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Séries televisivas e educação para a saúde: Formação ou healthentertainment?

23 Janeiro, 2010 0

A atitude somatofílica e hedonista que caracteriza o mundo ocidental, consubstancia um fenómeno reconfigurador da dinâmica da humanidade e dos seus valores clássicos, centrado na libertação do individuo da asfixia normalizadora colectiva e na transmutação do corpo, independentemente do género, numa matriz simbólica carregada de mensagens e códigos afirmativos de liberdade e de autonomia.

O indivíduo arroga-se o direito ao controlo do seu próprio corpo, da sua pessoa e do seu estado de saúde, aceitando, por princípio, o saber médico quando dele necessita, mas não deixando de o questionar quando esse saber colide, de alguma forma, com as suas crenças e idiossincrasias.

Todavia, o corpo simbólico, vulnerável e perecível, reverterá rapidamente à dimensão orgânica, quando colocado perante a ameaça da doença e do sofrimento.

Por isso, a medicina mantém um poderoso papel de instrumento de controlo social, e o saber médico, exclusivo e independente, permanece sólido numa sociedade ambivalente, sedenta de autonomia e de valores próprios, mesmo quando alvo de hostilidades mediáticas ou quando sujeito à concorrência de alternativas terapêuticas alheias à racionalidade científica.

 

Educação para a saúde ou mera ficção?

Cremos que vagamente. Tais produtos serão consumidos acriticamente pela maioria, que deles extrai apenas o conteúdo emotivo imediato e a vertente romântica e voyeur.

Eventualmente, os mais atentos poderão captar um ou outro dado científico e procurar esclarecimento complementar entre a imensa informação médica disponível na Internet, mas com consequências práticas pouco substantivas.

Recentemente, a Associação Médica Italiana e a Organização Médica Colegial de Espanha vieram a público exigir o fim da transmissão das séries televisivas ” Doctor House ” e “Anatomia de Grey” nos respectivos países, pelo alegado mau serviço que prestam ao cidadão, em termos de rigor informativo e pelas falsas expectativas que criavam aos doentes.

Tais atitudes, vindas de instituições cientificamente credíveis, parecem algo estranhas e radicalizantes, num mundo democrático e plural.

A função pedagógica da televisão constitui hoje uma perspectiva tão romântica como a irreverência clínica do Dr. House. Se as instituições oficiais a quem compete produzir e divulgar programas de educação para a saúde cientificamente correctos e acessíveis ao cidadão comum cumprirem o seu papel, não há, certamente, que temer as inverdades clínicas do Dr. House ou a pieguice da Dra. Grey.

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