Pegar numa flor e levá-la ao nariz constitui, para a generalidade das pessoas, um movimento irreflectido e de prazer. Porém, nem todos conseguem sentir o seu cheiro. Conhecida por anosmia, a perda total do olfacto é um problema que surge com a idade, mas há doenças que podem provocá-la.
Estamos permanentemente a testar a qualidade do ar que respiramos, a «recolher» avisos dos ambientes que nos circundam e até mesmo a reconhecer pessoas pelo cheiro, como é o caso das mães com os seus bebés. Para tal usamos e abusamos do nariz e da boca para captarmos a essência das coisas.
Reconhecido como um sentido muito rico, dado existirem estreitas relações entre as áreas olfactivas e as áreas da memória, da libido e de outras emoções, o sistema olfactivo consiste num prolongamento do sistema nervoso que começa no nariz, onde estão os receptores, e que termina no cérebro, onde é feita a interpretação ou tradução de sinais eléctricos para a sensação de cheiro.
O processo de captação e identificação dos odores começa no momento da inspiração. Com as partículas odoríferas em suspensão no ar, estas são captadas pelo nariz, que as encaminha para os múltiplos receptores do olfacto. A conjugação dessas partículas com as células olfactivas dá origem a um estímulo que é conduzido ao cérebro para ser decifrado.
No caso do sabor dos alimentos, o processo é idêntico, porém, tudo se passa na boca. Aqui, o paladar é dado pela acção das células gustativas, que reagem com o que comemos e bebemos, encaminhando, de seguida, a informação para o cérebro através de fibras nervosas.
Anosmia da idade
Numa situação normal, seja homem ou mulher, o mais provável é que com o decorrer dos anos comece a sentir que já não consegue ter o cheiro ou o paladar tão apurados. Como em qualquer parte do corpo, algumas células nervosas começam a desaparecer, assim como os receptores odoríferos que deixam de responder com a eficácia de outros tempos, dando origem a um processo de hiposmia, ou seja, a diminuição lenta e progressiva do cheiro, que culmina com a sua perda total.
No caso dos homens, os estudos indicam que essa perda gradual pode começar por volta dos 35 anos, enquanto que nas mulheres a média de idade ronda os 40 anos. Contudo, é importante referir que estas alterações são, inicialmente, imperceptíveis e só com a realização de testes padronizados e complexos são possíveis de detectar. Em ambos os sexos, a situação começa a acentuar-se por volta dos 70 anos, sendo que 50% da população com mais de 80 anos sofre de anosmia.
Provocada por uma evolução dita normal, no caso dos idosos, o Dr. Alberto Santos, Assistente Hospitalar do Hospital de Santa Maria e assistente de Biologia Celular da Faculdade de Ciências Médicas, explica que é essencial garantir que os idosos tenham uma boa higiene nasal e bocal, uma vez que, «como o paladar não se perde tão depressa, só assim é possível garantir que os idosos não perdem o prazer de comer, preservando o apetite».
Atenção redobrada
São raros os casos clínicos de pessoas que nascem sem olfacto. Daí que, como esclarece o especialista do Hospital de Santa Maria, «não é fácil fazer um diagnóstico exacto do problema». O motivo é simples, «a via olfactiva é extensa e complexa, podendo a malformação congénita verificar-se a vários níveis, mesmo a nível celular», explica.
Amélia Moreira, 52 anos, não se lembra de algum dia ter tido olfacto. A única lembrança que tem de «cheirar» foi-lhe concedida através de um livro, O Perfume, de Patrick Süskind. Porém, no seu dia-a-dia, não são os livros que a ajudam a identificar os líquidos com que trabalha.
«Distingo o álcool, o éter e a água oxigenada pelo tacto», explica a técnica de Radiologia. As certezas são dadas pelos doentes: «Costumo dizer qual é o líquido e os doentes confirmam dizendo que sim, pois cheira». Sujeita a uma intervenção cirúrgica para raspar uns pólipos que obstruíam a cavidade que faz a ligação entre a boca e o nariz, nem assim conseguiu recuperar o olfacto.
Alberto Santos avalia que o tratamento não resulta em todos os casos porque «tudo depende da causa e do tempo que o sistema esteve sem funcionar». De qualquer forma, o clínico elucida que é essencial fazer uma avaliação completa de cada caso, sendo a história clínica do doente essencial para se poderem definir os exames complementares de diagnóstico a realizar.
«Antes de mais, temos de observar o nariz. Se a pessoa estiver constipada, é natural que os receptores, que se encontram no seu interior, fiquem escondidos, não conseguindo entrar em contacto com as partículas odoríferas, daí não sentirem o cheiro. Pode ainda dar-se o caso de o doente sofrer de uma rinite crónica e/ou a existência de pólipos que escondem os receptores. Neste caso, há que tratar a rinite de forma a que os receptores voltem a ficar expostos».
Diagnóstico reservado
De uma forma geral, a hiposmia e a anosmia são sintomas de doenças como a rinite, os pólipos nasais, ou até mesmo a consequência de uma virose, de um traumatismo craniano ou facial.
Para o médico, nem sempre é fácil identificar a causa exacta da anosmia, daí que, excluídas as hipóteses mais comuns, o passo seguinte consista em despistar doenças graves, como tumores cerebrais ou doenças degenerativas. Nestes casos, mais uma vez, conhecer a história clínica dos doentes é essencial.
«É despropositado e perigoso falar a um leigo que a perda de olfacto pode levar a um diagnóstico de tumor, da doença de Alzheimer ou Parkinson, pois estes casos são muito raros, sendo ainda mais raro que a perda de olfacto se apresente como o primeiro sintoma deste tipo de doenças. Por outro lado, e devido à sua gravidade, estas causas são sempre excluídas durante a investigação clínica», remata o clínico.
Estamos permanentemente a testar a qualidade do ar que respiramos, a «recolher» avisos dos ambientes que nos circundam e até mesmo a reconhecer pessoas pelo cheiro, como é o caso das mães com os seus bebés. Para tal usamos e abusamos do nariz e da boca para captarmos a essência das coisas.
Reconhecido como um sentido muito rico, dado existirem estreitas relações entre as áreas olfactivas e as áreas da memória, da libido e de outras emoções, o sistema olfactivo consiste num prolongamento do sistema nervoso que começa no nariz, onde estão os receptores, e que termina no cérebro, onde é feita a interpretação ou tradução de sinais eléctricos para a sensação de cheiro.
O processo de captação e identificação dos odores começa no momento da inspiração. Com as partículas odoríferas em suspensão no ar, estas são captadas pelo nariz, que as encaminha para os múltiplos receptores do olfacto. A conjugação dessas partículas com as células olfactivas dá origem a um estímulo que é conduzido ao cérebro para ser decifrado.
No caso do sabor dos alimentos, o processo é idêntico, porém, tudo se passa na boca. Aqui, o paladar é dado pela acção das células gustativas, que reagem com o que comemos e bebemos, encaminhando, de seguida, a informação para o cérebro através de fibras nervosas.
Anosmia da idade
Numa situação normal, seja homem ou mulher, o mais provável é que com o decorrer dos anos comece a sentir que já não consegue ter o cheiro ou o paladar tão apurados. Como em qualquer parte do corpo, algumas células nervosas começam a desaparecer, assim como os receptores odoríferos que deixam de responder com a eficácia de outros tempos, dando origem a um processo de hiposmia, ou seja, a diminuição lenta e progressiva do cheiro, que culmina com a sua perda total.
No caso dos homens, os estudos indicam que essa perda gradual pode começar por volta dos 35 anos, enquanto que nas mulheres a média de idade ronda os 40 anos. Contudo, é importante referir que estas alterações são, inicialmente, imperceptíveis e só com a realização de testes padronizados e complexos são possíveis de detectar. Em ambos os sexos, a situação começa a acentuar-se por volta dos 70 anos, sendo que 50% da população com mais de 80 anos sofre de anosmia.
Provocada por uma evolução dita normal, no caso dos idosos, o Dr. Alberto Santos, Assistente Hospitalar do Hospital de Santa Maria e assistente de Biologia Celular da Faculdade de Ciências Médicas, explica que é essencial garantir que os idosos tenham uma boa higiene nasal e bocal, uma vez que, «como o paladar não se perde tão depressa, só assim é possível garantir que os idosos não perdem o prazer de comer, preservando o apetite».
Atenção redobrada
São raros os casos clínicos de pessoas que nascem sem olfacto. Daí que, como esclarece o especialista do Hospital de Santa Maria, «não é fácil fazer um diagnóstico exacto do problema». O motivo é simples, «a via olfactiva é extensa e complexa, podendo a malformação congénita verificar-se a vários níveis, mesmo a nível celular», explica.
Amélia Moreira, 52 anos, não se lembra de algum dia ter tido olfacto. A única lembrança que tem de «cheirar» foi-lhe concedida através de um livro, O Perfume, de Patrick Süskind. Porém, no seu dia-a-dia, não são os livros que a ajudam a identificar os líquidos com que trabalha.
«Distingo o álcool, o éter e a água oxigenada pelo tacto», explica a técnica de Radiologia. As certezas são dadas pelos doentes: «Costumo dizer qual é o líquido e os doentes confirmam dizendo que sim, pois cheira». Sujeita a uma intervenção cirúrgica para raspar uns pólipos que obstruíam a cavidade que faz a ligação entre a boca e o nariz, nem assim conseguiu recuperar o olfacto.
Alberto Santos avalia que o tratamento não resulta em todos os casos porque «tudo depende da causa e do tempo que o sistema esteve sem funcionar». De qualquer forma, o clínico elucida que é essencial fazer uma avaliação completa de cada caso, sendo a história clínica do doente essencial para se poderem definir os exames complementares de diagnóstico a realizar.
«Antes de mais, temos de observar o nariz. Se a pessoa estiver constipada, é natural que os receptores, que se encontram no seu interior, fiquem escondidos, não conseguindo entrar em contacto com as partículas odoríferas, daí não sentirem o cheiro. Pode ainda dar-se o caso de o doente sofrer de uma rinite crónica e/ou a existência de pólipos que escondem os receptores. Neste caso, há que tratar a rinite de forma a que os receptores voltem a ficar expostos».
Diagnóstico reservado
De uma forma geral, a hiposmia e a anosmia são sintomas de doenças como a rinite, os pólipos nasais, ou até mesmo a consequência de uma virose, de um traumatismo craniano ou facial.
Para o médico, nem sempre é fácil identificar a causa exacta da anosmia, daí que, excluídas as hipóteses mais comuns, o passo seguinte consista em despistar doenças graves, como tumores cerebrais ou doenças degenerativas. Nestes casos, mais uma vez, conhecer a história clínica dos doentes é essencial.
«É despropositado e perigoso falar a um leigo que a perda de olfacto pode levar a um diagnóstico de tumor, da doença de Alzheimer ou Parkinson, pois estes casos são muito raros, sendo ainda mais raro que a perda de olfacto se apresente como o primeiro sintoma deste tipo de doenças. Por outro lado, e devido à sua gravidade, estas causas são sempre excluídas durante a investigação clínica», remata o clínico.