Em casa os acidentes espreitam nas tarefas mais simples, como cozinhar. Cortes e queimaduras são comuns mas, quase sempre, pouco graves. É preciso é saber como tratá-los e, também, prevenir.
Uma panela com água a ferver que se derrama sobre a mão, uma faca que se escapa, um ferro de engomar que desliza ao encontro de um braço, um prego que se martela mais ao lado… são exemplos do quotidiano, exemplos de pequenos acidentes comuns no ambiente doméstico.
Quem paga é a pele. Sejam cortes ou queimaduras, enquadram-se todas na designação de feridas porque em comum têm o facto de serem lesões da pele. As mais superficiais ficam-se pela epiderme, pelo que são de menor gravidade. Já as mais profundas atingem a derme e, eventualmente, tendões, ligamentos ou músculos, sendo, portanto, mais graves.
Todas exigem cuidados adequados – com ou sem recurso médico em função da gravidade – e rápidos, de modo a minimizar a extensão dos danos e a promover uma recuperação sem marcas.
Queimaduras em graus
As queimaduras contam-se entre os acidentes mais comuns no ambiente doméstico. Líquidos quentes que se entornam, uma tomada eléctrica que faz faísca, um produto químico que entra em contacto com a pele… são tudo queimaduras. As mais frequentes são as térmicas, resultantes da acção do calor, mas as eléctricas e as químicas também acontecem.
Seja qual a for a causa, as queimaduras classificam-se por graus, do 1 ao 3, com gravidade crescente. As mais ligeiras são, pois, as de 1º grau e afectam apenas a epiderme, deixando-a quente e vermelha, com sensação de calor e dor. Geralmente, saram em três a seis dias. Já as de 2º grau são mais dolorosas porque atingem a derme, formando-se ainda bolhas com líquido, com a cicatrização a poder prolongar-se por três semanas. Quanto às de 3º grau, são as mais profundas, envolvendo destruição de tecidos e dos nervos: a pele ganha uma aparência esbranquiçada ou escura, sem dor. A recuperação é muito lenta, podendo ser necessária intervenção cirúrgica para substituição dos tecidos.
As que acontecem em casa quase sempre podem ser tratadas sem recurso à emergência médica. Com excepção das queimaduras eléctricas – os chamados “choques” -, pois podem afectar áreas não visíveis.
O primeiro cuidado deve ser aliviar a dor e arrefecer a pele, o que se consegue aplicando soro fisiológico ou, na sua falta, água fria corrente, durante 3 a 5 minutos. Se surgirem bolhas, utilizar o mesmo principio, podendo aplicar-se na zona lesionada uma solução anti-séptica (sem álcool), secando levemente com uma compressa esterilizada – o algodão não deve ser usado pois pode aderir à ferida. O que também não deve ser colocado sobre a queimadura é manteiga ou qualquer outra gordura, mas sim penso absorvente, a mudar com regularidade. Não se devem rebentar as bolhas e se elas rebentarem por si não se corta a pele, pois há o risco de infecção.
Nas queimaduras químicas, é também preciso lavar a pele com água corrente, excepto se o produto for em pó – é que a água pode facilitar a absorção do corrosivo, pelo que se deve limpar a ferida, removendo ao máximo os vestígios.
Se houver suspeita de ingestão, deve ligar-se para o Centro de Informação Anti-venenos (808 250 143).
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Feridas há muitas
Comuns no dia-a-dia são também as feridas. As mais superficiais são as feridas por abrasão (arranhões e esfoladelas), geralmente causadas pela fricção da pele sobre uma superfície rugosa e áspera, daí resultando uma escoriação acompanhada de uma ligeira e temporária hemorragia.
Já as lacerações, correspondentes a cortes, não se ficam pela superfície, atravessando as várias camadas da pele e podendo atingir a camada lipídica (de gordura) ou os tecidos mais profundos. Quase sempre ocorre hemorragia, moderada a severa.
Frequentes são também as puncturas – lesões na pele causadas por objectos pontiagudos como um alfinete ou um prego ou até a ponta de uma faca.
Destas picadas resulta uma ferida discreta, com hemorragia mínima ou até ausente. Qualquer um destes tipos de ferida se pode conjugar numa mordedura, humana ou animal. Podem ou não causar hemorragia, mas requerem cuidados particulares, dado o risco de infecção (afinal, envolvem o contacto com saliva).
Tipos à parte, há gestos básicos para que não deixem marcas e, sobretudo, para que não haja complicações. O primeiro deles passa por imobilizar a parte do corpo lesionada, após o que se limpa a ferida. De preferência com soro fisiológico ou, na sua ausência, água corrente: deve verificar-se se todos os detritos se libertam da pele, mas sem esfregar.
Se houver hemorragia, é preciso estancá-la, mas deixando sangrar um pouco (aliás, assim acontecerá mal a ferida seja colocada debaixo de água): é que a hemorragia é um bom ajudante de limpeza, já que o sangue arrasta consigo eventuais impurezas. Se a hemorragia persistir é necessário cobrir a ferida com uma compressa e exercer uma ligeira pressão, por uns dez minutos.
O passo seguinte é desinfectar, com uma solução dérmica própria, após o que se protege a ferida com um penso adequado. Este é um cuidado essencial: é que o penso desempenha múltiplas funções, todas elas importantes para uma cicatrização adequada – absorve os fluidos da ferida, protege-a do ambiente, nomeadamente de bactérias, e mantém-na hidratada. Além de que a resguarda de olhares alheios…
As feridas podem acontecer a qualquer momento, a qualquer um. Mas crianças e idosos são mais vulneráveis, as primeiras porque a sua pele é mais fina e tem menos defesas e os segundos porque a regeneração é mais lenta, além de poderem sofrer de doenças crónicas que interferem com a cicatrização. Por isso, o melhor é zelar para que a pele fique a salvo dos pequenos acidentes do quotidiano.
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Risco menor
É possível diminuir o risco de acidentes – logo de queimaduras e outras feridas – adoptando algumas precauções:
• Proteja lareiras e braseiras;
• Proteja tomadas eléctricas, sobretudo se houver crianças em casa;
• Mantenha fósforos e isqueiros fora de alcance das crianças;
• Guarde os detergentes e outros produtos químicos em locais inacessíveis à curiosidade infantil, se necessário fechados à chave;
• Mantenha as pegas dos tachos viradas para a parede quando cozinha;
• Não deixe a porta do forno aberta se este estiver ligado;
• Não se afaste demasiado da cozinha se tiver comer ao lume, pois pode entornar-se;
• Use luvas protectoras ou pegas quando retirar as refeições do fogão ou do forno;
• Não agarre em crianças e alimentos/bebidas quentes ao mesmo tempo;
• Verifique a temperatura da água antes de as crianças entrarem no banho;
• Verifique a temperatura do leite antes de o dar ao bebé;
• Explique às crianças que não devem mexer em objectos quentes nem brincar com o fogo.
FARMÁCIA SAÚDE – ANF
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