O Homem, a Cultura e as Drogas
Em todos os lugares, em todos os tempos, homens e mulheres procuraram e encontraram os meios químicos para escapar, mesmo que temporariamente, da sua existência, muitas vezes pesada, confusa e desagradável.
Como observamos portanto, o consumo de drogas parece estar presente em todas as fases da história humana e da evolução cultural.
No entanto, se acompanharmos tal evolução, iremos encontrar, pelo menos na sociedade ocidental, uma grande transformação, produzida nos padrões de uso e difusão das drogas. Tal ruptura torna a relação do homem com as drogas um capítulo problemático e desconcertante da história humana, na medida em que nos passa a impor uma série de questões.
Que modificação se passou?
Nos diferentes exemplos mencionados, as drogas faziam parte de toda uma escala de valores ou rituais, e existiam regras para controlá-las.
Mesmo na sociedade contemporânea podemos apontar grupos que, durante um certo período, utilizavam drogas sem que esse uso se relacionasse a grandes tumultos na vida da sociedade. Certamente que sempre se pôde observar algum tipo de difusão de seu consumo, mas essas eram experiências que se limitavam a certas tradições culturais e categorias sociais específicas.
Nos Estados Unidos do início do século 20, por exemplo, encontramos grupos negros ou de origem africana que usavam maconha. Este era um consumo interno do grupo, uma prática que se realizava em determinados momentos e que, acontecendo dentro de um específico segmento social, não se constituía num problema nacional.
Tal não quer dizer que o uso de drogas não acarretasse problemas, ou que não produzisse toxicomanias, mas esse tipo de problemática era encarada como uma excepção e sua abordagem tinha uma dimensão diferente da que encontramos hoje em dia.
Actualmente, em geral, as drogas e o seu resultado mais aterrorizante, as toxicomanias são vistas como uma moderna modalidade de peste e parecem configurar-se como situação epidémica.
Se existe excesso nessa avaliação, deixemos a conclusão para depois.
O facto é que, a partir da segunda metade do século XX, assistimos a uma expansão rápida e sem precedentes da toxicomania. Tal constatação suscita algumas indagações: O que aconteceu? ou melhor, quais foram os factores que ocasionaram, e em que época exactamente aconteceu essa mudança brusca na configuração do consumo de drogas? Que factores históricos e socio-culturais favoreceriam a grande escalada de toxicómacos na sociedade contemporânea?
Existe uma verdade indiscutível que surge na discussão sobre a proliferação do consumo de drogas na segunda metade deste século: as drogas transformaram-se numa poderosa indústria e num comércio abundante; A dimensão da economia das drogas é enorme, estando apenas menos próspera para a economia da energia e das telecomunicações e armamentos.
O que aconteceu com as drogas em virtude da expansão mercantil, através do mercado clandestino, foi uma total perda de controle, ficando o espaço livre para o desenvolvimento das organizações criminosas complexas que, evidentemente, têm ligações com o mundo oficial e legal.
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