O dia 31 de Maio é dos não fumadores – 70 por cento dos portugueses. Um dia para lembrar os malefícios do tabaco e, sobretudo, para sublinhar que deixar de fumar é, cada vez mais, uma missão possível.
Os não fumadores constituem a grande maioria da população portuguesa. Não fumam mas isso não significa que não sejam vítimas do tabaco fumado por outros – são os fumadores passivos.
Em nome deles, o país possui uma legislação anti-tabágica mais restritiva, que limita os espaços com fumo. A eles se juntaram entretanto muitos outros portugueses que, à boleia dessas restrições, se decidiram por fumar o último cigarro. Muitos outros começaram a fumar menos.
São exemplos a provar que é possível perder um hábito que se transforma num vício e coloca a saúde em perigo. O primeiro cigarro é, quase sempre, fumado como um ritual de integração no grupo de pares. Por isso, se começa tantas vezes na adolescência.
Experimenta-se porque os outros já fumam, experimenta-se porque não se quer ficar de fora. E depois ganha-se-lhe o gosto. Depois encontram-se mil e um pretextos. Desde manter as mãos ocupadas, a controlar a ansiedade. Até que já não são precisas razões: fuma-se porque sim!
E quando se fuma assim o corpo sente a falta do tabaco. E se reclama é sinal de que a dependência já se instalou. Tudo por culpa da nicotina, uma droga psicoactiva presente na folha do tabaco. Quando se inala, o alcatrão do fumo do tabaco transporta a nicotina até ao pulmão, onde é libertada no fluxo sanguíneo. E como qualquer outra droga, cria habituação – o organismo vai-se habituando e reage quando sente a falta.
Emergem então sintomas como o nervosismo, a ansiedade, irritabilidade, dificuldade de concentração e insónias. Os pensamentos fixam-se no tabaco e cresce uma certa obsessão, que leva o fumador a desenvolver todos os esforços para conseguir um cigarro. Um bom exemplo é a ansiedade gerada quando, em casa, já de noite, se descobre um último cigarro no maço: pode até nem se fumar mais, mas torna-se imperativo sair e comprar outro maço.
A nicotina não é a única má da fita: o fumo do tabaco contém mais de quatro mil compostos químicos, dos quais mais de 40 são reconhecidos como carcinogénios. Sem falar nas outras substâncias que são também inaladas e queimadas e cujas consequências para a saúde são ainda mal conhecidas.
Comprovada cientificamente está a associação entre o consumo do tabaco e uma maior probabilidade de se contraírem doenças, com destaque para o cancro e as patologias do foro circulatório e respiratório. Sabe-se que estão relacionados com o tabaco um terço de todos os casos de cancro, 90% dos cancros do pulmão, cancros do aparelho respiratório superior (lábio, língua, boca, faringe e laringe), cancro da bexiga, rim, colo do útero, esófago, estômago e pâncreas, doença isquémica cardíaca e doença pulmonar obstrutiva crónica.
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Pulmões sofrem!
São sobretudo duas as doenças em que o tabaco é o principal suspeito: o cancro do pulmão e a Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica. É silenciosamente que o cancro do pulmão se instala. A primeira denúncia de que algo vai mal é uma tosse persistente, a que os fumadores se habituam, continuando a fumar. Quando se começam a assustar é quase sempre quando a tosse é acompanhada de expectoração e, um dia, nela descobrem laivos de sangue.
O mais provável é nessa altura já exibirem outros sintomas: dificuldade em respirar, cansaço fácil, falta de apetite, dores inesperadas mas persistentes no tórax. O diagnóstico precoce do cancro do pulmão é muito difícil, quer porque os sintomas se assemelham aos de outras doenças do fumador, quer porque o próprio doente raramente procura o médico aos primeiros sinais de alarme.
Numa radiografia ao tórax, uma simples sombra, sem contornos definidos, pode ser o primeiro indício. Porém, a verdade é que para que um tumor seja visível num raio-X é preciso que tenha mais de um centímetro de diâmetro. Ora isso significa que a célula original que degenerou já se multiplicou 36 vezes, o mesmo é dizer que a doença se encontra já numa fase adiantada.
A radiografia é, regra geral, o primeiro dos meios de diagnóstico, mas não fornece provas seguras da existência de cancro, pelo que deve ser complementada com outros exames.
Os passos seguintes consistem numa citologia da expectoração (análise microscópica de uma amostra) e numa broncoscopia (através de um tubo de fibra óptica é possível visualizar internamente a árvore traqueo-brônquica). Uma biopsia (exame de uma amostra de tecido) permitirá confirmar o diagnóstico e identificar o tipo de cancro de acordo com as características das suas células.
Finalmente, uma TAC (tomografia axial computorizada) possibilita a avaliação da dimensão do tumor e da eventual extensão a áreas adjacentes aos pulmões.
Para muitos doentes, o diagnóstico chega tarde demais. De tal forma que só em 10% dos casos é possível a cura, o mesmo é dizer que apenas um em cada dez doentes estará vivo ao fim de cinco anos. Para esta baixa taxa de sucesso em muito contribuem as recidivas: há muitos indivíduos que continuam a fumar mesmo após a intervenção terapêutica.
Num em cada cinco doentes, a cirurgia é possível. Antes da decisão, o médico avalia a função respiratória do doente, de modo a determinar se o pulmão remanescente tem ou não capacidade suficiente para assegurar a autonomia do sistema. Porém, nem sempre é necessário extirpar a totalidade do pulmão, podendo remover-se apenas uma parte, isto é, um lobo pulmonar.
Aos doentes que não podem ser operados é possível aplicar tratamentos de radioterapia, tendo como objectivo retardar a evolução do tumor. A cura já não é a meta, além de que esta terapia pode ter como efeitos secundários uma inflamação do pulmão. Tosse, dificuldades respiratórias e febre são os sinais de alerta.
Quanto à quimioterapia, é uma opção terapêutica geralmente aplicada no chamado cancro de células pequenas – de evolução muito rápida e propagação fácil a outras partes do corpo (metástases). Por vezes combinada com radioterapia, tem o mérito de prolongar a vida a uma percentagem considerável de doentes.
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Respirar é difícil
A chamada tosse do fumador é também um dos sintomas iniciais da Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica (DPOC). Faz-se sentir logo pela manhã, ao acordar, com frequência acompanhada de expectoração num corpo que não consegue vencer o cansaço, por mais que repouse.
Muitas vezes confundida com a asma, esta doença nada tem a ver com alergias, decorre de uma exposição prolongada a poluentes, sobretudo ao tabaco. As vias respiratórias vão sendo obstruídas, a respiração torna-se uma canseira. A situação tué progressiva e agrava-se ao longo da vida. As crises respiratórias sucedem-se e cada vez são mais sérias.
Outra característica que a distingue da asma é o facto de ser mais frequente com a idade: até aos 40 anos é raramente identificada, mais tarde é que a causa daquele cansaço e daquela tosse vem ao de cima. Para este diagnóstico é fundamental uma prova de função respiratória, pela qual se avalia a capacidade respiratória do doente e a facilidade com que expele o ar. O que se verifica é que nas pessoas afectadas o ar entra melhor no peito do que sai, o que significa que há pouca capacidade de renovação.
Depois de diagnosticada, segue-se o tratamento. Com medicamentos, que atenuam os sintomas e melhoram a capacidade respiratória. Mantêm a doença sob controlo, mas não a curam. Em situações agudas, a invalidez e a morte podem ser o desfecho de uma patologia menos conhecida e temida do que o cancro do pulmão mas igualmente perigosa.
Em comum, as duas patologias têm o facto de serem quase sempre detectadas tardiamente e de terem como causa quase exclusiva o tabaco. Perante isso, o que fazer? Como prevenir? Deixando de fumar!
O último cigarro
Deixar de fumar é possível. E, à excepção dos que assumem gostar mesmo de fumar, o mais provável é que quase todos os fumadores já tenham manifestado, pelo menos uma vez na vida, o desejo de deixar esta dependência. Muitos tentam, mas ficam pelo caminho. Mas há cada vez mais exemplos de sucesso.
A verdade é que é preciso muita determinação para abandonar o hábito/vício. O próprio organismo se vira contra a pessoa, porque reage mal à ausência da nicotina. É a chamada síndrome da abstinência – insónias, irritabilidade, ansiedade, dificuldade de concentração e instabilidade emocional são sintomas da privação. E parece que o desejo de fumar é ainda maior: dura “apenas” três a cinco minutos, mas é o suficiente para desesperar ou… acender um cigarro.
O desconforto é grande: o corpo continua a emitir sinais – tonturas e dores de cabeça, garganta dorida e boca seca, acessos de tosse, dores musculares e nas articulações. É assim que o organismo se vai adaptando. A começar pelo cérebro, que se vê sobrecarregado de oxigénio, enquanto os pulmões são sujeitos a um processo de limpeza exteriorizado em acessos de tosse sem qualquer outra razão.
E porque a síndrome de abstinência é dolorosa um dos métodos para deixar de fumar consiste em fornecer ao organismo a nicotina de que foi privado. É a chamada terapia da reposição de nicotina, uma terapia de transição que alivia o desejo agudo de fumar e os sintomas da privação mas não tem o inconveniente dos efeitos tóxicos do tabaco.
Só a força de vontade pode não ser suficiente para deixar de fumar. Há medicamentos que complementam essa determinação. Estão disponíveis sob a forma de adesivos, pastilhas, inalantes e spray nasal, sendo que algumas destas apresentações podem ser adquiridas na farmácia, sem necessidade de receita médica.
A cessação tabágica é, aliás, um dos domínios da intervenção farmacêutica, pelo que pode contar com o aconselhamento profissional do seu farmacêutico para levar avante a sua intenção de deixar o fumo longe dos seus pulmões.
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Menos tabaco
O ano de 2008 foi um ano de mudança – legislativa e de comportamentos – relativamente ao consumo de tabaco em Portugal. Foi o primeiro ano da chamada “lei do tabaco”, ao abrigo da qual passou a ser proibido fumar nos espaços públicos, locais de trabalho, unidades de saúde, estabelecimentos de ensino e locais como museus, centros comerciais, aeroportos e meios de transporte. Os estabelecimentos de restauração são os únicos com tolerância, uma vez que foram abertas excepções.
E ao fim de um ano cinco por cento dos fumadores deixaram de fumar, além de que outros 28 por cento alteraram os seus hábitos tabágicos, fumando, em média, menos nove cigarros por dia. O balanço é do estudo “Impacto da Lei de Prevenção do Tabagismo, divulgado pela Direcção-Geral de Saúde.
Segundo o estudo, além de menos fumadores, houve menos venda de tabaco – nos primeiros dez meses de 2008 registou-se uma queda de 13,5 por cento face ao mesmo período de 2007.
Os não fumadores constituem a grande maioria da população portuguesa. Não fumam mas isso não significa que não sejam vítimas do tabaco fumado por outros – são os fumadores passivos.
Em nome deles, o país possui uma legislação anti-tabágica mais restritiva, que limita os espaços com fumo. A eles se juntaram entretanto muitos outros portugueses que, à boleia dessas restrições, se decidiram por fumar o último cigarro. Muitos outros começaram a fumar menos.
São exemplos a provar que é possível perder um hábito que se transforma num vício e coloca a saúde em perigo. O primeiro cigarro é, quase sempre, fumado como um ritual de integração no grupo de pares. Por isso, se começa tantas vezes na adolescência.
Experimenta-se porque os outros já fumam, experimenta-se porque não se quer ficar de fora. E depois ganha-se-lhe o gosto. Depois encontram-se mil e um pretextos. Desde manter as mãos ocupadas, a controlar a ansiedade. Até que já não são precisas razões: fuma-se porque sim!
E quando se fuma assim o corpo sente a falta do tabaco. E se reclama é sinal de que a dependência já se instalou. Tudo por culpa da nicotina, uma droga psicoactiva presente na folha do tabaco. Quando se inala, o alcatrão do fumo do tabaco transporta a nicotina até ao pulmão, onde é libertada no fluxo sanguíneo. E como qualquer outra droga, cria habituação – o organismo vai-se habituando e reage quando sente a falta.
Emergem então sintomas como o nervosismo, a ansiedade, irritabilidade, dificuldade de concentração e insónias. Os pensamentos fixam-se no tabaco e cresce uma certa obsessão, que leva o fumador a desenvolver todos os esforços para conseguir um cigarro. Um bom exemplo é a ansiedade gerada quando, em casa, já de noite, se descobre um último cigarro no maço: pode até nem se fumar mais, mas torna-se imperativo sair e comprar outro maço.
A nicotina não é a única má da fita: o fumo do tabaco contém mais de quatro mil compostos químicos, dos quais mais de 40 são reconhecidos como carcinogénios. Sem falar nas outras substâncias que são também inaladas e queimadas e cujas consequências para a saúde são ainda mal conhecidas.
Comprovada cientificamente está a associação entre o consumo do tabaco e uma maior probabilidade de se contraírem doenças, com destaque para o cancro e as patologias do foro circulatório e respiratório. Sabe-se que estão relacionados com o tabaco um terço de todos os casos de cancro, 90% dos cancros do pulmão, cancros do aparelho respiratório superior (lábio, língua, boca, faringe e laringe), cancro da bexiga, rim, colo do útero, esófago, estômago e pâncreas, doença isquémica cardíaca e doença pulmonar obstrutiva crónica.
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Pulmões sofrem!
São sobretudo duas as doenças em que o tabaco é o principal suspeito: o cancro do pulmão e a Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica. É silenciosamente que o cancro do pulmão se instala. A primeira denúncia de que algo vai mal é uma tosse persistente, a que os fumadores se habituam, continuando a fumar. Quando se começam a assustar é quase sempre quando a tosse é acompanhada de expectoração e, um dia, nela descobrem laivos de sangue.
O mais provável é nessa altura já exibirem outros sintomas: dificuldade em respirar, cansaço fácil, falta de apetite, dores inesperadas mas persistentes no tórax. O diagnóstico precoce do cancro do pulmão é muito difícil, quer porque os sintomas se assemelham aos de outras doenças do fumador, quer porque o próprio doente raramente procura o médico aos primeiros sinais de alarme.
Numa radiografia ao tórax, uma simples sombra, sem contornos definidos, pode ser o primeiro indício. Porém, a verdade é que para que um tumor seja visível num raio-X é preciso que tenha mais de um centímetro de diâmetro. Ora isso significa que a célula original que degenerou já se multiplicou 36 vezes, o mesmo é dizer que a doença se encontra já numa fase adiantada.
A radiografia é, regra geral, o primeiro dos meios de diagnóstico, mas não fornece provas seguras da existência de cancro, pelo que deve ser complementada com outros exames.
Os passos seguintes consistem numa citologia da expectoração (análise microscópica de uma amostra) e numa broncoscopia (através de um tubo de fibra óptica é possível visualizar internamente a árvore traqueo-brônquica). Uma biopsia (exame de uma amostra de tecido) permitirá confirmar o diagnóstico e identificar o tipo de cancro de acordo com as características das suas células.
Finalmente, uma TAC (tomografia axial computorizada) possibilita a avaliação da dimensão do tumor e da eventual extensão a áreas adjacentes aos pulmões.
Para muitos doentes, o diagnóstico chega tarde demais. De tal forma que só em 10% dos casos é possível a cura, o mesmo é dizer que apenas um em cada dez doentes estará vivo ao fim de cinco anos. Para esta baixa taxa de sucesso em muito contribuem as recidivas: há muitos indivíduos que continuam a fumar mesmo após a intervenção terapêutica.
Num em cada cinco doentes, a cirurgia é possível. Antes da decisão, o médico avalia a função respiratória do doente, de modo a determinar se o pulmão remanescente tem ou não capacidade suficiente para assegurar a autonomia do sistema. Porém, nem sempre é necessário extirpar a totalidade do pulmão, podendo remover-se apenas uma parte, isto é, um lobo pulmonar.
Aos doentes que não podem ser operados é possível aplicar tratamentos de radioterapia, tendo como objectivo retardar a evolução do tumor. A cura já não é a meta, além de que esta terapia pode ter como efeitos secundários uma inflamação do pulmão. Tosse, dificuldades respiratórias e febre são os sinais de alerta.
Quanto à quimioterapia, é uma opção terapêutica geralmente aplicada no chamado cancro de células pequenas – de evolução muito rápida e propagação fácil a outras partes do corpo (metástases). Por vezes combinada com radioterapia, tem o mérito de prolongar a vida a uma percentagem considerável de doentes.
[Continua na página seguinte]
Respirar é difícil
A chamada tosse do fumador é também um dos sintomas iniciais da Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica (DPOC). Faz-se sentir logo pela manhã, ao acordar, com frequência acompanhada de expectoração num corpo que não consegue vencer o cansaço, por mais que repouse.
Muitas vezes confundida com a asma, esta doença nada tem a ver com alergias, decorre de uma exposição prolongada a poluentes, sobretudo ao tabaco. As vias respiratórias vão sendo obstruídas, a respiração torna-se uma canseira. A situação tué progressiva e agrava-se ao longo da vida. As crises respiratórias sucedem-se e cada vez são mais sérias.
Outra característica que a distingue da asma é o facto de ser mais frequente com a idade: até aos 40 anos é raramente identificada, mais tarde é que a causa daquele cansaço e daquela tosse vem ao de cima. Para este diagnóstico é fundamental uma prova de função respiratória, pela qual se avalia a capacidade respiratória do doente e a facilidade com que expele o ar. O que se verifica é que nas pessoas afectadas o ar entra melhor no peito do que sai, o que significa que há pouca capacidade de renovação.
Depois de diagnosticada, segue-se o tratamento. Com medicamentos, que atenuam os sintomas e melhoram a capacidade respiratória. Mantêm a doença sob controlo, mas não a curam. Em situações agudas, a invalidez e a morte podem ser o desfecho de uma patologia menos conhecida e temida do que o cancro do pulmão mas igualmente perigosa.
Em comum, as duas patologias têm o facto de serem quase sempre detectadas tardiamente e de terem como causa quase exclusiva o tabaco. Perante isso, o que fazer? Como prevenir? Deixando de fumar!
O último cigarro
Deixar de fumar é possível. E, à excepção dos que assumem gostar mesmo de fumar, o mais provável é que quase todos os fumadores já tenham manifestado, pelo menos uma vez na vida, o desejo de deixar esta dependência. Muitos tentam, mas ficam pelo caminho. Mas há cada vez mais exemplos de sucesso.
A verdade é que é preciso muita determinação para abandonar o hábito/vício. O próprio organismo se vira contra a pessoa, porque reage mal à ausência da nicotina. É a chamada síndrome da abstinência – insónias, irritabilidade, ansiedade, dificuldade de concentração e instabilidade emocional são sintomas da privação. E parece que o desejo de fumar é ainda maior: dura “apenas” três a cinco minutos, mas é o suficiente para desesperar ou… acender um cigarro.
O desconforto é grande: o corpo continua a emitir sinais – tonturas e dores de cabeça, garganta dorida e boca seca, acessos de tosse, dores musculares e nas articulações. É assim que o organismo se vai adaptando. A começar pelo cérebro, que se vê sobrecarregado de oxigénio, enquanto os pulmões são sujeitos a um processo de limpeza exteriorizado em acessos de tosse sem qualquer outra razão.
E porque a síndrome de abstinência é dolorosa um dos métodos para deixar de fumar consiste em fornecer ao organismo a nicotina de que foi privado. É a chamada terapia da reposição de nicotina, uma terapia de transição que alivia o desejo agudo de fumar e os sintomas da privação mas não tem o inconveniente dos efeitos tóxicos do tabaco.
Só a força de vontade pode não ser suficiente para deixar de fumar. Há medicamentos que complementam essa determinação. Estão disponíveis sob a forma de adesivos, pastilhas, inalantes e spray nasal, sendo que algumas destas apresentações podem ser adquiridas na farmácia, sem necessidade de receita médica.
A cessação tabágica é, aliás, um dos domínios da intervenção farmacêutica, pelo que pode contar com o aconselhamento profissional do seu farmacêutico para levar avante a sua intenção de deixar o fumo longe dos seus pulmões.
[Continua na página seguinte]
Menos tabaco
O ano de 2008 foi um ano de mudança – legislativa e de comportamentos – relativamente ao consumo de tabaco em Portugal. Foi o primeiro ano da chamada “lei do tabaco”, ao abrigo da qual passou a ser proibido fumar nos espaços públicos, locais de trabalho, unidades de saúde, estabelecimentos de ensino e locais como museus, centros comerciais, aeroportos e meios de transporte. Os estabelecimentos de restauração são os únicos com tolerância, uma vez que foram abertas excepções.
E ao fim de um ano cinco por cento dos fumadores deixaram de fumar, além de que outros 28 por cento alteraram os seus hábitos tabágicos, fumando, em média, menos nove cigarros por dia. O balanço é do estudo “Impacto da Lei de Prevenção do Tabagismo, divulgado pela Direcção-Geral de Saúde.
Segundo o estudo, além de menos fumadores, houve menos venda de tabaco – nos primeiros dez meses de 2008 registou-se uma queda de 13,5 por cento face ao mesmo período de 2007.