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A arte de bem envelhecer

Já diz o ditado que “velhos são os trapos”. E nada mais válido numa sociedade que está continuamente a envelhecer. Se a idade, em muitos casos, é um posto, não há razão para se ficar de braços cruzados à espera que os anos passem. Chegou a hora de viver uma segunda juventude. O segredo? É mantermo-nos sempre activos, porque parar é morrer.

A ciência ainda não descobriu a “cura” anti-envelhecimento, mas já desvendou algumas fórmulas que permitem prolongar a juventude por mais tempo. A “velhice”, segundo os especialistas, é um conceito que já passou de moda. “Actualmente, promove-se o envelhecimento activo, porque a chamada terceira idade não tem, necessariamente, de ser uma fase negativa”, explica a Dr.ª Maria João Quintela, chefe da divisão de Saúde no Ciclo de Vida e em Ambientes Específicos da Direcção-Geral da Saúde (DGS).

Para a especialista, o passar dos anos não tem de ser encarado como uma fatalidade, mas sim como uma oportunidade, até porque a maior parte das pessoas idosas não corresponde à imagem dos “coitadinhos” de bengala e com dificuldades de locomoção. “A idade da reforma não tem de ser obrigatoriamente um período de ruptura.

Qualquer aposentado pode continuar activo, desde que se sinta estimulado para realizar outras tarefas.” Segundo Maria João Quintela, a reforma é um período de adaptação a uma vida nova. Mas não tem de ser penosa, nem tem de corresponder a um “corte abrupto com a rotina”. O segredo está em preparar, ao longo dos anos, a fase de transição.

Porque com a reforma sobra mais tempo para investir em projectos que foram, consecutivamente, protelados.

“Esta é a altura ideal para agarrar novas oportunidades e abraçar novos papéis sociais. Há idosos que se dedicam ao voluntariado ou que investem em formação. Todas estas actividades ajudam o sénior a sentir-se útil na sociedade, para além do contributo positivo que os mais velhos representam para a economia.” A especialista indica que “saber envelhecer” é uma “obrigação geral”, já que construir um bom envelhecimento é um processo contínuo ao longo da vida.

Os seniores deixam como herança para as gerações mais novas o conhecimento e a experiência, razão pela qual devem ser considerados socialmente como elementos activos e “nunca passivos”.

Mas, para que isto aconteça, a sociedade precisa de estar logisticamente preparada para acolher os seus idosos. Foi a pensar nos mais velhos residentes no meio urbano que surgiu o projecto “Cidades Amigas das Pessoas Idosas”, da responsabilidade da Organização Mundial de Saúde.

Em Portugal, este programa já arrancou em Lisboa, mas espera-se que, a curto prazo, se “alastre” por todo o país. A iniciativa surgiu porque, cada vez mais, “há um número crescente de idosos habitar nos grandes centros urbanos”. A ideia deste programa é “promover o envelhecimento activo, criando condições para que os idosos não se sintam limitados”. Este programa contempla medidas que favoreçam a adaptação social dentro do meio ambiente: “desde transportes à prevenção de acidentes e violência, passando por uma melhor informação, promoção da saúde e participação na comunidade”, acrescenta Maria João Quintela.

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Pessoal e intransmissível

Segundo o Dr. Luís Bonnet Monteiro, secretário geral da Sociedade Portuguesa de Geriatria e Gerontologia, “cada um envelhece ao seu ritmo”, porque “não existe uma sequência lógica e previsível do envelhecimento dos diferentes órgãos”. De acordo com o especialista de Medicina Interna, embora a fronteira entre o envelhecimento e a doença seja ténue, há idosos que mantêm uma saúde de ferro.

Para o médico, a descoberta dos genes responsáveis pelo envelhecimento seria o maior achado da Humanidade. Mas, apesar de “desejável”, é um sonho difícil de concretizar, já que seria necessário entender todos os “factores em jogo”. Contudo, enquanto não é possível alcançar a “eterna juventude”, existe a capacidade de prepararmos o envelhecimento, através da adopção de medidas a longo prazo.

Embora o processo de envelhecimento seja fisiologicamente “inevitável, previsível, irreversível e próprio dos seres vivos”, com indica a Prof.ª Amália Botelho, do Departamento de Fisiologia da Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa, pode-se “atrasar o relógio biológico”, manipulando alguns factores externos.

“Para modularmos o envelhecimento e retardá-lo podemos exercer práticas de prevenção”, explica. Mas, como indica Luís Bonnet Monteiro, a preparação do envelhecimento deve começar desde cedo, através da “correcção dos factores de risco” que podem favorecer o aparecimento da doença.

Como de pequenino é que se adquirem bons hábitos, é fundamental investir numa alimentação saudável, praticar exercício físico e corrigir alguns factores de risco, como o stress, o colesterol e a hipertensão arterial.

“O envelhecimento é um processo em curso, que depende do património individual de cada indivíduo (a herança genética) mas, simultaneamente, factores comportamentais e ambientais”, completa Amália Botelho. Se o envelhecimento estivesse apenas ligado ao estilo de vida, qualquer um podia programar o envelhecimento. Mas não é um fenómeno tão linear.

Segundo a teoria das lesões, o envelhecimento resulta da “acumulação sucessiva de danos nas estruturas celulares”, diz a fisiologista. Logo, com as consecutivas lesões, “ocorre uma disfunção e morte das células dada a diminuição da capacidade de reparação e reprodução”. Quer isto dizer quea agressão contínua dos radicais livres sobre as células conduzem “à perda funcional e reprodutiva das células”.

Já a explicação determinista diz que “há uma programação genética do envelhecimento celular”. Significa que “há um potencial limite de replicação celular”, impresso previamente no DNA. “Os cromossomas perdem características e a célula acaba por perder a capacidade de se replicar”, adianta Amália Botelho.

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Quando a doença se atravessa no caminho

À medida que os anos passam, a capacidade funcional do organismo vai declinando gradualmente. Acontece que, devido à doença, “geralmente crónica, esta capacidade torna-se irreversível.

“Doenças crónicas são aquelas que não se resolvem num curto espaço de tempo, definido como três meses. Normalmente, as doenças crónicas têm um decurso insidioso e lento, pelo que acabam por desencadear incapacidade funcional ou morte”, explica Amália Botelho. “Muitas manifestações em idosos que não são reconhecidas como doença, como é o caso da incapacidade, são erradamente consideradas próprias do envelhecimento natural”, acrescenta.

“As alterações que decorrem do envelhecimento têm causas e consequências fisiológicas, psicológicas e sociais e surgem, progressivamente, desde cedo até à idade adulta, atingindo o estado de maturação plena. Considera-se que o envelhecimento é ‘bem sucedido’ quando as perdas que ocorrem são mínimas ou inexistentes, tendo os factores extrínsecos (têm) um papel neutro ou positivo.”

Apesar de o objectivo do comum dos mortais ser a vida eterna, ainda estamos longe de conquistar tamanho feito. Segundo alguns estudos, a longevidade na espécie humana já atingiu o patamar dos 120 anos. E, até à data, ainda não sofreu qualquer alteração. “No entanto, o número de pessoas que atinge idades muito avançadas é crescente, ou seja, a longevidade média aumentou consideravelmente.”

Em Portugal, a percentagem de indivíduos com 65 ou mais anos era de 8% em 1960 e passou para 17% em 2007. “Para isso contribuíram a menor mortalidade infantil, a possibilidade de cura das doenças agudas de causa infecciosa, a promoção da saúde e prevenção de doença, a melhor capacidade diagnóstica e terapêutica, ou seja, os evidentes progressos da medicina e dos cuidados de saúde. Também a nível social as condições de vida melhoraram muito, nomeadamente as condições sanitárias, a higiene individual, a alimentação.”

 

Um passo em frente

No final do século XX, a Organização Mundial de Saúde (OMS) substituiu o conceito de “envelhecimento saudável” pelo de “envelhecimento activo”. “Sem dúvida que é possível manter muitas das características daquilo que se chama envelhecimento saudável, se adoptarmos uma atitude positiva e não cedermos às limitações decorrentes de algumas incapacidades geradas pela presença dessas incapacidades”, esclarece o Dr. Horácio Firmino, coordenador da consulta de Gerontopsiquiatria dos Hospitais da Universidade de Coimbra.

“No nosso pais ouve-se com frequência o desejo de chegar à reforma e mesmo da antecipar, podemos dizer que isso é o maior erro que podemos adoptar. Devemos mudar esta mentalidade e olhar para o trabalho como algo que nos gratifica e defende das incapacidades. Parar significa morrer, trata-se de um provérbio popular que encerra muito de ciência. A manutenção de uma actividade física regular, para além de obrigar o cérebro a funcionar, resolve as muitas das situações do quotidiano que constituem a base de um envelhecimento activo.”

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Algumas teorias tentaram explicar que uma melhor adaptação ao envelhecimento, sempre com um sorriso nos lábios, pode fazer a diferença entre a saúde e a doença. “Tem-se demonstrado que as pessoas com um melhor auto-conceito, sobretudo na sua componente de auto-eficácia, possuem uma espécie de efeito amortecedor no declínio funcional face à capacidade física diminuída. Daí que os idosos devam continuar a realizar as actividades básicas quando a sua capacidade está em risco de diminuir.”

Olhar para o tempo, segundo a óptica da ampulheta, não deve ser uma filosofia do idoso. Para Horácio Firmino, o segredo do envelhecimento activo está em saborear novas experiências e viver cada dia como se fosse o único. “Ler, escrever, desenhar, pintar, ver cinema, teatro, ouvir música, dançar, fazer exercício físico regular (e não estamos a falar de fazer desporto), conviver. No fundo, são tudo estratégias para manter uma vida participativa que exercite o corpo e o cérebro, fugindo de vida sedentária.”

 

Transpirar optimismo

Já sorriu hoje? Esta pergunta não é absurda, porque, de acordo com alguns estudos, o riso está associado à libertação de endorfinas cerebrais que melhoram o estado de humor. “Há outros estudos que mostram que a depressão está relacionada com um maior risco de aparecimento de enfartes de miocárdio e outras doenças físicas que provocam incapacidade ou morte”, completa Horácio Firmino. Assim, antes de entrar na terceira idade, lembre-se que o optimismo vê-se por fora e sente-se for dentro, já que “a força anímica contribui para uma melhor saúde física e mental”. E, desta forma, “para uma melhor esperança de vida duradoura”.

Mas para que se sinta a transpirar de alegria, as pessoas idosas não devem ficar sentadas a olhar para o horizonte. Há inúmeras actividades que podem contribuir para dar mais anos à vida. Segundo Horácio Firmino, alguns estudos demonstram uma associação entre a actividade física regular e uma melhor saúde física e mental. Este bem-estar ajuda, em certa medida, a ampliar a longevidade.

Acima de tudo, o envelhecimento deve ser preparado por etapas. “Desde que nascemos, começamos a desenhar a nossa velhice: se adoptarmos comportamentos como a não preocupação com a alimentação (comendo em excesso gorduras e açucares) desenvolvendo obesidade e com ela o aparecimento de doenças metabólicas, certamente estamos a prejudicar a possibilidade de ter um envelhecimento saudável. Assim, é de recomendar uma alimentação diversificada e equilibrada com redução de gorduras e açúcares e incremento de consumo de vegetais. Também se deve evitar o abuso de bebidas alcoólicas e o consumo de tabaco.

Incremento da actividade física e o culto do intelecto constitui regras a adoptar desde criança.”

Não deixe para amanhã o que pode começar hoje, para que depois da reforma comece a viver os “anos de ouro”. Assim, o cuidado com a boca, vigilância na saúde, cultivar a mente e o corpo activos, evitar o sedentarismo constituem a chave mestra para construir um envelhecimento são e activo, com a possibilidade de manter a autonomia, a capacidade decisória e evitar a dependência precoce”, conclui o especialista.

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Águas que curam

Enganem-se os que pensam que o termalismo serve apenas para tratar as maleitas do corpo. Apesar do efeito químico da água, que produz benefícios no organismo, o bem-estar que se obtém com esta actividade também ajuda a melhorar o estado de espírito, principalmente o dos mais velhos. “Para além da vertente curativa, os utentes idosos manifestam uma melhoria do estado psíquico por frequentarem as termas. Também em virtude da convivência acabam por se sentir melhor no dia-a-dia. Tudo o que seja promotor de uma actividade, quer a nível físico ou mental, é benéfico. As termas também podem ser um factor de combate ao isolamento, para que o idoso saia do seu lugar habitual”, explica Miguel Martins, administrador da área termal das Termas das Caldas da Rainha.

 

Linha do Tempo

Veja como envelhecem os diferentes órgãos e sistemas do corpo humano
(Documento associado.pdf)

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