Falta pouco!
Temos um dos 20 melhores sistemas de saúde do mundo. Será por acaso? A saúde, intensiva em conhecimento e tecnologia, é uma face do desenvolvimento de um país. Mas exige uma atitude proactiva e de parcerias que ainda temos de desenvolver. O que falta para sermos os melhores? Talvez pouco.
Na busca incessante por manter-me a par do que se passa no sector da saúde em Portugal e no mundo, navego na Internet em busca de notícias, relatórios e documentos diversos, em diferentes línguas. Quando iniciei estes escritos, em 1997, a informação disponível não se comparava com a que dispomos actualmente.
Nessa altura, a Web dava os primeiros passos. Nesse ano, a minha fluência no inglês, no castelhano e no francês era menor. As competências de aprendizagem, de gestão da informação e do conhecimento não se aproximavam das que adquiri desde então «por causa na Net». Já não posso trabalhar sem uma atitude proactiva e aprendente, sem o computador e a Internet!
Mas não sou o único. Faço parte da grande maioria de trabalhadores de serviços que hoje desenvolve actividades com alta exigência sobre conhecimento e processamento de informação.
O mesmo se passa com os profissionais de saúde que, de modo contínuo, precisam de buscar informação para desenvolver a sua actividade, de registar dados e a eles aceder com uma elevada frequência, de dominar diversas línguas para encontrar, em tempo útil, a informação necessária para responder com qualidade aos desafios que enfrentam.
Não sei se alguma vez se questionou sobre a complexidade do simples acto de dar uma vacina a uma criança! Já alguma vez imaginou a quantidade de trabalho e de informação que está subjacente a este momento?
Para que um enfermeiro vacine uma criança contra a meningite, convém que conheça a história clínica do infante, as contra-indicações do produto, o modo de aplicação, as reacções que pode desencadear e a forma como deve comunicar aos pais as ideias relevantes para acompanhar a criança nas 48 horas seguintes. Ou seja, precisa de se preparar durante anos e de se actualizar sobre aquele assunto específico!
Para que a vacina tenha sido produzida, testada e aprovada, foram precisos mais de 10 anos de investigação, experimentação, recolha de dados, tratamento de informação, milhões de euros de investimento das indústrias farmacêuticas, milhões de horas de trabalho das indústrias tecnológicas, das universidades e dos centros de investigação.
A saúde carece de aprendizagem contínua, de tratamento de informação, de experimentação e de investimento financeiro. É uma actividade que os economistas apelidam de intensiva em capital conhecimento, tecnológico e financeiro.
Na Sociedade do Conhecimento, o sector da saúde demonstra o potencial de desenvolvimento do nosso País. Mas para que concretize as ambições que sobre ele depositamos, precisa de alguns acertos no modo como pensamos e agimos.
De uma vez por todas, temos de saber que a saúde de cada indivíduo é algo que se atinge pelo esforço combinado do próprio (por isso, necessita de aprender como construir a sua saúde), dos outros e do sistema de saúde. É bom que se perceba que a gestão económica que o Estado faz dos sistemas de saúde não pretende ganhos de saúde a todo o custo. Utiliza uma óptica razoável para equilibrar recursos, necessidades e os desejos que criámos.
As clínicas, os hospitais privados, as companhias de seguro, as farmácias, a indústria farmacêutica, etc. visam o lucro, prestando cuidados ou produzindo produtos para a saúde. Não existem sem um mercado da saúde.
É neste contexto de múltiplos actores, com interesses diversos, por vezes conflituosos, que se torna essencial negociar (com alguma criatividade e muita decência) as parcerias de desenvolvimento para o sector.
Mas, neste campo, existe também a necessidade de provocar uma mudança de atitude das pessoas e das culturas organizacionais. É importante desenvolver a proactividade e a vontade de aprender. É conveniente desenvolver a capacidade de ouvir e de responsabilizar sem criticar. É essencial saber planear e concretizar. Tudo isto precisa de acção, do suporte da estratégia e das novas tecnologias digitais.
Quanto à estratégia, temos um Plano Nacional de Saúde 2004-2010, elaborado no mandato de Luís Filipe Pereira, e assumido pelo actual ministro, que define o caminho da mudança. É um documento de consenso alargado e enquadra a acção dos parceiros da saúde. Com base neste, desenham-se cerca de 40 programas de intervenção que consagram a acção em áreas específicas.
Temos excelentes centros de investigação biomédica e social, reconhecidos internacionalmente. No campo da economia, a indústria farmacêutica – grande motor de desenvolvimento e de competitividade dos países mais desenvolvidos – associou-se ao Governo para desenvolver o sector da investigação e desenvolvimento. No campo das novas tecnologias… temos um Plano Tecnológico, um programa por concretizar, muitas vontades e promessas!
Portanto, temos ideias, condições, caminho, actores empreendedores e líderes de acção! O que falta então?
Falta fazer; falta tempo para concretizar as ambições; é necessário ter uma comunicação social comprometida com o desenvolvimento nacional que não transforme a notícia em espectáculo e a comunicação em polémica para fazer dinheiro; falta qualidade na educação formal e informal; e um pouco mais na organização e liderança do sector!
Apesar de tudo… é pouco!
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