Todos os anos as doenças respiratórias deixam muitos e muitos portugueses em casa e enchem as urgências hospitalares: vírus e outros agentes infecciosos circulam à boleia do Inverno, aproveitando-se do frio, mas também da poluição e de fumos como o do tabaco.
Todos os dias, circulam pelo nosso aparelho respiratório mais de 12 metros cúbicos de ar. Deveria ser ar puro, mas a verdade é que pela boca e pelo nariz entram cada vez mais substâncias que agridem os órgãos que nos ajudam a respirar: são muitos os poluentes, entre os emitidos pelos automóveis e os que se libertam das indústrias, passando pelo fumo do tabaco próprio ou alheio.
E o resultado é que respirar é cada vez mais difícil. Que o digam os portugueses que engrossam as estatísticas: o mais recente relatório do Observatório Nacional das Doenças Respiratórias indica que em cinco anos se registou um aumento de 15% nos internamentos causados por patologias do aparelho respiratório.
Em 2008, foram diagnosticadas a quase 74 mil pessoas, sendo que estas doenças constituem a terceira causa de morte, a seguir às do coração e às oncológicas.
De todas, a pneumonia é a responsável por mais hospitalizações – mais de 50 mil casos em 2008 -, seguindo-se a Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica, com mais de 9300 doentes diagnosticados nesse ano.
Factores ambientais e comportamentais contribuem para grande parte destes casos, com o observatório a destacar o tabaco entre as ameaças à saúde respiratória. Causas à parte, a verdade é que o aparelho respiratório reage quando é agredido. E essa defesa começa logo no nariz, a principal porta de entrada do ar e das substâncias agressivas. É o nariz que aquece o ar que inalamos, mantendo uma temperatura de 37ºC e uma humidade de 78%. Ora se o ar está muito frio, como acontece no Inverno, os capilares nasais entram em acção dilatando-se e produzindo mais muco: o resultado pode ser a congestão nasal, típica das doenças respiratórias. E se o muco for muito espesso, os vírus, bactérias e outras partículas concentram-se, podendo dar origem a uma infecção respiratória.
E quando a congestão aumenta respirar pelo nariz torna-se mais difícil, havendo tendência para respirar pela boca: está então aberta a porta para que o ar frio e as substâncias que nele viajam alcancem os brônquios.
Este processo é acentuado pelo facto de, no Inverno, as pessoas se concentrarem em espaços fechados, por vezes mal arejados e demasiado aquecidos. O ar torna-se então mais agressivo para o aparelho respiratório.
E são muitas as doenças que afectam os pulmões e demais órgãos envolvidos na respiração: da constipação à gripe, da bronquiolite à pneumonia, da sinusite à asma. Sintomas nasais como corrimento ou congestão nasal, tosse, garganta irritada, dificuldade em respirar, e outros específicos, são o resultado das situações enunciadas.
Eis algumas das doenças respiratórias mais prováveis agora que estamos no pico do Inverno:
Constipação
É a mais comum das afecções das vias respiratórias. Tão comum que uma mesma pessoa pode estar constipada várias vezes no mesmo ano. E isto porque a constipação é causada por mais de 200 tipos de vírus, sendo que a infecção por um deles não confere imunidade contra os demais. Daí os elevados índices de absentismo associados a esta doença, mesmo sendo geralmente benigna.
Dois a três dias após o contacto com o vírus – e ele é muito fácil, bastando umas gotículas de secreções infectadas – surgem os sintomas: corrimento e congestão nasal, espirros, tosse. Por vezes também dor de garganta e dores de cabeça. Na maioria dos casos não há febre. Quatro a dez dias depois estes sintomas começam a desaparecer, sendo a tosse o mais persistente.
Repouso, ingestão abundante de líquidos, inalação de vapor de água, e medicamentos para controlo sintomático constituem o tratamento da constipação, uma doença em que os antibióticos não são eficazes dado ser causada por vírus.
A constipação e a gripe são situações distintas, embora tenham algumas manifestações clínicas semelhantes.
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Gripe
Muitas pessoas ainda consideram a gripe uma doença banal, confundindo-a com a constipação. São ambas infecções respiratórias, mas com consequências diferentes: é que a gripe pode evoluir para doenças mais graves como a pneumonia.
E isto porque é causada por um vírus muito agressivo e com grande capacidade de mutação. O contágio é fácil: um acesso de tosse, um espirro, a simples fala liberta gotículasem que o vírus influenza viaja para outros organismos. De tal forma que uma única pessoa é um perigoso foco de contágio. As crianças são, aliás, as principais disseminadoras da gripe, na medida em que são também as mais atingidas e nelas o vírus sobrevive mais tempo.
Febre elevada (superior a 38,5 ºC), arrepios intensos, calafrios, cefaleias, intenso mal-estar, dores musculares e falta de apetite são os principais sintomas desta doença, que tem também nos idosos um dos seus alvos preferidos. E é igualmente nos idosos, dada a sua vulnerabilidade, que a gripe pode assumir contornos mais graves, dando nomeadamente origem a pneumonias.
Também aqui os antibióticos de pouca ajuda são, dado que a gripe é uma doença vírica. O que há a fazer é controlar as suas diversas manifestações. E prevenir, tomando em cada Outono a vacina anti-gripal recomendada pela Organização Mundial de Saúde. Sobretudo quando se é idoso, quando se vive em instituições (lares, por exemplo) ou quando se é portador de doenças crónicas.
Otite Média
Muito frequente entre os seis meses e os dois anos, a otite segue-se, quase sempre, a uma infecção vírica das vias aéreas superiores.
O ouvido médio comunica com a boca e o nariz (nasofaringe – parte superior da garganta e posterior do nariz) através da trompa de Eustáquio, canal que nas crianças é mais curto e estreito. Numa situação normal, o muco segregado no ouvido médio é evacuado através da trompa de Eustáquio, mas as infecções víricas provocam um inchaço das paredes da trompa de Eustáquio, podendo entupi-la e impedir o muco de sair, aumentando a pressão sobre o tímpano, com dor. Estão também reunidas as condições para uma infecção do ouvido médio (na maior parte das vezes é vírica): o pus e muco acumulam-se, exercendo pressão sobre o tímpano e inflamando-o.
Surgem então as dores de ouvido, uma dor repentina, acompanhada de febre. Os bebés ficam irritadiços, sem vontade de comer, parecem cansados. Às vezes, levam a mão às orelhas, coçando-as, como que a denunciar a origem do incómodo.
Pode também ocorrer corrimento do ouvido, o que significa que o muco exerceu tal pressão sobre o tímpano que o perfurou. Em regra, ao fim de dez dias o corrimento desaparece e o tímpano tapa-se espontaneamente.
Dor de ouvidos e febre não chegam para diagnosticar uma otite, pois podem ser sinais de outra qualquer doença. Para ter a certeza, o médico examina o tímpano através de um pequeno instrumento – ortoscópio: uma cor vermelha e um formato abaulado permitem confirmar a otite.
O caminho normal até à cura passa por aliviar os sintomas, administrando um analgésico/anti-inflamatório (em supositórios ou xarope). Desentupir o nariz é fundamental, o que se consegue com a ajuda de soro fisiológico ou de um spray de água do mar. O recurso a gotas nasais deve ser discutido com o médico, pois algumas são desaconselhadas para menores de sete anos e podem ser perigosas em caso de sobredosagem.
Em regra, a otite média aguda cura-se sem um tratamento específico: ao fim de dois dias a dor começa a ceder e a temperatura a descer, sendo necessários uns dez dias para o completo restabelecimento da criança.
Mas se, volvidos três dias, não se registarem melhoras, poderá ser necessário recorrer a um antibiótico, uma decisão do médico assitente.
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Bronquiolite
Doença muito comum em crianças com idade inferior a dois anos. Aproximadamente 80% dos casos ocorrem durante o primeiro ano de vida, com um pico de incidência entre os 2 e os 6 meses de idade.
Caracteriza-se, como o nome indica, por uma inflamação dos bronquíolos: estes canais respiratórios ficam inflamados mais estreitos e produzem uma grande quantidade de muco, o que aumenta ainda mais a obstrução e a dificuldade em respirar.
De origem vírica, a maior parte das vezes é causada pelo vírus sincicial respiratório, mais activo a partir de Novembro e até final do Inverno. As crianças que frequentam creches e ainda não desenvolveram o seu próprio escudo de protecção são mais vulneráveis. É geralmente benigna, apesar do elevado grau de contágio, assumindo uma forma mais grave quando os bebés têm menos de três meses, podendo ser necessária a hospitalização nos casos mais severos.
Os seus sintomas iniciais são semelhantes aos da constipação – secreção nasal, tosse, com ou sem febre.
Após alguns dias, à medida que a doença progride podem surgir dispneia e pieira e com o agravamento do quadro respiratório tornam-se evidentes sinais de dificuldade respiratória.
É como se no peito da criança se travasse uma luta de gatos, perfeitamente audível. Respirar tornar-se penoso, o que interfere com a alimentação. Com o aumento da obstrução dos canais respiratórios, pode aparecer uma coloração azulada nos lábios, a chamada cianose, indicadora da deficiente oxigenação do sangue.
Cerca de dez dias depois, os sintomas costumam desaparecer. Para isso contribui naturalmente o tratamento, à base de antipiréticos (quando é necessário baixar a febre) complementados por uma abundante ingestão de líquidos (para manter a criança hidratada e compensar a falta de apetite). Os antibióticos ficam de fora porque nada fazem contra o vírus.
Podem utilizar-se aerossóis com soro fisiológico, recorrendo a um aparelho próprio, o nebulizador, que criando uma atmosfera húmida contribuem para a hidratação das vias aéreas. Porém, pode acontecer que as secreções se concentrem de tal forma que a criança não as consegue expelir, dada, nomeadamente, a imaturidade do seu organismo (recorde-se que a bronquiolite afecta sobretudo lactentes). É então necessário recorrer à cinesioterapia respiratória, uma técnica de manipulação no tórax por forma a libertar as secreções. Mas é preciso ter atenção porque pode agravar o estado clínico da criança.
Sinusite aguda
Não é uma doença exclusiva do Inverno, mas o frio pode agravar os sintomas desta inflamação dos seios peri-nasais – cavidades situadas junto ao nariz nas quais se acumula o muco nasal. Em condições normais, este muco é fluido, mas quando uma pessoa se constipa ou sofre de alergia os seios peri-nasais inflamam-se, interferindo com a drenagem natural do muco, que se torna espesso e, se existir infecção, apresenta uma coloração amareloesverdeada.
O entupimento do nariz dificulta a respiração, causa dor em alguns pontos da face, uma sensaçãode peso na cabeça e nos olhos, podendo existir febre. Dor de ouvidos, tosse, cansaço e dor de dentes do maxilar superior, bem como redução do olfacto, podem ser outros sintomas desta infecção.
Geralmente, a inflamação da mucosa nasal regride ao fim de uma semana, mas pode acontecer que, ao invés, os sintomas se agravem e exista febre superior a 38ºC, necessitando então de intervenção médica. Controlar a inflamação, reduzir a congestão das mucosas e reverter a obstrução nasal, de modo a permitir a drenagem do muco, é o objectivo do tratamento. Para o atingir há que manter a hidratação do organismo, bebendo líquidos com frequência, lavar o nariz regularmente com soro fisiológico e, se necessário, descongestioná-lo com a ajuda de mucolíticos (medicamentos que aumentam a fluidez das secreções).
Na maioria dos casos, a sinusite aguda é uma doença inofensiva, apesar de muito incómoda. Mas se negligenciada, se houver sinais de agravamento, pode complicar-se e dar origem, nomeadamente, a otites, bronquites ou mesmo meningite.
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Asma
Tal como a sinusite, também não é uma doença exclusiva do Inverno, mas os seus sintomas tendem a agravar-se com a descida da temperatura. De origem alérgica ou não, a asma pode surgir em qualquer fase da vida, sendo frequente na infância. Caracteriza-se por uma reacção excessiva e despropositada do organismo – hiperreactividade brônquica – a determinadas substâncias: poluição atmosférica, fumo do tabaco e ácaros do pó da casa, são apenas alguns. É uma doença inflamatória crónica.
Sensação de falta de ar, pieira e uma tosse seca são as queixas comuns aos doentes asmáticos, cuja respiração é rápida e ofegante. A ansiedade aumenta, cresce uma sensação de aperto no peito e o quadro pode agravar-se com suor intenso, palpitações e cansaço evidente. Os músculos do peito vão cedendo ao esforço de manter a respiração e esta vai-se tornando mais difícil. Em consequência, há uma deficiente oxigenação do sangue, o que constitui uma situação de urgência.
As crises de asma variam em intensidade e duração, mas na maioria dos casos a evolução da doença é favorável, iniciado tratamento adequado.
Para controlar os sintomas e a doença inflamatória de base, existem dois tipos principais (entre outros) de medicamentos: os broncodilatadores e os anti-inflamatórios. Os primeiros visam dilatar as vias respiratórias, melhorando o fluxo de ar. Quanto aos segundos, trata-se de reduzir a inflamação das vias aéreas podendo ser usados por via sistémica numa exacerbação e por via inalatória como preventivos.
Pneumonia
É uma das complicações mais comuns de uma gripe não tratada ou negligenciada.
Aliás, os seus sintomas iniciais imitam os da gripe: tosse, febre, arrepios.
A sua causa pode ser vírica, bacteriana e, mais raramente, tem origem em fungos ou noutros micro-organismos. Na criança é mais frequente vírica e no adulto bacteriana.
A semelhança é apenas nos sintomas, porque as consequências são diferentes: o que está em causa é a saúde dos pulmões. A pneumonia é uma inflamação dos alvéolos pulmonares, os pequenos sacos de ar existentes nas extremidades dos brônquios. Em circunstâncias normais, os pulmões estão a salvo de infecções pois o organismo filtra o ar que respiramos.
Mas nem sempre os filtros naturais são eficazes. Ou pela agressividade dos agentes infecciosos ou pelo enfraquecimento das defesas do organismo, a infecção pode acontecer. Vírus ou bactérias progridem até aos alvéolos, onde sofrem a acção das células brancas do sangue (os leucócitos) que integram o sistema imunitário e, em consequência, atacam os invasores.
Mas a presença, em simultâneo, de todos estes elementos nos pequenos sacos de ar acaba por causar inflamação: enchem-se então de fluido, tornando a respiração difícil e desencadeando os demais sintomas da pneumonia.
Perante a suspeita de pneumonia – nomeadamente quando os sintomas de gripe permanecem mais tempo do que é habitual ou se agravam – há que recorrer ao médico. É que a pneumonia trata-se, mas também pode complicar-se e ser até fatal.
Dado o risco, há sinais que não devem ser ignorados: é o caso da tosse persistente e com produção de muco, dor no peito (ao tossir e mesmo ao respirar) febre elevada e inexplicada, com tremores e arrepios, e falta de ar. Sobretudo nos grupos de risco: crianças (com dois anos ou menos), idosos, pessoas com o sistema imunitário deprimido ou com outras patologias respiratórias, cardíacas ou renais.
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Mais vale prevenir
Não é possível evitar por completo as doenças respiratórias. Mas, sabendo que há factores que as potenciam, é sempre possível minimizar o risco. Assim, há alguns cuidados que estão ao alcance de todos:
• Não fume e evite ao máximo ambientes com fumo do tabaco. Não fume em casa;
• Evite, se possível, locais poluídos, nomeadamente com muito tráfego automóvel ou com fumos industriais;
• Em casa, evite alcatifas, tapetes e cortinados muito densos, em que se possam acumular pó e outras substâncias passíveis de irritar o aparelho respiratório ou desencadear sintomas alérgicos em indivíduos susceptíveis;
• Aspire frequentemente a casa, incluindo cortinados e colchões; prefira materiais laváveis;
• Se tem ar condicionado, limpe e substitua regularmente os filtros;
• Se tem mais de 65 anos ou é doente crónico, informe-se junto do seu médico ou farmacêutico sobre a vantagem de se vacinar contra a gripe;
• Informe-se igualmente sobre o benefício de se vacinar contra a pneumonia pneumocócica.
Gestos de ouro
Os vírus respiratórios transmitem-se muito facilmente, pelo que o risco de contrair a infecção ou de contagiar alguém é elevado. Proteja-se a si próprio e proteja os outros, adoptando comportamentos preventivos:
• Não espirre ou tussa para o ar: tape o nariz e a boca com um lenço;
• Use lenços de papel e deite-os fora depois de espirrar, de tossir ou de se assoar: use-os apenas uma vez;
• Lave as mãos com regularidade, esfregando todas as superfícies com sabão ou um gel desinfectante;
• Desinfecte as mãos após tocar em objectos de uso público;
• Evite levar as mãos à boca, ao nariz ou aos olhos;
• Evite o contacto com pessoas doentes.
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