Verão! Férias, praia, sol e mar… Esta é uma associação de ideias quase automática quando chega uma das épocas mais desejadas do ano para quase todos. Finalmente, é tempo de lazer, de descanso, alegria e brincadeira. E é neste período que a maioria das pessoas faz as malas e parte para o tão aguardado destino de férias, onde o convívio com a família e amigos restabelece as forças para mais um ano de trabalho.
Para gozar as férias com a tranquilidade merecida e, principalmente, se vai em família, recorde-se que o Verão exige cuidados redobrados com as crianças.
O sol moderado faz bem à saúde. É agradável, alegre e é importante para o processo de absorção de cálcio e vitamina D – o que faz com que o corpo tenha um crescimento normal e saudável. Mas deverá sempre ter em conta que as crianças são mais sensíveis aos raios solares que os adultos e que é necessário uma atenção redobrada com elas.
O sol em excesso, a pele desprotegida e a ausência de protecção adequada à criança são apenas algumas das causas que podem originar queimaduras no corpo, provocar a desidratação do organismo – e provocar a insolação solar na criança.
O Dr. Rui Dias Lopes, que durante cerca de 40 anos foi pediatra no Hospital de Santa Maria, dedicou parte do seu tempo a melhorar as condições das crianças com problemas respiratórios.
Sobre a insolação solar diz-nos que, «se considerarmos por insolação o conjunto de fenómenos mórbidos determinados no organismo pela acção dos raios solares e do calor, podemos afirmar que as principais causas da insolação solar na criança são a exposição indevida das mesmas ao sol, sem alguns cuidados especiais prévios».
E continua: «É bom não esquecer que, mesmo sem se estar à beira-mar, podemos também apanhar sol de uma maneira excessiva, como por exemplo na montanha, quando da exposição ao sol reflectido na neve, num jardim, num parque infantil, num terraço com as paredes pintadas de branco».
Ainda de acordo com Rui Lopes, «por outro lado, o lactente e a criança não reagem como o adulto à exposição solar. A pigmentação bronzeada, que é um meio de defesa, aparece tanto mais lentamente quanto mais jovem for a criança».
Com as nuvens a esconder o sol intenso, o nível de radiação solar chega a 70% de um dia de céu limpo e mesmo nos dias enevoados podem verificar-se queimaduras pelos raios ultravioleta (não são absorvidos pelo vapor de água, ao contrário do que sucede com os infravermelho que são absorvidos).
Famoso bronzeado
É a produção de melanina que dá a bonita cor à pele, o tão famoso bronzeado. Quando se é novo as células recuperam facilmente. Porém, com o passar do tempo começam a surgir manchas, pequenas pintas ou sinais. As hipóteses de se contrair cancro da pele aumentam com a idade.
«Assistimos hoje, sugestionados pela publicidade e por certo tipo de comunicação social, a uma grande preocupação, talvez exagerada, pelo aspecto físico do corpo durante e após as férias de Verão», diz o pediatra, acrescentando:
«O culto de uma pele muito bronzeada, conseguida por vezes sem os cuidados mínimos desejáveis de protecção contra os efeitos nefastos que esse comportamento pode ter a longo prazo, é hoje uma realidade. E aí é que está o mal, porque na ânsia de obter um bronzeado de uma maneira muito rápida, esquece-se a tal protecção eficaz.»
Para o especialista, a exposição excessiva ao sol origina como primeiras manifestações nas crianças «a vermelhidão intensa da pele, podendo suceder-se o aparecimento de edema e bolhas. Estas situações podem provocar dor, por aumento da sensibilidade cutânea. As crianças, e especialmente os lactentes, com uma exposição indevida ao sol podem também reagir ao excesso de calor com grande agitação e intensa sensação de sede».
«Nas formas extremas, mais graves», continua, «pode verificar-se intensa agitação, movimentos de mastigação, choro com gritos intensos e até convulsões e rigidez da nuca».
Rui Lopes adverte ainda que «se a temperatura de uma criança porventura abandonada por descuido, por um período de 15 a 30 minutos ao sol, atingir 41 a 42 graus, essa insolação pode revelar-se com um aspecto comatoso».
Podem também verificar-se acidentes localizados à pele, como por exemplo queimaduras, devido a fenómenos de fotossensibilidade. Perfumes e desodorizantes com essências cítricas aumentam o risco do aparecimento de manchas:
«Acontece quando a criança está a tomar certos medicamentos por via geral, como por exemplo sulfamidas ou localmente quando foram aplicados, inadvertidamente, perfumes ou essências de limão numa determinada zona da pele.»
O especialista salienta que as «queimaduras por insolação são causadas principalmente pelas radiações ultravioleta B (UVB). As crianças com cabelos louros ou ruivos e olhos claros, azuis ou verdes, têm uma pele muito clara, tornando-se mais sensíveis às queimaduras solares, sofrendo com pouco tempo de insolação grandes escaldões ou queimaduras, ao contrário daquelas que exibem um cabelo preto, pele morena e olhos escuros. Estas últimas crianças têm uma pele pouco sensível às radiações solares, estando portanto menos sujeitas às queimaduras».
O pediatra afirma, ainda, que embora «as sequelas, a longo prazo, como consequência da exposição crónica e repetida ao sol, sejam pouco frequentes nas crianças, os médicos têm obrigação de avisar os pais de que as insolações frequentes e desprotegidas podem ocasionar um envelhecimento da pele precoce, pois os mecanismos cutâneos de recuperação tornam-se mais débeis».
Deste modo, mais tarde, podem desencadear-se tumores malignos da pele quando as suas células deixam de reagir ao controlo imunitário.
«Tenho verificado que tem havido uma maior preocupação dos pais acerca destes problemas, pois são eles os primeiros a inquirir da necessidade de uma eficaz protecção da pele aquando da partida para férias», refere o pediatra, que aconselha os pais:
«Deve-se recorrer aos serviços de atendimento médico de urgência, como os Serviços de Urgência dos Hospitais, se as crianças sofreram uma forma grave de insolação».
Como principais cuidados a ter antes e durante a exposição solar, o médico indica que «as crianças devem ser protegidas com um protector solar cujo índice de protecção solar (IPS) esteja de acordo com o tipo de pele, mas nunca inferior a 25».
«Este número 25 quer dizer que a pele vai levar 25 vezes mais tempo que o normal para ficar vermelha. Se a criança for muito pequena, lactentes, por exemplo, ou se o seu tipo de pele for demasiado susceptível, pele excepcionalmente clara, o IPS deve ir até aos 60. Nunca se perde por ser o mais prudente possível», menciona o especialista.
Cabe aos pais, ou responsáveis, a confirmação da protecção cerca de duas horas antes da ida para um local ensolarado e depois repetida também de duas em duas horas, mesmo com a criança em numa zona de sombra.
«As crianças com menos de 3 anos nunca devem ser expostas directamente ao sol, devendo ser sempre protegidas por uma sombra. Podem dar um passeio ao longo da praia entre as nove e as onze horas. Mas, a estada ao sol nunca deve prolongar-se para além das onze horas. Depois do almoço segue-se um período de descanso e só depois das quatro horas da tarde se poderá regressar à praia», diz o nosso entrevistado, referindo:
«A cabeça deve ser sempre protegida por um chapéu de aba larga. A roupa deve ser larga e de cor clara e a pele do corpo deve ser sempre protegida com uma t-shirt.
É também importante ter a preocupação de levar sempre água para oferecer às crianças.»
Curiosamente, Rui Lopes conclui que «é possível, de uma maneira empírica, avaliar a intensidade dos raios solares a partir do tamanho da sombra projectada pelo corpo de um indivíduo. Quanto mais curta for a sombra mais perigosos se tornam os raios solares, pois estes passam a incidir de uma maneira perpendicular ao corpo. Quanto mais comprida for a sombra projectada no solo menos perniciosas se tornam as radiações, pois passam a incidir muito obliquamente, diminuindo deste modo a sua intensidade».
Ao proteger a criança, evita os riscos da exposição solar, cuida do futuro dela e a garante umas boas férias para toda a família!
Medicina & Saúde®
www.jasfarma.pt