Atinge mais mulheres do que homens e pode ser um motivo justificado para as faltas ao trabalho. Nem sempre é uma “desculpa” como muitos a vêem. A enxaqueca tem características específicas. Pode aparecer ao fim-de-semana ou ter uma longa duração no tempo. Tudo o que sempre quis saber é respondido neste artigo. Curiosa?
As cefaleias ou dores de cabeça podem ser primárias e secundárias. “Quando as cefaleias são causadas por outras situações como traumatismos crânio-encefálicos, alterações oculares, como astigmatismo e glaucoma de ângulo fechado, acidentes vasculares cerebrais e muito mais raramente tumores cerebrais, falamos de cefaleias secundárias. Este grupo de cefaleias é pouco frequente, não constituindo mais de 10 a 15% do seu total”, explica o Dr. Jorge Machado, médico neurologista, consultor de neurologia do Hospital Militar Principal e presidente da Sociedade Portuguesa de Cefaleias (SPC).
Sabia que a enxaqueca é uma das cefaleias primárias ou seja, representa em si própria uma doença? E que se divide em vários sub-tipos? “Existe a enxaqueca sem aura e a enxaqueca com aura, representando cerca de 1/3 dos casos. A aura é um conjunto de sintomas com origem no cérebro, com duração habitualmente inferior a 60 minutos e precedendo, em regra, a cefaleia. O tipo mais frequente é a aura visual, sendo seguido pela aura sensitiva”, refere o especialista.
É mais frequente no sexo feminino e cerca de 3/4 dos doentes têm um familiar do 1º grau atingindo, o que atesta o importante componente hereditário. “No entanto, até ao presente só foram identificados três genes responsáveis por uma forma particular de enxaqueca, a enxaqueca hemiplégica familiar. Os doentes com enxaqueca têm um limiar à dor mais baixo, o que faz com que o mesmo estímulo seja suficiente para desencadear uma crise nas pessoas com enxaqueca, mas não nas que não têm enxaqueca”, indica Jorge Machado.
É também frequente o aparecimento da enxaqueca durante o período fértil das mulheres, ou seja, entre a menarca e a menopausa. Mas nem tudo são mais notícias porque “habitualmente na gravidez há uma redução apreciável do número de crises, principalmente nos segundos e terceiros trimestres. Na grande maioria dos casos, as crises cessam com a menopausa”, salienta o presidente da SPC.
É também conhecida a clara relação com o período menstrual. “A flutuação dos níveis de estrogéneos é desencadeadora das crises.”
Mais do que uma simples dor de cabeça
Os sintomas da enxaqueca vão muito além de uma vulgar dor de cabeça. É frequente o aparecimento de sintomas acompanhantes, como por exemplo, as náuseas e vómitos, a fotofobia (aumento da dor com a exposição luminosa), a sonofobia (agravamento da dor com os sons intensos) e a cinesiofobia (agravamento da dor com os movimentos da cabeça). “Por este motivo, a Organização Mundial de Saúde considerou a enxaqueca uma das doenças que provoca mais incapacidade, tendo afirmado mesmo que um dia com uma crise de enxaqueca severa é mais incapacitante que um dia com tetraplegia (paralisia dos quatro membros)”, acrescenta Jorge Machado.
O diagnóstico da enxaqueca é sobretudo clínico. “Quando existe necessidade de recorrer a exames complementares por exemplo por modificação do padrão da enxaqueca ou por alterações do exame neurológico, os exames de eleição são a tomografia axial computorizada e a ressonância magnética encefálicas.
[Continua na página seguinte]
Prevenção e tratamento da enxaqueca
É importante seguir alguns estilos de vida preventivos da enxaqueca. “Não saltar refeições, não abusar do álcool nem do tabaco e praticar exercício físico de uma forma regular são medidas a ter em conta”, segundo o neurologista. Saliente-se que “a obesidade constitui um dos principais factores de risco para a transformação de enxaqueca episódica em crónica”, diz-nos Jorge Machado.
A enxaqueca crónica é a forma com crises que ocorrem mais de 15 dias por mês, durante mais de três meses e na ausência de abuso medicamentoso. “A decisão de instituir medicação preventiva deverá ser baseada na frequência e na intensidade das crises. Em regra, quando ocorrem mais de duas crises por mês, há indicação para o tratamento preventivo.”
Um dos pontos muito debatido é a relação entre enxaqueca e doença cerebrovascular e cardiovascular. “Um estudo recente mostrou que a enxaqueca com e sem aura está associada a um maior risco para doença coronária isquémica e arterial periférica e a enxaqueca com aura adicionalmente a acidentes vasculares cerebrais. Este aumento de doença cerebrovascular em doentes com enxaqueca com aura é maior nas mulheres, principalmente se tiverem menos de 45 anos de idade, fumarem ou utilizarem anticoncepcionais orais. Como regra prática, poderemos desaconselhar a utilização dos anticoncepcionais orais nas doentes com enxaqueca com aura”, indica Jorge Machado.
Respostas objectivas para perguntas curiosas
Havendo tanta variedade de cefaleias, como é que os médicos as distinguem umas das outras?
A chave do diagnóstico está na história clínica: anamnese (entrevista) e exame físico, incluindo exame neurológico. No entanto, por vezes, é necessário recorrer a exames complementares.
Qual é a idade de início da enxaqueca?
Habitualmente entre os 15 e os 40 anos, mas pode aparecer na infância ou logo após a menarca (primeira menstruação). Se aparecer pela primeira vez depois dos 45 anos deveremos excluir outras causas.
[Continua na página seguinte]
As crianças também podem ter enxaqueca?
Sim. A dor tende a ser bilateral, menos intensa e de duração mais curta. A fonofobia ou fotofobia podem ser deduzidas do comportamento de crianças pequenas, incapazes de descrever os sintomas. Os vómitos e olheiras podem ser exuberantes. As perturbações de horários de sono e refeições são factores precipitantes comuns.
O tratamento das crises de enxaqueca na criança é mais fácil do que no adulto. Uma boa rotina de sono dá habitualmente bons resultados.
Existe enxaqueca de fim-de-semana?
Há pessoas em que a enxaqueca aparece preferencialmente ao fim de semana. Estas crises podem ser precipitadas pela privação, excesso ou alteração do horário de sono, pela falha do pequeno-almoço ou do café habitual da manhã. A descompressão do fim-de-semana (suspensão rápida do stress socioprofissional), o abuso de bebidas alcoólicas ou de drogas também poderão ter algum papel desencadeante. Aconselha-se que estas pessoas ponderem as mudanças radicais de estilo de vida durante este período.
O café provoca ou trata enxaqueca?
As pessoas que tomam café com regularidade podem ter cefaleias se interrompem esse hábito. Muitas pessoas melhoram com o café durante as crises de enxaqueca, mas algumas podem piorar.
A pílula anticoncepcional provoca enxaqueca? Nesse caso, a pílula deverá ser suspensa?
Algumas mulheres notam um agravamento da enxaqueca com a pílula anticoncepcional. Nesse caso, a situação deve ser apresentada ao médico. Algumas mulheres notam uma melhoria e outras não relatam nenhuma alteração.
A pílula é desaconselhada a mulheres fumadoras com enxaqueca com aura, dado o risco acrescido para as doenças vasculares.
Tem alguma dúvida que gostasse de ver esclarecida?
Escreva para direccao@cefaleias-spc.com ou aceda ao site www.cefaleias-spc.com.
As cefaleias ou dores de cabeça podem ser primárias e secundárias. “Quando as cefaleias são causadas por outras situações como traumatismos crânio-encefálicos, alterações oculares, como astigmatismo e glaucoma de ângulo fechado, acidentes vasculares cerebrais e muito mais raramente tumores cerebrais, falamos de cefaleias secundárias. Este grupo de cefaleias é pouco frequente, não constituindo mais de 10 a 15% do seu total”, explica o Dr. Jorge Machado, médico neurologista, consultor de neurologia do Hospital Militar Principal e presidente da Sociedade Portuguesa de Cefaleias (SPC).
Sabia que a enxaqueca é uma das cefaleias primárias ou seja, representa em si própria uma doença? E que se divide em vários sub-tipos? “Existe a enxaqueca sem aura e a enxaqueca com aura, representando cerca de 1/3 dos casos. A aura é um conjunto de sintomas com origem no cérebro, com duração habitualmente inferior a 60 minutos e precedendo, em regra, a cefaleia. O tipo mais frequente é a aura visual, sendo seguido pela aura sensitiva”, refere o especialista.
É mais frequente no sexo feminino e cerca de 3/4 dos doentes têm um familiar do 1º grau atingindo, o que atesta o importante componente hereditário. “No entanto, até ao presente só foram identificados três genes responsáveis por uma forma particular de enxaqueca, a enxaqueca hemiplégica familiar. Os doentes com enxaqueca têm um limiar à dor mais baixo, o que faz com que o mesmo estímulo seja suficiente para desencadear uma crise nas pessoas com enxaqueca, mas não nas que não têm enxaqueca”, indica Jorge Machado.
É também frequente o aparecimento da enxaqueca durante o período fértil das mulheres, ou seja, entre a menarca e a menopausa. Mas nem tudo são mais notícias porque “habitualmente na gravidez há uma redução apreciável do número de crises, principalmente nos segundos e terceiros trimestres. Na grande maioria dos casos, as crises cessam com a menopausa”, salienta o presidente da SPC.
É também conhecida a clara relação com o período menstrual. “A flutuação dos níveis de estrogéneos é desencadeadora das crises.”
Mais do que uma simples dor de cabeça
Os sintomas da enxaqueca vão muito além de uma vulgar dor de cabeça. É frequente o aparecimento de sintomas acompanhantes, como por exemplo, as náuseas e vómitos, a fotofobia (aumento da dor com a exposição luminosa), a sonofobia (agravamento da dor com os sons intensos) e a cinesiofobia (agravamento da dor com os movimentos da cabeça). “Por este motivo, a Organização Mundial de Saúde considerou a enxaqueca uma das doenças que provoca mais incapacidade, tendo afirmado mesmo que um dia com uma crise de enxaqueca severa é mais incapacitante que um dia com tetraplegia (paralisia dos quatro membros)”, acrescenta Jorge Machado.
O diagnóstico da enxaqueca é sobretudo clínico. “Quando existe necessidade de recorrer a exames complementares por exemplo por modificação do padrão da enxaqueca ou por alterações do exame neurológico, os exames de eleição são a tomografia axial computorizada e a ressonância magnética encefálicas.
[Continua na página seguinte]
Prevenção e tratamento da enxaqueca
É importante seguir alguns estilos de vida preventivos da enxaqueca. “Não saltar refeições, não abusar do álcool nem do tabaco e praticar exercício físico de uma forma regular são medidas a ter em conta”, segundo o neurologista. Saliente-se que “a obesidade constitui um dos principais factores de risco para a transformação de enxaqueca episódica em crónica”, diz-nos Jorge Machado.
A enxaqueca crónica é a forma com crises que ocorrem mais de 15 dias por mês, durante mais de três meses e na ausência de abuso medicamentoso. “A decisão de instituir medicação preventiva deverá ser baseada na frequência e na intensidade das crises. Em regra, quando ocorrem mais de duas crises por mês, há indicação para o tratamento preventivo.”
Um dos pontos muito debatido é a relação entre enxaqueca e doença cerebrovascular e cardiovascular. “Um estudo recente mostrou que a enxaqueca com e sem aura está associada a um maior risco para doença coronária isquémica e arterial periférica e a enxaqueca com aura adicionalmente a acidentes vasculares cerebrais. Este aumento de doença cerebrovascular em doentes com enxaqueca com aura é maior nas mulheres, principalmente se tiverem menos de 45 anos de idade, fumarem ou utilizarem anticoncepcionais orais. Como regra prática, poderemos desaconselhar a utilização dos anticoncepcionais orais nas doentes com enxaqueca com aura”, indica Jorge Machado.
Respostas objectivas para perguntas curiosas
Havendo tanta variedade de cefaleias, como é que os médicos as distinguem umas das outras?
A chave do diagnóstico está na história clínica: anamnese (entrevista) e exame físico, incluindo exame neurológico. No entanto, por vezes, é necessário recorrer a exames complementares.
Qual é a idade de início da enxaqueca?
Habitualmente entre os 15 e os 40 anos, mas pode aparecer na infância ou logo após a menarca (primeira menstruação). Se aparecer pela primeira vez depois dos 45 anos deveremos excluir outras causas.
[Continua na página seguinte]
As crianças também podem ter enxaqueca?
Sim. A dor tende a ser bilateral, menos intensa e de duração mais curta. A fonofobia ou fotofobia podem ser deduzidas do comportamento de crianças pequenas, incapazes de descrever os sintomas. Os vómitos e olheiras podem ser exuberantes. As perturbações de horários de sono e refeições são factores precipitantes comuns.
O tratamento das crises de enxaqueca na criança é mais fácil do que no adulto. Uma boa rotina de sono dá habitualmente bons resultados.
Existe enxaqueca de fim-de-semana?
Há pessoas em que a enxaqueca aparece preferencialmente ao fim de semana. Estas crises podem ser precipitadas pela privação, excesso ou alteração do horário de sono, pela falha do pequeno-almoço ou do café habitual da manhã. A descompressão do fim-de-semana (suspensão rápida do stress socioprofissional), o abuso de bebidas alcoólicas ou de drogas também poderão ter algum papel desencadeante. Aconselha-se que estas pessoas ponderem as mudanças radicais de estilo de vida durante este período.
O café provoca ou trata enxaqueca?
As pessoas que tomam café com regularidade podem ter cefaleias se interrompem esse hábito. Muitas pessoas melhoram com o café durante as crises de enxaqueca, mas algumas podem piorar.
A pílula anticoncepcional provoca enxaqueca? Nesse caso, a pílula deverá ser suspensa?
Algumas mulheres notam um agravamento da enxaqueca com a pílula anticoncepcional. Nesse caso, a situação deve ser apresentada ao médico. Algumas mulheres notam uma melhoria e outras não relatam nenhuma alteração.
A pílula é desaconselhada a mulheres fumadoras com enxaqueca com aura, dado o risco acrescido para as doenças vasculares.
Tem alguma dúvida que gostasse de ver esclarecida?
Escreva para direccao@cefaleias-spc.com ou aceda ao site www.cefaleias-spc.com.