São muitos os factores que podem causar urticária, um problema de pele comum que herdou o nome da urtiga fresca. Manchas avermelhadas e comichão denunciam uma alergia que, quase sempre, é de curta duração.
Primavera é, quase sempre, sinónimo de alergias. Quando ela chega abre-se a época dos espirros, dos olhos lacrimejantes e do nariz a pingar. Porque é desta forma que se manifesta a maioria das alergias. A urticária não. É na pele que os sintomas da reacção alérgica são visíveis, denunciando-se pelo aparecimento de pápulas, semelhantes a manchas mas ligeiramente mais elevadas face à pele saudável. São vermelhas, mas podem apresentar-se esbranquiçadas na região central. E causam comichão, muita comichão.
Ao contrário de outras alergias primaveris, não são os pólenes que desencadeiam a urticária. A responsabilidade pode estar ligada a vários factores, entre eles os insectos, dado que quando o tempo aquece e as flores despontam os insectos multiplicam-se, esvoaçando pelos espaços verdes, o que aumenta o risco de se ser picado, tanto mais que a pele começa a ficar mais exposta.
Mas podem existir episódios sem estímulos externos identificáveis chamando-se neste caso urticária espontânea aguda (dura menos de seis semanas e não tem recorrências) ou crónica (dura mais de seis semanas ou tem recorrências ao longo do tempo). Numa pessoa com sensibilidade ao produto libertado pela picada destes insectos – alergeno – o contacto com a pele põe em movimento todo um mecanismo que desemboca nas lesões cutâneas. Células existentes na pele e noutros tecidos – e que dão pelo nome de mastócitos – libertam histamina e outras substâncias químicas envolvidas na inflamação e o resultado são as manchas típicas da urticária e a comichão.
Quando a reacção se localiza nas camadas mais profundas da pele, a urticária é acompanhada de angiodema, que se caracteriza por inchaço em zonas maiores de pele, nomeadamente à volta dos olhos e lábios, nas mãos e pés, nos genitais e até no interior da garganta. O inchaço da garganta dificulta a respiração, podendo mesmo bloquear a passagem do ar e dar origem a uma situação de emergência.
Grande parte das situações de urticária são agudas, o que significa que não se prolongam por mais de seis semanas e não têm recorrências. Nalguns casos consegue-se identificar uma relação causa-efeito, ou seja, conhece-se o que provocou a reacção alérgica da pele. A urticária denomina-se crónica quando dura mais de seis semanas ou tem recorrências, sendo que pode prolongar-se por meses ou anos.
Insectos, medicamentos e alimentos
As causas de urticária são várias em que se incluem os medicamentos e os alimentos. Na família dos medicamentos, a penicilina é o exemplo mais conhecido como causa de alergia, mas há outros entre os antibióticos, bem como os anti-inflamatórios não esteróides, como a aspirina e derivados.
No que respeita aos alimentos a lista inclui marisco, peixe, ovos, leite, frutos secos (amendoim, noz, amêndoa, avelã) sendo estes os mais frequentemente implicados. No entanto há casos com reacção a outros alimentos como alguns frutos frescos (morangos, kiwi, citrinos, pêssego) e outros alimentos. A esta lista juntam-se aditivos (substâncias utilizadas para dar cor, sabor, textura e consistência a produtos alimentares): caso dos sulfitos, mas também podem estar implicados aspartame e muitos outros, entre adoçantes, corantes e conservantes. E no caso de causa alimentar, evitar o contacto é primordial, dado que sempre que se contacte com o estímulo a urticária aparece, não sendo portanto uma urticária aguda propriamente dita. No adulto a causa alimentar não é muito frequente, ao contrário do que se supõe.
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Em grande parte das urticárias crónicas não se consegue identificar uma causa.
Além do desconforto associado à comichão intensa, há o risco de a urticária se complicar, sobretudo quando acompanhada de angiodema. A falta de ar é uma das complicações mais graves, quando a garganta fica obstruída pelo inchaço: pode haver perda de consciência, pelo que é preciso procurar ajuda médica com urgência. Há casos em que pode estender-se a todo o corpo, com envolvimento de vários orgãos – é o chamado choque anafiláctico: os brônquios ficam mais estreitos, respirar torna-se difícil, a pressão arterial cai, causando tonturas e até desmaio. Tudo acontece muito rapidamente, obrigando a uma intervenção de emergência pois há perigo de vida.
Esta é, naturalmente, uma situação extrema. Muitas vezes, a urticária aguda desaparece sem necessidade de tratamento, mas quando os sintomas persistem é possível atenuá-los. A comichão pode acalmar-se com aplicação de compressas frescas. Manter a pele hidratada também ajuda.
Geralmente é o suficiente, mas pode ser necessário tomar medicamentos: os anti-histamínicos, como o nome indica, bloqueiam a libertação de histamina, uma das substâncias responsáveis pela reacção alérgica. Pode ser aconselhada a toma de corticoesteróides, que contribuem para reduzir a inflamação, o inchaço, a vermelhidão e a comichão. Isto nas situações agudas, porque a urticária crónica exige um outro tipo de intervenção.
No âmbito dos cuidados a ter incluem-se também o uso de roupas largas e leves, de maneira a que o contacto com a pele seja mínimo: é que os tecidos, ao roçarem na pele, podem agravar as lesões. Também é importante evitar as substâncias responsáveis pela reacção, o que pode implicar a retirada de alguns alimentos da dieta ou a substituição de medicamentos. Já ficar a salvo dos insectos é mais difícil. As abelhas constituem um grupo especifico que pode originar reacções muito graves em pessoas susceptíveis.
Pólenes e afins
É aos pólenes que se deve a maioria das alergias sazonais, por isso mesmo chamadas polinoses. Espirros, congestão nasal (nariz entupido), corrimento nasal (pingo no nariz), prurido (comichão), por vezes tosse e irritação na garganta são as suas principais manifestações, a elas se juntando, por vezes, sintomas a nível ocular – olho vermelho e inchado e lacrimejo. Nalgumas situações, pode haver dificuldade em respirar.
Dado o impacto que a alergia tem no quotidiano, com prejuízo da qualidade de vida, é essencial minimizar a exposição aos pólenes: pode não ser fácil evitá-la por completo, mas é possível adoptar comportamentos que garantam alguma protecção: reduzir a actividade exterior, evitar desportos ao ar livre, evitar caminhar em espaços relvados, manter as janelas fechadas (em casa e no carro), sobretudo em dias quentes, secos e ventosos, usar óculos escuros fora de casa, usar filtros de partículas nos carros.
Nesta altura do ano, as gramíneas são as principais causadoras de alergia ao pólen.
É este o nome verdadeiro das plantas que conhecemos por fenos, daí a rinite alérgica também ser designada por “febre dos fenos” (ainda que não provoque sintomas febris…).
As gramíneas polinizam em plena Primavera, atingindo o auge em Maio e Junho. Mas não são as únicas responsáveis: também a erva parietária – uma erva daninha conhecida como alfavaca da cobra – é uma causa frequente de alergia, desencadeando sintomas nos meses primaveris e estivais. De entre as árvores, a oliveira ocupa o lugar cimeiro entre as alergizantes, com o período de polinização a coincidir também com a Primavera.
Cada região possui, no entanto, os seus alergenos específicos, descritos num boletim polínico que pode ser consultado no sítio na Internet da Rede Portuguesa de Aerobiologia – www.rpaerobiologia.com. Aí ficará a saber que risco corre numa determinada zona do país e em cada altura do ano.
FARMÁCIA SAÚDE – ANF
www.anf.pt