A saúde e a doença, pelo seu peso social, têm merecido especial destaque mediático na imprensa, no ciberespaço e também na televisão, onde se multiplicam as séries dedicadas ao tema. Em que medida poderão estes conteúdos televisivos contribuir para a formação / educação para a saúde do cidadão comum?
A sociedade pós-moderna, por definição mediática e globalizante, ao corporizar reenquadramentos interpretativos e vivenciais da saúde, do corpo, dos afectos e da privacidade, criou as condições necessárias à emergência de produtos televisivos suigeneris, onde o voyeurismo pontua de forma flagrante.
A vivência hospitalar, a abordagem do doente crítico, a relação médico-doente e os relacionamentos afectivos entre profissionais de saúde são escalpelizadas, de forma ora romântica, ora trágica, mas quase sempre longínqua da realidade autêntica.
Estes produtos, maioritariamente provenientes dos Estados Unidos da América, reproduzem, em regra, uma receita – tipo, social e politicamente correcta: Um staff médico e de enfermagem constituído por pessoas jovens, atraentes e de personalidade vincada; uma personagem mais vulnerável que carece pontualmente da compreensão colectiva e da solidariedade dos seus pares; e , para exorcizar qualquer estigma de racismo, um médico de origem africana, a ocupar frequentemente lugar de relevo.
Conteúdos das séries vs realidade hospitalar portuguesa
A distância entre estas personagens televisivas e a realidade hospitalar nacional é incomensurável. A marcha diagnóstica seguida pelo do Dr. Gregory House é de uma ousadia que fere a legis artis; o seu relacionamento com os doentes atropela a elementar deontologia médica; a sua indisciplina jamais seria tolerada em qualquer serviço hospitalar português ; a sua arrogância científica e humana não têm cabimento no hospital actual. O saber médico que caracteriza a prática clínica do nosso tempo é necessariamente multidisciplinar, prescindindo de personagens superegóicas vagamente românticas e acintosamente redutoras.
Igualmente, a formação médica praticada entre nós não tem qualquer proximidade com o panorama ” televivido” na “exigente” clínica “Seattle Grace”, onde pontua uma telegénica Dra. Grey. Por cá, a saudável concorrência entre formandos, e o relacionamento destes com os seus tutores processa-se segundo rigorosas regras éticas.
A intriga e a promiscuidade afectivas não perturbam o seu quotidiano profissional e a vida privada de cada um está , por direito, devidadente salvaguardada. Por razões seguramente multifactoriais, tais produtos mediáticos conquistam a opinião pública de forma significativa, atingindo níveis de audiência de difícil explicação à luz da racionalidade.
Um tema sensível como a saúde, constitui, só por si, um ingrediente apelativo. O perfil do médico-herói com elevados níveis de sucesso no seu desempenho, conduzindo casos difíceis para um final invariavelmente feliz, e que não hesita em desvendar ao voyeurismo público a sua vida privada, tem, inexoravelmente, um êxito assegurado. Por outro lado, os casos mal sucedidos são polidos com a necessária dose de emoção e de angústia humanizante do médico, que o elevam aos olhos do leigo.
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Assertividade e maior conhecimento em saúde
Numa sociedade motivada para o sucesso e para o desempenho, a saúde constitui um bem inestimável que é imprescindível preservar. Na sociedade actual, o crescente interesse dos cidadãos pelos problemas da saúde tende a inserir-se num amplo contexto sociológico de autonomização do próprio indivíduo face aos vários poderes instituídos, inclusivé ao saber médico tradicional.
A atitude somatofílica e hedonista que caracteriza o mundo ocidental, consubstancia um fenómeno reconfigurador da dinâmica da humanidade e dos seus valores clássicos, centrado na libertação do individuo da asfixia normalizadora colectiva e na transmutação do corpo, independentemente do género, numa matriz simbólica carregada de mensagens e códigos afirmativos de liberdade e de autonomia.
O indivíduo arroga-se o direito ao controlo do seu próprio corpo, da sua pessoa e do seu estado de saúde, aceitando, por princípio, o saber médico quando dele necessita, mas não deixando de o questionar quando esse saber colide, de alguma forma, com as suas crenças e idiossincrasias.
Todavia, o corpo simbólico, vulnerável e perecível, reverterá rapidamente à dimensão orgânica, quando colocado perante a ameaça da doença e do sofrimento.
Por isso, a medicina mantém um poderoso papel de instrumento de controlo social, e o saber médico, exclusivo e independente, permanece sólido numa sociedade ambivalente, sedenta de autonomia e de valores próprios, mesmo quando alvo de hostilidades mediáticas ou quando sujeito à concorrência de alternativas terapêuticas alheias à racionalidade científica.
Educação para a saúde ou mera ficção?
Cremos que vagamente. Tais produtos serão consumidos acriticamente pela maioria, que deles extrai apenas o conteúdo emotivo imediato e a vertente romântica e voyeur.
Eventualmente, os mais atentos poderão captar um ou outro dado científico e procurar esclarecimento complementar entre a imensa informação médica disponível na Internet, mas com consequências práticas pouco substantivas.
Recentemente, a Associação Médica Italiana e a Organização Médica Colegial de Espanha vieram a público exigir o fim da transmissão das séries televisivas ” Doctor House ” e “Anatomia de Grey” nos respectivos países, pelo alegado mau serviço que prestam ao cidadão, em termos de rigor informativo e pelas falsas expectativas que criavam aos doentes.
Tais atitudes, vindas de instituições cientificamente credíveis, parecem algo estranhas e radicalizantes, num mundo democrático e plural.
A função pedagógica da televisão constitui hoje uma perspectiva tão romântica como a irreverência clínica do Dr. House. Se as instituições oficiais a quem compete produzir e divulgar programas de educação para a saúde cientificamente correctos e acessíveis ao cidadão comum cumprirem o seu papel, não há, certamente, que temer as inverdades clínicas do Dr. House ou a pieguice da Dra. Grey.
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