Dar mais vida à vida
Então, o que podemos e devemos fazer para que essa não seja uma etapa de sofrimento? “Não se deve olhar para a morte como um fracasso, como uma derrota, como uma batalha perdida. Os profissionais de saúde nesta área entendem que, apesar de ser difícil, têm a função de ajudar as pessoas a partirem com tranquilidade”, responde.
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Dois anos no terreno
A equipa da Unidade de Medicina Paliativa do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, composta por um núcleo de seis profissionais (e alguns colaboradores), prepara-se para assinalar o seu segundo aniversário. Desde Janeiro de 2007, a equipa tem-se esforçado para que a vida, em virtude de uma doença incurável, ganhe um novo significado.
“Estes doentes não deixam de ter expectativas e desejos. O trabalho técnico não consiste, exclusivamente, no alívio de sintomas. Frequentemente, há assuntos “pendurados” que incomodam e angustiam o doente. Sabemos que o sucesso terapêutico depende de uma intervenção mais alargada contemplando problemas de índole, psicológica e existencial”, diz a Dr.ª Filipa Tavares, médica da Unidade.
Ao longo destes dois anos, “várias centenas de doentes e famílias têm demonstrado que é possível manter ou redescobrir a esperança”, garante Amélia Matos, enfermeira chefe da Unidade. O trabalho destes profissionais consegue produzir resultados que, embora não sendo a cura, assentam na promoção de conforto e bem-estar. “Os nossos cuidados não têm como objectivo abreviar o tempo de vida, mas sim acompanhar o seu curso”, salienta a médica.
O conceito de “dignidade” tem um papel central na Medicina Paliativa. “A filosofia dos cuidados paliativos preconiza o respeito pelo doentes, que, enquanto pessoas, têm o direito de desfrutar daquilo que lhe é mais significativo, independentemente do tempo de vida restante.” E para que isso aconteça é preciso respeitar a sua “autonomia”, a sua “individualidade”, o seu “direito à informação e à tomada de decisão”.
Depois da morte, “as famílias que assim o desejam podem continuar a ser apoiadas na consulta de Acompanhamento no Luto”, explica a enfermeira. E acrescenta que, “em algumas circunstâncias, o processo de doença de um familiar ou amigo pode despertar uma necessidade de ajuda ao próximo”, havendo pessoas que, “mais tarde, encontram em programas de voluntariado uma forma de partilharem vivências e saberes adquiridos”.
Cuidados Paliativos em Portugal
Comparativamente com outros países, “Portugal está ao mesmo nível na área de cuidados paliativos”, diz Isabel Galriça. A única diferença permanece na disponibilidade de alguns fármacos para o tratamento da dor, como é o caso da metadona. “Mas do ponto de vista de preparação dos técnicos e de diferenciação estamos no mesmo patamar que a Espanha ou Canadá”. Sendo esta uma área que requer formação específica, a presidente da APCP (www.apcp.com.pt/) é da opinião de que ainda existem falta de profissionais em Portugal.
“O ministério comprometeu-se a criar mais unidades, mas o que se tem visto é que há unidades que se preparam para encerrar, o que não se coaduna com esta preocupação.” Para se inaugurarem mais unidades, Isabel Galriça reforça a necessidade de se prepararem mais profissionais nesta área, porque “o factor qualidade é de extrema importância”.

