O Porto acolheu o X Congresso Português de Obesidade. Durante três dias, vários especialistas reuniram-se para debater um problema que floresce na sociedade europeia, com particular incidência no nosso País. Se nada for alterado, em 2025, metade da população mundial terá excesso de peso ou será obesa.
De acordo com a definição da Organização Mundial de Saúde (OMS), a obesidade é uma doença em que o excesso de gordura corporal acumulada pode atingir um grau capaz de afectar a saúde do indivíduo. Actualmente, é a segunda causa de morte passível de prevenção, logo a seguir ao tabagismo.
A sua prevalência já atingiu níveis superiores aos da desnutrição ou doenças infecciosas, de tal modo que a OMS declarou-a como a epidemia global do século XXI.
Segundo um trabalho da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade (SPEO), realizado em 2004, 58,6% dos portugueses do sexo masculino encontram-se em situação de obesidade ou pré-obesidade (14,5 e 44,1% respectivamente) e 46,5% das portuguesas sofriam dos mesmos sintomas (14,6 e 31,9%). De uma forma sintética: mais de metade dos portugueses está com peso a mais.
Portugal gasta cerca de 4,2% dos custos totais dos cuidados de saúde só com esta patologia, em todas as suas vertentes – prevenção, diagnóstico, tratamento, reabilitação, investigação, formação e investimento.
Durante o simpósio da Sanofi-Aventis, a Prof.ª Manuela Carvalheiro, médica dos Hospitais Universitários de Coimbra, esclareceu que «qualquer gordura em excesso terá sempre consequências nefastas para o organismo. As células do tecido adiposo, denominadas de adipócitos, produzem hormonas e proteínas inflamatórias (citocinas) que são responsáveis pelo perpetuar da obesidade e desencadeiam fenómenos inflamatórios que estão na origem das complicações vasculares da obesidade e diabetes tipo 2 e, em última análise, dos problemas cardiovasculares associados que podem ser potencialmente fatais.
O que acontece é o que os adipócitos situados na região abdominal (mais exactamente os adipócitos viscerais) são os que têm maior capacidade para produzir essas proteínas.
Todo o tecido adiposo em excesso é mau, mas quando é localizado naquela zona anatómica, é ainda pior».
Assim se entende como a questão do perímetro abdominal, maneira indirecta de avaliar a gordura visceral, assume cada vez mais, uma relevância acrescida na avaliação do tipo de obesidade e co-morbilidades associadas. É de tal forma importante, que há quem o considere como um factor de risco independente.
«A realidade nacional não é nada agradável. Os portugueses até eram um povo bastante elegante mas, actualmente, a situação é bem diferente. Basta sentarmo-nos numa esplanada e olhar para as pessoas que passam. Temos muitas adolescentes que já têm aquele pneu tão característico.
A verdade é que o desenvolvimento económico é sempre mais rápido do que o desenvolvimento cultural. Este desfasamento fez com que os portugueses tivessem mais poder de compra e adquiriram hábitos alimentares extremamente prejudiciais à saúde.
Como estamos hoje, Portugal é um paraíso para quem vive à custa da obesidade», alerta o Prof. Massano Cardoso, da Faculdade de Medicina de Coimbra.
Esta situação pode ser alterada de duas formas distintas, uma com consequências imediatas, outra, com resultados que só serão visíveis daqui a algumas décadas, com todas as implicações inerentes.
«O fenómeno da obesidade no nosso País é, também, um problema político. Podemos deixar que a educação faça o seu papel e daqui a uns anos, duas ou três gerações, passamos a ter este problema controlado.
Ou pode haver coragem política para serem tomadas medidas que, como grande vantagem, têm uma aplicabilidade imediata. Deve haver regulamentação adequada ao nível da produção, distribuição e venda dos alimentos», sustenta Massano Cardoso.
No entanto, toda esta situação não se deve à falta de informação. A grande maioria das pessoas até está bem informada e conhecedora de que tipos de alimentos são mais e menos saudáveis.
O problema, segundo o Prof. Davide Carvalho, da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, «é que é bastante complicado resistir a toda uma panóplia de oferta de alimentos hipercalóricos que actualmente existem, e que são bastante prejudiciais. Além disso, a própria actividade física também sofreu alterações bastante consideráveis.
Antes usávamos as escadas, hoje vamos de elevador ou escada rolante. Dantes íamos a pé, hoje pegamos no carro para fazer dois ou três quarteirões. Tudo isto faz com que gastemos menos energia, contrapondo com o facto de comermos mais alimentos energéticos».
Além destas mudanças de hábitos, existem outras correlações que podem justificar o facto de, geralmente falando, estarmos a ficar mais gordos. De acordo com Davide Carvalho, «existe, por exemplo, uma relação entre o número de horas a assistir televisão e a obesidade.
Este exemplo remete para a questão da falta de exercício, bem como, para uma outra situação: uma pessoa a ver televisão e a comer não tem consciência do que come, logo, irá ingerir muitos mais alimentos do que se comesse sem a televisão à frente, devido à ausência da percepção do que está a comer».
Estes últimos 20 anos, em que se assistiu às mudanças de hábitos e da anatomia dos portugueses, estão, hoje em dia, a acarretar consequências ao nível da saúde mas, a situação começa a atingir tais proporções, que a nossa própria ideia do que é saudável está a ser, progressivamente, alterada.
«Temos casos reais de pessoas que nem conseguem perceber que são obesas. As referências e os parâmetros que delineiam a ideia de saudável estão a ficar modificadas de tal modo que a obesidade começa a ser encarada como normal.
Há casos de pais obesos que levam os seus filhos ao médico porque a criança está muito magrinha, quando, na realidade, a criança é que está saudável e os pais é que estão com problemas», declara Massano Cardoso.
Ouvindo os especialistas, parece consensual que são precisas mudanças. Mudanças ao nível educacional para, a médio prazo, se traduzirem em alterações culturais.
Para Davide Carvalho, «temos dois tipos de mudanças a realizar: sociopolíticas, envolvendo o ambiente, a cidade, as infra-estruturas que nos rodeiam, desde a cantina do local de trabalho ou da escola até ao próprio meio de transporte; medidas individuais que dizem respeito ao indivíduo concreto que sofre desta doença.
Aqui, o principal executor das medidas contra a obesidade será o próprio doente. É ele que toma os medicamentos, é ele que muda os hábitos alimentares, é ele que começa a fazer exercício físico. A responsabilidade maior é toda dele. Estas mudanças são fundamentais.
É sabido que os jovens que praticam exercício, tendencialmente, serão adultos que praticam exercício e, por isso, é indispensável promover a actividade física dos jovens. Estas são as atitudes que são precisas implementar», concluiu.
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