A litíase vesicular: uma doença frequente no Mundo Ocidental
A vesícula biliar é um órgão oco de formato semelhante a um ovo alongado. Localiza-se na face inferior do fígado e serve para armazenar e concentrar a bílis produzida nesta glândula e para a enviar para o intestino no período de digestão dos alimentos. A litíase da vesícula consiste na presença de um ou vários cálculos (vuigo “pedras”) dentro da mesma.
O advento da ecografia (figura 1), um método de diagnóstico fácil e inócuo permitiu saber que cerca de 10% dos adultos no Mundo Ocidental sofre desta doença e que as mulheres a contraem cerca de duas vezes mais frequentemente que os homens.
No entanto, e felizmente, a maioria dos doentes com cálculos na vesícula biliar não tem queixas. Com efeito, os estudos de rastreio ecográfico mostraram que apenas cerca de 20% dos doentes com litíase vesicular têm sintomas, e dos que nunca tiveram sintomas, só 15 a 25% virão a ter cólicas biliares ou complicações nos 10 a 15 anos subsequentes.
Esta ausência de queixas na evolução da maioria dos doentes levou a que a
tendência actual seja a de não recomendar tratamentos agressivos a pessoas com litíase vesicular que não tenham sintomas. Pelo contrário, os doentes com sintomas (a cólica biliar) ou com complicações (colecistite aguda, pancreatite aguda ou icterícia obstrutiva) têm absoluta necessidade de ser tratados activamente.
A cólica biliar é uma dor moderada a intensa que se sente no abdómen superior do lado direito, ao nível do fígado, ou mesmo no centro, sobre o estômago. Dura habitualmente entre meia hora a cinco horas e pode precisar de analgésicos injectáveis nos casos mais intensos.
É muitas vezes recorrente. As complicações dos cálculos vesiculares, a colecistite aguda, a pancreatite aguda e a icterícia obstrutiva, são felizmente menos frequentes mas são potencialmente graves e necessitam de tratamento urgente em internamento hospitalar.
O tratamento actual de eleição para a grande maioria dos casos de Litíase vesicular é a chamada colecistectomia laparoscópica. Esta consiste em remover a vesícula por meio de algumas pequenas incisões no abdómen. Necessita de anestesia geral mas o doente tem alta um ou dois dias depois e as cicatrizes que deixa são quase imperceptíveis.
Quando por motivos técnicos não se consegue remover a vesícula por este método recorre-se ao método clássico ou “aberto” deixando este a habitual cicatriz linear no abdómen superior, ao nível do fígado.
A vantagem de remover a vesícula consiste em retirar os cálcuios causadores dos problemas juntamente com o órgão onde se formam, impossibilitando a recidiva. Para a grande maioria dos doentes a falta da vesícula biliar não interfere significativamente com a sua qualidade de vida.
Existem ainda outros dois tipos de tratamento da litíase vesicular (dissolução oral e litotrícia extra-corporal) mas são aplicáveis apenas a uma minoria de doentes. É necessário que não tenha havido complicações da litíase, que a vesícula ainda funcione e que os cálculos não sejam muito numerosos e/ou volumosos nem calcificados.
A chamada dissolução oral, com toma diária de ácido ursodesoxicóiico (cápsulas) por seis meses a dois anos faz desaparecer a litíase de até 60% dos doentes com cálculos pequenos (< 6 mm) e de composição rica em colesterol.Quando os cálculos são maiores pode haver recurso à litotrícia extra-corpora! por ondas de choque para os fragmentar e permitir a sua mais rápida e eficaz dissolução com o referido medicamento orai. A combinação da litotrícia com a dissolução oral consegue eliminar os cálculos vesiculares em até 80% de casos seleccionados.A Istotrícia vesicular é um tratamento que não necessita de internamento e é habitualmente feito de uma a três sessões mas está disponível em muito poucos hospitais em parte devido ao custo eievado do equipamento.Uma desvantagem, comum à litotrícia e à dissolução oral, é a de que, como não removem a vesícula, voltam a formar-se cálcuios neste órgão em cerca de metade dos doentes em até cinco a dez anos.Em resumo, a litíase vesicular é uma doença frequente e com um diagnóstico muito fácil pela ecografia. As possibilidades terapêuticas actuais, com destaque para a colecistectomia laparoscópica, tornaram o tratamento desta doença, quando necessário, muito mais tolerável do que há apenas 15 anos atrás.Luís Carrilho RibeiroProfessor da Faculdade de Medicina de Lisboa Presidente do Grupo Português de Ultra-sons em Gastrenterologia Lisboa, Outubro 2003

