Antes de escolher o cardápio deste Verão, saiba que a comida ingerida pode não estar nas melhores condições. Para evitar alguns amargos de boca, conheça as medidas que o ajudarão a prevenir as doenças de origem alimentar. E, já agora, bom apetite!
Quando leva o garfo à boca, pense nas condições em que se encontram os alimentos que consome. Não vá a comida cair mal. E isto acontece porque, segundo a Dr.ª Sónia Mendes, Consultora de Nutrição, Segurança Alimentar e do Trabalho, “a maioria das doenças de origem alimentar são causadas por microrganismos (bactérias, vírus, parasitas ou fungos)”, presentes nos géneros alimentícios.
“Actualmente, as doenças de origem alimentar classificam-se em dois grupos: intoxicações ou infecções. As primeiras são causadas pela ingestão de alimentos que contêm toxinas, ao passo que as infecções são provocadas pela ingestão do próprio agente patogénico, presente no alimento”, explica a nutricionista.
No caso particular das “intoxicações alimentares de origem bacteriana, a toxina pode persistir no alimento, mesmo depois da bactéria ser destruída por acção do calor”. As bactérias e os vírus são, normalmente, os “agentes” que estão na origem das doenças alimentares, tanto nas infecções, como nas intoxicações.
“Segundo o último relatório da Autoridade Europeia de Segurança Alimentar, publicado a 30 de Abril, a Salmonella enteritidis foi a causa da maioria das doenças reportadas de origem alimentar, tendo sido confirmada a sua presença em ovos e produtos à base de ovos”, fundamenta a especialista. A segunda causa de doença alimentar, na União Europeia, foram os vírus presentes em crustáceos, moluscos, marisco e em refeições servidas em buffets.”
De acordo com as informações apontadas pela nutricionista, “curiosamente”, constatou-se que “37% dos casos [de intoxicação alimentar] são de origem doméstica”. Mas os números não se ficam por aqui: “Dos restantes, 28,6% tinham origem em restaurantes/café/pubs/bares/hotéis; 8% em escolas/infantários, 5% em cantinas e refeitórios empresariais, 4,5% em hospitais, 1,8% em instituições para idosos e 11,6% em outros locais (no campo, piqueniques, take-away, fast-food, catering temporário em feiras ou festivais, instalações alimentares temporárias como roulottes, vendedores de rua, mercados ou outros).”
“Inimigos” invisíveis
Segundo Sónia Mendes, os alimentos implicados na maioria das complicações foram, de acordo com o relatório da União Europeia, por ordem decrescente: ovos e ovoprodutos, pescado, produtos de pastelaria, carne de porco e subprodutos, crustáceos, marisco, moluscos, carne picada e subprodutos (como rissóis e pasteis), carne de bovino, queijo e água. “No entanto, temos que ter sempre presente que, caso haja uma falha no sistema preventivo de segurança alimentar, um produto contaminado poderá, rapidamente, infectar todos os outros e até as próprias instalações alimentares, equipamentos, utensílios e pessoas”, fundamenta a nutricionista.
Embora não haja dados relativos à ocorrência de infecções ou intoxicações na altura do Verão, a especialista garante que ” aumento da temperatura ambiente é um factor que favorece o crescimento dos microrganismos, nomeadamente das bactérias”. Neste sentido, aconselha a “redobrar os cuidados de higiene e segurança alimentar”.
No capítulo da segurança alimentar, a nutricionista aponta várias causas que estão na base das doenças alimentares, nomeadamente “a falta de higiene ou não cumprimento de regras simples de segurança alimentar: manutenção dos alimentos a temperaturas de risco (ambiente); confecção incompleta da carne, peixe ou ovos; vegetais mal lavados; mãos mal higienizadas; mistura de alimentos crus (como ovos), potencialmente contaminados, com alimentos cozinhados; frigoríficos/arcas demasiado cheias e com temperaturas incorrectas; confecção de alimentos de véspera e descongelação incorrecta de alimentos”.
Se as regras básicas não forem cumpridas, as consequências podem ser desastrosas, ao ponto de estragar as tão merecidas férias: “diarreia, vómitos dores abdominais e desidratação”. Tratando-se de infecções alimentares, “o período de incubação pode ser de horas, dias ou semanas, depois de se ingerir um alimento contaminado”. Já nas intoxicações, “dependendo da toxina em causa, podem surgir efeitos imediatos ou demorar anos a manifestarem-se (como no caso dos metais pesados)”, esclarece.
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“Caso alguém suspeite de uma doença alimentar, deve dirigir-se imediatamente ao Centro de Saúde da sua área de residência. A maioria destas doenças tem um tratamento simples e só os casos mais graves serão encaminhados para os hospitais”, adianta Sónia Mendes, acrescentando que em qualquer das situações “a hidratação também é fundamental para o sucesso na recuperação dos doentes”.
Prevenir antes de remediar
“Para evitar doenças de origem alimentar em casa, em primeiro lugar, é necessário adquirir alimentos e/ou água de fonte segura. Depois da compra, esses alimentos devem ser transportados em boas condições de higiene e a temperaturas adequadas”, aconselha a nutricionista. Mas, no caso dos congelados e refrigerados, a regra é adquiri-los sempre no final das compras, “utilizando bolsas térmicas para o transporte e demorando o mínimo de tempo possível nas deslocações”.
Em casa, os alimentos congelados trazidos do supermercado devem ser “imediatamente guardados no frio e só depois as mercearias”. Mas a regra número um passa, acima de tudo, por “manter a higiene de todos os locais, equipamentos e utensílios que contactam directa ou indirectamente com os alimentos”. Os alimentos de congelador devem ser, preferencialmente, “descongelados no frio”. Em caso de emergência, “os alimentos podem ser descongelados em água fria corrente, dentro de um saco plástico transparente”.
Se a refeição for feita fora de casa, “devem-se preferir locais que têm implementado o sistema preventivo de segurança alimentar (designado pela sigla inglesa HACCP), facilmente identificado pela sinalização colocada à entrada do estabelecimento”, indica. “Este sistema é obrigatório por lei em todas as instalações alimentares, desde um simples vendedor de cachorros quentes, até ao restaurante, passando por feiras, festivais, talhos, padarias e mercados.”
Quem viaja para o estrangeiro, também não se pode esquecer de algumas medidas de prevenção. Caso contrário, basta um simples alimento para “entornar o caldo”. “Caso tenha dúvidas acerca do local, lave bem as mãos antes de mexer em alimentos; não coma ovos e produtos derivados (maionese e outros molhos, produtos de pastelaria, pratos e sobremesas com ovos); evite consumir mariscos e crustáceos; opte por carnes e peixes bem passados; não coma saladas, mas sim vegetais cozidos e beba água fervida ou engarrafada. Prefira fruta e legumes inteiros, lave-os e retire-lhes a casca antes de os comer crus.”
Como conservar os alimentos?
Verão convida a passeio, a praia e a alguns piqueniques. Se está a preparar a lancheira, siga os conselhos de Sónia Mendes na conservação dos alimentos.
– Confeccionar os alimentos no próprio dia. Caso não seja possível, após a confecção, estes devem ser arrefecidos, recorrendo, por exemplo, à técnica de dividir em porções mais pequenas, ou usar água com gelo para arrefecer o(s) recipiente(s). Manter esses alimentos no frio até ao momento de partida;
– Para transportar os alimentos mais sensíveis de forma segura usar sacos térmicos, malas térmicas e termoacumuladores;
– Caso não tenha nenhum destes equipamentos, prefira alimentos que não se alterem com o calor: pão, bolachas, sumos de fruta, leite UHT, fruta inteira, enchidos curados (como chouriço, salpicão ou presunto) e tostas.
Jornal do Centro de Saúde
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