Essas são muito variadas e devem ser adequadas a cada caso, não existe uma receita tipo “chapa cinco”, até porque uma estratégia pode resultar com uma criança e com outra não.»

É importante ter bom senso na intervenção terapêutica. O género de jogos utilizados é muito variado, desde jogos com figuras, animais ou objectos. Tudo para a criança conhecer, dizer o respectivo nome e encontrar os sons que tem dificuldade em articular.

Chave, carro, cavalo são exemplos de palavras que o Ângelo já consegue dizer.

O espelho é também um material a que a terapeuta recorre. Segundo a especialista, «para que a criança tenha feed-back visual da posição e movimento da língua e dos lábios na produção dos sons que não consegue articular».

O computador é outro recurso material que constitui uma mais-valia para a intervenção, já que as crianças estão cada vez mais familiarizadas com este tipo de suporte.

A terapeuta realça o carácter de parceria em que esta valência clínica tem de se basear. A terapia da fala consiste no apoio bissemanal (conforme o quadro clínico) individualizado e num trabalho em equipa com todos os intervenientes: família, escola (educadora e professora) e outros profissio­nais de saúde (pediatra, otorrino, psicólogo).

A participação activa dos pais é muito importante para o sucesso da terapia e acrescenta que o seu papel é tão relevante quanto o da terapeuta.

«É do trabalho em parceria com eles que resulta a eficácia da terapia, reduzindo o tempo do apoio e consolidando as novas aquisições da criança», afirma Andreia Rodrigues, prosseguindo:
«O rendimento da sessão terapêutica fica comprometido quando não há continuidade no apoio, colaboração e assiduidade por parte dos pais em todo o processo terapêutico.»

Conselhos para os pais

Existem várias atitudes comunicativas que os pais podem ter e que constituem verdadeiras acções terapêuticas, contribuindo para a evolução dos seus filhos. Por exemplo, após a avaliação, Andreia Rodrigues elabora um relatório com informação sobre os resultados da avaliação e orientações sobre como comunicar com a criança.

«Por vezes, os pais têm determinadas atitudes quando comunicam com a crian­ça, pensando que a estão a ajudar, no entanto, por vezes, acabam por dificultar o seu desenvolvimento linguístico. Há que ajudar os pais nesse sentido», comenta a terapeuta.

Será benéfico que os pais falem com o filho devagar, de frente para ele, por vezes façam de conta que não o percebem, de forma a que ele reformule o seu discurso.

«Uma das tendências que os pais têm é, por exemplo, quando o filho tem dificuldade em responder a uma questão, respon­derem por ele, não esperando pelas suas respostas», frisa a terapeuta, que aconselha vivamente que os pais deixem falar a criança sempre que tome a iniciativa.

Outras das atitudes que os pais podem adoptar é elogiar o esforço que o menor está a fazer em comunicar. Não devem também infantilizar a fala, mas sim utilizar palavras e frases simples.

A terapeuta deixa um outro conselho:
«Se a criança pronunciar ou construir mal o seu discurso, os pais devem repetir de forma correcta o que ela tentava dizer, sem, no entanto, a obrigar a repetir.

O acto de a obrigar a repetir uma palavra ou frase pode constituir uma fonte de ansiedade e frustração, podendo surgir comportamentos de recusa para falar. É importante que a criança descubra o prazer da comunicação, num ambiente estimulante e facilitador, para que o seu desenvolvimento linguístico decorra sem dificuldades.»

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