Mudam-se os tempos, muda o modo como se vive o prazer. E se, há umas décadas, o sexo se conjugava com o sujeito masculino, hoje em dia, as mulheres já têm mais voto na matéria. De tal modo que o desempenho do homem depende do grau de satisfação da parceira. Nesta corrida, o orgasmo é a meta a atingir. Mas e se ele chega primeiro? Nem tudo está perdido: há solução para contornar a ejaculação prematura e prolongar o tempo de prazer a dois.
Já diz o ditado que tudo o que é bom acaba depressa. E, quando se fala de prazer, este adágio popular encaixa na perfeição. Principalmente, quando em causa está um problema de ejaculação prematura, a disfunção sexual mais frequente no género masculino que, segundo alguns estudos, afecta 1 em cada 5 homens portugueses.
De acordo com a definição mais recente, “trata-se de um distúrbio sexual que se caracteriza por uma ejaculação rápida antes ou até um minuto após a penetração, em todas ou quase todas as tentativas”, esclarece o Dr. Jorge Rocha Mendes, presidente da Sociedade Portuguesa de Andrologia (SPA). O Prof. Nuno Monteiro Pereira, urologista e director da Clínica do Homem e da Mulher, diz que, para além da rapidez, existe, sobretudo, “uma incapacidade em controlar o momento da ejaculação”.
Mas, como a ejaculação prematura não é toda igual, a abordagem do problema exige tratamentos distintos. Tal como refere o responsável da SPA, existem dois tipos de ejaculação prematura: “A primária é aquela que ocorre desde o início da vida sexual; já a secundária surge tardiamente, em qualquer fase da vida do homem.”
Hoje em dia, colocam-se em cima da mesa várias hipóteses para justificar este distúrbio masculino. “Admite-se que a ejaculação prematura tenha causas neurológicas e psíquicas, relacionados, sobretudo, com a ansiedade e o stresse”, aponta o mesmo urologista. “Antigamente”, ponderava-se a existência de “factores orgânicos periféricos, ligados ao pénis”. Actualmente, esta visão já passou de moda e, praticamente, já não é aceite: “O enfoque está nos mecanismos cerebrais.”
Apesar de haver algumas confusões, o especialista explica que a ejaculação prematura é completamente distinta da disfunção eréctil, muito embora, em alguns casos, um distúrbio possa conduzir ao outro. “Uma ejaculação prematura muito duradoura poderá acarretar uma incapacidade progressiva de obter uma boa erecção, conduzindo, assim, a uma impotência secundária.”
Qualquer que seja o tipo de ejaculação prematura, “o homem continua a ter orgasmo e, simultaneamente, prazer”. Mas a rapidez com que alcança o clímax poderá causar “alguma frustração”, não só ao homem, como também à parceira. Aliás, como adianta Nuno Monteiro Pereira, a ejaculação prematura não deve ser considerado um problema exclusivamente masculino, uma vez que afecta ambos os membros do casal.
Eles e elas
Homens de um lado, mulheres do outro. Nesta “guerra” de sexos, que disparidades existem entre ambos os géneros? Segundo alguns estudos, o tempo médio da ejaculação masculina é de três minutos. Já a mulher para ter um orgasmo demora, média, entre seis a sete minutos. “Do ponto de vista prático há uma diferença apreciável”, diz Nuno Monteiro Pereira.
Devido a esta “particularidade da natureza”, estão logo “as condições para haver uma disfunção conjugal”. Senão vejamos: “A ejaculação e o orgasmo masculinos são, normalmente, acompanhados por perda de erecção. Isto significa que, após a ejaculação, o acto sexual fica prejudicado.” Mas o problema agrava-se quando existe uma ejaculação prematura, já que esta disfunção sexual dita o prazo de validade da relação e provoca “um forte impacte na sexualidade feminina”, assegura.
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A mulher, hoje em dia, já não é o elemento passivo de uma relação, ao contrário de antigamente, lembra o especialista. “Classicamente, o homem não se importava muito com o prazer que oferecia à companheira. Agora, está a acontecer precisamente o oposto. A sexualidade feminina passou a estar no centro das preocupações do homem”. O parceiro já não pensa apenas para o prazer: “investe em preliminares mais prolongados, para que a excitação feminina comece antes da penetração”. Com esta técnica, há uma forte possibilidade de o orgasmo acontecer quase em simultâneo no homem e na mulher.
Embora elas já tenham voz activa, “curiosamente, eles passaram a viver (quase) obsessivamente em função do que julgam ser a sexualidade feminina”, afirma o urologista. E, em contraponto, as mulheres passaram a ser mais exigentes e a dar mais valor à quantidade e à qualidade do acto sexual, o que, de certa forma, trouxe à tona “inseguranças e, até, algumas disfunções masculinas”.
Um dado curioso, adianta, é o facto de, com o decorrer da idade, o homem tender a ter uma ejaculação cada vez mais retardada. Esta alteração fisiológica vai permitir que por vezes, na meia-idade, “o homem que sofria do distúrbio contrário passe a ter, pela primeira vez erecções prolongadas”. Mas, se para os ejaculadores prematuros isto é uma vantagem, para os restantes é o início de um problema.
“Alguns homens, ao chegarem aos 50, 60 ou 70 anos apresentam grande dificuldade em ejacular. Trata-se de uma questão igualmente perturbadora para o casal, dado que por vezes o homem persiste, fica quase desesperado por não conseguir ejacular e a mulher fica farta e cansada.”
O sexo está na cabeça?
Segundo o Prof. Rui Xavier Vieira, responsável pela Consulta de Sexologia no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, “a ejaculação primária (aquela que acompanha o homem ao longo da vida sexual) surge, normalmente, em pessoas ansiosas”. Mas será assim tão fácil determinar a fronteiro entre a ansiedade e a disfunção sexual? “É muito difícil distinguir entre o que surgiu antes e o que ocorreu depois”, responde o psiquiatra.
A incapacidade em controlar o momento da ejaculação não causa apenas um desconforto momentâneo. Os homens que sempre sofreram desta perturbação sexual demonstram ter “uma baixa auto-estima, uma antecipação negativa em relação à sexualidade e uma tristeza ligeira”, diz Rui Xavier Vieira. Estes receios, somados à ejaculação prematura, são motivo de “insatisfação sexual”.
Para o psiquiatra, a questão da ejaculação prematura só existe porque houve uma mudança de paradigma no modo como se “saboreia” a relação íntima. O sexo deixou de ter como fim último a reprodução, para passar a ser um meio de alcançar o prazer do casal. E, se para o homem, “ser rápido é normal” – já que o orgasmo masculino é alcançado até aos três primeiros minutos -, “a mulher tem um processo de excitação mais lento”.
Se existe uma discrepância temporal, o sexo pode não ser de todo satisfatória para a mulher, já que o prazer é “interrompido” pela ejaculação prematura do companheiro. O homem “está programado para actuar como um interruptor, ao passo que a mulher, dentro da relação sexual, funciona de uma forma mais contextualizada e romantizada”. Para poder controlar a ejaculação, o homem tem de perceber a mecânica feminina e entender que “existem outras formas de gratificação sexual, que não apenas o coito vaginal”, indica o psiquiatra.
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Neste jogo, ambos os membros do casal têm uma palavra a dizer. O homem que se depare com ejaculação prematura deve procurar ajuda especializada para ultrapassar o problema. Mas, por vergonha, inércia ou preguiça, nem sempre isto acontece. “Alguns parceiros, apesar da ejaculação prematura, sentem-se realizados com o seu prazer, demonstrando uma atitude um pouco egoísta e machista”, fundamenta Jorge Rocha Mendes.
Segundo Nuno Monteiro Pereira, a mulher “deve ser conselheira do companheiro que sofre de ejaculação prematura, ajudando-o a reduzir os níveis de ansiedade, visto que este é um dos factores que mais perturba a função ejaculatória”. O casal deve tentar encontrar estratégias para que o orgasmo possa ocorrer praticamente em simultâneo. E isto pode ser conseguido através do prolongamento dos preliminares, de modo a que a mulher fique excitada antes da penetração e o homem não tenha de aguardar demasiado tempo até ao momento de ejacular. “Quando a situação não se resolve facilmente com estes meios há que procurar outras soluções.”
Neste sentido, o terapeuta sexual surge como um agente de mudança, mas sempre numa perspectiva multidisciplinar e psicossomática. “O especialista não se limita a prescrever um medicamento para prolongar pontualmente o prazer. O papel do terapeuta é ajudar o casal a produzir as transformações necessárias para que a intimidade da dupla funcione melhor”, garante Rui Xavier Vieira.
Para o psiquiatra, antes de qualquer medicação [“uma arma preciosa no tratamento], é necessário fazer “um acompanhamento geral da relação”, para que “tanto o homem, como a mulher, pensem na sexualidade, porque o sexo também está na cabeça”. O casal tem de se “sentir sexuado e satisfeitos com o corpo”.
Dinâmica a dois
Antes de se avançar com um tratamento, é necessário efectuar o diagnóstico preciso da ejaculação prematura, que assenta, sobretudo, na história clínica. “O relato da consulta vai ajudar a esclarecer desde quando e em que circunstâncias ocorreu a ejaculação prematura. A partir destas informações, o especialista sabe se está perante um tipo de disfunção primária ou secundária, orientando o homem consoante a idade e as características do problema”, esclarece o presidente da SPA.
“Dizer que a ejaculação prematura é a disfunção sexual mais fácil de tratar é um mito, porque depois de vários anos de rotina os casais criam hábitos negativos”, acrescenta Rui Xavier Vieira. O psiquiatra indica que o casal, após várias tentativas para reverter o problema, acaba por se distanciar da intimidade. “O homem tem medo que a companheira fique insatisfeita. As parceiras, por outro lado, deixam de colaborar, devido ao estado de apatia e aborrecimento em que mergulham.”
Por tudo isto, este especialista assegura que o mais importante na terapia sexual é “reoxigenar a relação entre o casal, promovendo a intimidade e o diálogo”. A psicoterapia é um método de reeducação sexual, com a qual se obtêm “bons resultados”, desde que “a companheira se disponibilize a ajudar”. No fundo, “pretende-se ensinar o homem a controlar os sinais premonitórios que surgem imediatamente antes da ejaculação”. Mas, sendo este um tratamento progressivo, existem várias etapas até à obtenção dos primeiros resultados.
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“Na primeira fase o objectivo é tranquilizar o casal, favorecer o diálogo na relação e desmistificar o problema. Depois, pode-se introduzir a medicação para aumentar os níveis de confiança do homem, porque um fármaco não deve ser receitado sem apoio psicológico prévio. No final destas etapas, segue-se a terapia cognitiva-comportamental propriamente dita (implementada desde os anos 70), que visa a melhoria das cognições negativas que o membro masculino interioriza em relação ao problema”, fundamenta Rui Xavier Vieira.
Mulher também entra
Segundo Jorge Rocha Mendes, há casos em que são as próprias mulheres a marcar as consultas e a abordar o tema com os médicos de família. E isto acontece porque há homens que manifestam uma certa “resistência” e vergonha em tocar no assunto. Mas, mais do que despertarem o homem para o problema, as mulheres têm de participar activamente no tratamento.
“Uma terapia comportamental só com o homem, não sendo impossível que produza resultados, é muito mais complicada”, diz Nuno Monteiro Pereira. “O elemento essencial deste tratamento é a mulher”, já que o sucesso depende da sua colaboração, acrescenta. O terapeuta precisa de “avaliar o casal, como um todo, perceber a sexualidade, conhecer os limites, os tabus e as dificuldades”, diz o urologista. Só depois desta “radiografia” é que “prescreve a terapia sexual, geralmente baseada em experiências sexuais que se realizam em casa, de erotismo crescente, mas controlado”.
Mas, ao contrário do que se pensa, a terapia sexual “não é só conversa”. É uma terapia “dinâmica”, com uma duração de quatro a seis semanas, que exige uma ligação e um trabalho contínuo dos dois membros do casal. Se estiverem reunidas todas as “condições ideais”, a taxa de sucesso “pode rondar os 70-80%”. Trata-se de terapia que exige “alguma frequência da actividade sexual” e uma disponibilidade total dos parceiros. Durante todo o processo, é de extrema importância que não haja condicionalismos externos. “É preciso que o casal se sinta perfeitamente à vontade e que não haja obstáculos que perturbem a relação, como morar com a sogra, ter filhos pequenos ou ter receio que a expressividade sexual se ouça, por exemplo, em casa do vizinho.”
Gradualmente, são usadas estratégias de “dessensibilização”, nomeadamente através do acto sexual sem penetração. Durante “várias jornadas, o que se pretende é que, aos poucos, o homem descubra o chamado ponto de “inevitabilidade ejaculatória” e o comece a controlar”. O sucesso de todo este processo depende do incentivo dado pela mulher e da percepção masculina de que o tratamento está a produzir resultados positivos.
Tratamentos que retardam o prazer
Até agora, a ejaculação precoce era “remediada” com recurso a sprays, cremes anestesiantes e alguns anti-depressivos, já que este grupo de medicamentos “atrasa a ejaculação”, refere Nuno Monteiro Pereira. Mas para retardar o prazer eram usadas outras técnicas, nomeadamente “o uso de preservativos mais grossos para diminuir a sensibilidade do pénis”.
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Recentemente, surgiu no mercado português um fármaco de administração oral que, tomado uma hora antes do acto sexual, “retarda significativamente a ejaculação”, indica o mesmo especialista. Embora não seja uma cura, Nuno Monteiro Pereira afirma que se trata de “uma preciosa ajuda”, principalmente se for combinado com a terapêutica psicológica.
“Com este medicamento [cujo efeito só dura no dia na toma] existe a capacidade de aumentar até quatro vezes mais o período de latência ejaculatória. Partindo do princípio que a ejaculação prematura ocorre até 1,8 minutos, este fármaco permite que o prazer se prolongue até aos 7,2 minutos, o tempo que a mulher demora até atingir o orgasmo”, completa Rui Xavier Vieira.
Graus de gravidade
A ejaculação prematura pode ser definida, consoante o grau de gravidade, em ligeira, moderada ou grave. “Pode dizer-se que é ligeira quando o homem sente desconforto porque não controlou completamente o momento da ejaculação” explica Nuno Monteiro Pereira. É moderada “quando esse descontrolo leva a que a ejaculação ocorra no minuto que se sucede à penetração”. E é grave “se a ejaculação ocorrer antes do coito, só com os preliminares ou um simples toque”.
Jornal do Centro de Saúde
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