O sexo no idoso: “Não tenham vergonha da vossa sexualidade”
Envelhecer é sofrer uma série de modificações morfológicas e funcionais corporais, caracterizadas essencialmente por uma redução da eficácia de todos os órgãos e sistemas.
É natural que, com o avançar da idade, a sexualidade já não seja igual à de anteriormente, contudo, não é imperioso que deixe de existir. O Professor Nuno Monteiro Pereira, urologista, desmistifica os tabus da prática sexual entre os mais idosos.
Quais as consequências do envelhecimento na actividade sexual?
Envelhecer deve ser considerado como um processo fisiológico. Todos nós envelhecemos, ninguém consegue fugir a esse mecanismo.
A questão perante o envelhecimento é o de saber envelhecer. E a sexualidade deste saber envelhecer é essencial. Ou seja, há uma série de mitos que tanto homens como mulheres adquiriram – porque foi assim que os seus pais e avós foram transmitindo –, como por exemplo, de que o velho não tem sexualidade, é assexuado. Ora, isto não é verdade.
É claro que a sexualidade dos mais idosos não é igual à sexualidade de quando eram mais jovens, mas é preciso saber viver e assumir a sua sexualidade.
Quais os principais problemas que podem surgir com o avançar da idade?
Para a disfunção mais frequente, que é a disfunção eréctil do homem, existem hoje tratamentos fantásticos com taxas de sucesso e eficácia enormes.
No caso da sexualidade feminina é mais complexo, por razões da própria maneira de ser feminina, por razões hormonais, uma vez que as hormonas nos homens vão diminuindo lentamente mas existem. No caso das mulheres, as hormonas cessam subitamente, com a entrada menopausa. A produção de estrogénios passa a ser muito baixa, mas os androgénios (hormonas masculinas que as mulheres também possuem mas em níveis muito baixos) passam a ser as hormonas dominantes.
Isto significa que a mulher, muitas vezes, após a menopausa, nota um aumento do desejo sexual. É, portanto, um mito quando se diz que a mulher perde o desejo sexual depois da menopausa. Pelo contrário. Há uma fase transitória, normalmente entre os 50 e os 60 anos, em que o desejo sexual feminino está aumentado. Mas a mulher recusa e chega a ser por razões puramente culturais, porque ninguém lhe disse que isto iria acontecer e considera anormal – que é até pecaminoso – ter um forte desejo sexual com aquela idade.
O problema efectivo chega, a partir dos 60/65 anos, quando os próprios androgénios também começam a baixar e a mulher deixa efectivamente de ter desejo sexual. Poderá ter um desejo intelectual mas o desejo físico que antes existia, desaparece.
Aí começa outro problema que é o homem ainda ter desejo sexual e a sua parceira já não ter.
Como podem estes problemas ser ultrapassados?
A mulher, mesmo com 60 ou 70 anos, pode fazer terapêuticas hormonais de substituição, nomeadamente a nível do desejo sexual e consegue-se de algum modo alterar esta fisiologia, sem grandes dificuldades ou efeitos secundários.
Ao sentirem-se sexualmente activos, os idosos poderão sentir-se “mais vivos”?
Seguramente que sim. Vemos que, habitualmente, os homens e mulheres mais velhos que mantêm uma actividade sexual têm muito menos problemas físicos e psicológicos. Um estudo sobre o assunto iria demonstrar, estou certo, que homens e mulheres mais velhos, que mantêm actividade sexual com uma regularidade razoável, provavelmente não têm perturbações de ansiedade e de depressões.
Quais os sinais de envelhecimento, em ambos os sexos, que podem afectar o desempenho sexual?
Há os sinais da andropausa nos homens e da menopausa nas mulheres. A menopausa é bem conhecida, é marcada, a silhueta da mulher altera-se, os afrontamentos (sensação de calores), diminuição do desejo sexual, perda óssea, menos protecção cardíaca. No homem é quase igual mas menos nítido. Também têm afrontamentos, mas são pequenos e raros, também altera a silhueta (aparecimento de barriga e perda muscular), também existe osteoporose, mas menos nítido do que na mulher, e a calvície.
O meu conselho é que não tenham vergonha da sexualidade, nem de ter actividade sexual, nem de ter pensamentos. É natural! E o facto de ser menos frequente ou diferente do que era antes, não quer dizer que não seja normal. Devem assumir sem complexos.
A VERDADE DOS MITOS
Causas de disfunção sexual
– Tabaco, álcool e drogas sociais
– Uso e consumo de medicamentos
– Insuficiência arterial peniana: HTA e diabetes
– Insuficiência veno-oclusiva
– Degenerescência do tecido cavernoso e Peyronie
– Hipertrofia benigna da próstata.
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