A mente pode prejudicar ou ajudar muito a vida sexual
Desempenho condicionado As crenças sexuais, entendidas como ideias preconcebidas que se tem em relação à sexualidade, condicionam muito o desempenho. Relativamente às mulheres, os resultados indicaram que estas apresentam mais crenças relacionadas com o papel da idade no funcionamento sexual e pensam coisas como: «Após a menopausa a mulher deixa de sentir desejo sexual»; «Com a idade a mulher perde o prazer pelo sexo».
A importância da imagem corporal e da beleza física também geram um conjunto de crenças sexuais: «Mulheres fisicamente pouco atraentes não conseguem ser sexualmente felizes.»
E, ainda que em menor grau, surgem crenças sexuais conservadoras: «A masturbação é errada e pecaminosa»; «O sexo oral é uma das maiores perversões»; e crenças na actividade sexual como pecado: «O sexo é sujo e pecaminoso», «Ter prazer numa relação sexual não é próprio de uma mulher de bem», etc.
«No mesmo sentido dos resultados masculinos, estes dados explicam a maior vulnerabilidade das mulheres com este tipo de crenças para o desenvolvimento de dificuldades de funcionamento sexual», analisa o especialista.
Uma outra questão relevante refere-se aos factores que promovem a manutenção das dificuldades sexuais. «A nossa hipótese é a de que, uma vez activados esquemas negativos de cariz pessoal face a uma situação de insucesso sexual, os homens e as mulheres tendem a enfrentar futuras situações de cariz sexual de uma forma mais negativa», prevê o psicólogo.
Por outras palavras, perante futuras situações sexuais, os sujeitos disfuncionais apresentam significativamente mais pensamentos automáticos e emoções negativas e menos pensamentos eróticos e emoções positivas, imagine-se…
As mulheres sexualmente disfuncionais apresentam também mais pensamentos de fracasso e desistência como os seguintes: «Não estou a satisfazer o meu parceiro»; «Não estou a conseguir»; «Quando é que isto acaba?»
Ou apresentam, ainda, pensamentos de abuso sexual: «Isto é nojento e repugnante»; «A única coisa que ele quer é satisfazer-se» e escassez de pensamentos eróticos no decorrer da actividade sexual. «Estes pensamentos automáticos estão, por sua vez, associados a respostas emocionais de tristeza, desilusão, culpa e irritação, bem como a escassez de emoções de prazer ou satisfação», justifica o sexólogo.
No mesmo sentido, os homens disfuncionais apresentam mais pensamentos relacionados com a erecção e a penetração sexual do que os homens considerados normais.
Não raramente pensam em coisas como: «Tenho de conseguir a penetração»; «Não posso falhar a erecção»; «Porque é que isto não está a funcionar?», bem como pensamentos de antecipação de fracasso e as suas consequências: «Isto já não vai a lado nenhum»; «Estou condenado ao fracasso»; «Ela ainda me troca por outro», associando uma escassez de pensamentos eróticos.
«Mais uma vez, as respostas emocionais características deste grupo clínico são a tristeza, a desilusão e a escassez de prazer e satisfação», admite Pedro Nobre.
É importante realçar que, no género masculino e feminino, as emoções relacionadas com o afecto deprimido superam a influência de emoções associadas à ansiedade na determinação da resposta sexual disfuncional.
Mulher feia não satisfaz?
Quanto às disfunções sexuais femininas, parece existir alguma continuidade entre as perturbações do desejo e da excitação sexual, essencialmente caracterizadas por crenças no pólo do conservadorismo e ideia de pecado, facto que as distingue das restantes disfunções.
Por seu turno, «as perturbações do orgasmo parecem estar associadas a um conjunto de crenças relacionadas com a centralidade da imagem corporal na actividade sexual».
Algumas mulheres pensam que se são fisicamente pouco atraentes não conseguem ser sexualmente felizes – «Uma mulher feia não consegue satisfazer sexualmente o companheiro» –; facto que é complementado por uma frequência elevada de pensamentos de baixa auto-imagem corporal no decorrer da actividade sexual.
Já o vaginismo «mostra-se fortemente associado a respostas emocionais de medo perante situações de cariz sexual, fenómeno que parece explicar a forte resposta comportamental de evitamento que distingue esta patologia», explicita o psicólogo.
No que se refere às disfunções sexuais masculinas, parece existir alguma continuidade entre a disfunção eréctil e a perturbação do orgasmo, ambas caracterizadas pela prevalência do esquema de incompetência pessoal e pelo foco da atenção na resposta eréctil e escassez de pensamentos eróticos no decorrer da actividade sexual.
«A ejaculação prematura, por sua vez, distingue-se destas pela predominância de pensamentos de antecipação de fracasso e de respostas emocionais de medo durante a actividade sexual», diz Pedro Nobre.
Sabe-se já que a falta de afectos positivos produz um efeito inibidor sobre a resposta sexual, diminuindo o desejo e dificultando a resposta de excitação no homem (erecção) e na mulher (lubrificação), mostrando a influência da mente e de algumas emoções na sexualidade.
A análise e estudo destas temáticas relacionadas com aspectos cognitivos que interagem nos processos sexuais «devem contribuir para um reconhecimento crescente da importância de variáveis psicológicas na determinação do funcionamento sexual e para o consequente recrudescimento de intervenções terapêuticas orientadas para a identificação, compreensão e modificação das dimensões cognitivo-emocionais implicadas nas disfunções sexuais», salienta Pedro Nobre.
Conclui-se, então, que é importante trabalhar as crenças sexuais individuais como factor de prevenção, dar a devida importância à integração mais consistente de estratégias de reestruturação cognitiva nos protocolos de terapia sexual; inclusive valorizando devidamente as estratégias de refocagem da atenção e também a importância das emoções.

