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E depois do acidente vascular cerebral?

Considerado a principal causa de morte e de incapacidade entre a população portuguesa, o acidente vascular cerebral (AVC) continua a somar vítimas de todas as idades. No entanto, sabe-se que, após os 50 anos, o risco de ocorrer um evento desta natureza aumenta, duplicando a cada década. Descobrimos a história de Lídia dos Santos. Resistiu a um AVC, mas, após este episódio, o que mudou na sua vida?

Para contar a história de Lídia dos Santos, há que a dividir em dois actos: o antes e o depois de ter sido surpreendida por um AVC. Até Janeiro do ano 2000, os dias corriam a toda a velocidade. Os compromissos que tinha com a papelaria, da qual era proprietária, não lhe deixavam grande margem de manobra para abrandar o ritmo. “Andava sempre com stresse”, confessa. Por não se sentir bem fisicamente, decidiu “tirar uns dias”, já depois de se ter deslocado ao hospital, de onde saiu apenas com a indicação de que “seriam nervos”.

Quatro meses depois, no dia 26 de Abril, voltou ao hospital, onde acabou por ser internada. Na altura, segundo se recorda, a tensão sistólica (máxima) tinha disparado para 17. Mas as piores “surpresas” estavam para chegar no dia seguinte. “Fui tomar um duche, pelas oito da manhã, e, à hora do almoço, já estava paralisada do lado direito.” A partir deste momento, o seu dia-a-dia ficou completamento do avesso, por causa da obstrução da carótida esquerda: uma das artérias que irriga o cérebro. “O AVC desconjuntou-me a vida toda. Passei de uma mulher activa para uma mulher de 45 anos completamente paralisada do lado direito.”

Por cá, situações como esta não são caso único. Segundo os dados disponíveis, anualmente, registam-se perto de 16 mil casos de AVC no nosso país. Este número faz com que Portugal continue a ocupar a liderança na tabela dos AVC, comparativamente aos países da Europa desenvolvida. Para o Prof. Victor Oliveira, vice-presidente da Sociedade Portuguesa de AVC, a elevada incidência destes eventos está, sobretudo, relacionada com a hipertensão. “Temos de lutar para que a percentagem de AVC baixe, minimizando os factores de risco modificáveis.”

Para que isso aconteça, apela à alteração de hábitos alimentares, nomeadamente no que diz respeito à redução do consumo de sal. Para evitar que o AVC lhe “bata à porta”, o neurologista ressalva a necessidade de combater outros factores de risco. “A prevenção primária passa por abandonar os hábitos tabágicos, reduzir a obesidade, controlar a diabetes, vigiar a tensão arterial e diminuir a ingestão de gorduras.” Só apostando na prevenção, refere, é que “consegue reduzir os números de AVC em Portugal”.

 

Vidas interrompidas

Quem sofre um AVC, questiona: “como é que isto foi acontecer”? Esta foi a pergunta que Lídia dos Santos também fez a si própria. “Nunca me passou pela cabeça, até porque tinha uma vida activa e praticava exercício. Pensámos que só ocorre com os outros”, diz. Após o AVC, teve de colocar um travão nos dias agitados. Passou a viver com algumas limitações e a usar uma bengala.

Até as tarefas que, aparentemente, estão ao alcance de qualquer pessoa, como limpar o pó, deixaram de ser realizadas por Lídia dos Santos. Para Victor Oliveira, as sequelas de um AVC ocorrem quando não existe uma intervenção atempada, nas primeiras três a quatro horas e meia desde o início do evento. E por que razão é o AVC causa de mortalidade e incapacidade?

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“Estes episódios podem ter duas origens: obstrução ou ruptura de um vaso que irriga o cérebro. São os chamados acidentes isquémicos e hemorrágicos, respectivamente.”

Quando ocorre o entupimento de uma artéria, “o sangue deixa de fluir e o tecido cerebral que dependia da irrigação daquele sangue inviabiliza-se e morre”. Esta obstrução relaciona-se, em larga medida, com o processo de aterosclerose: uma situação em que a gordura se acumula na parede das artérias e que favorece a formação de coágulos de sangue. “Significa que um trombo (ou coágulo), ao ser arrastado na corrente sanguínea, pode bloquear a circulação.

E isto acontece porque, à medida que se vai avançando na circulação cerebral, os vasos vão sendo mais estreitos.”

Já os AVC hemorrágicos estão associados à ruptura dos vasos cerebrais. Esta situação, comparável ao que acontece com a canalização das nossas casas, deve-se, fundamentalmente, ao aumento da pressão arterial. “Se um cano estiver, permanentemente, sujeito a uma pressão exagerada, o risco de rompimento é maior. É, por isso, que a hipertensão arterial deve ser combatida por todos os meios”. E uma das medidas apontadas para resolver esta questão é, precisamente, reduzir a ingestão de sal.

Lídia dos Santos admite que, após o AVC, o sal está praticamente excluído da sua alimentação. Em vez de cloreto de sódio, usa, agora, ervas aromáticas. E, se antes, “comia tudo” o que lhe apetecia, hoje em dia, aprendeu a disciplinar a sua alimentação. Também a medicação, aliada a uma dieta rigorosa, foi fundamental para que conseguisse prevenir a ocorrência de um novo AVC.

 

Recuperar de um avc

Depois de sair do internamento hospitalar, Lídia dos Santos deparou-se com uma dificuldade: o que fazer com as sequelas do AVC? “Graças à força de vontade e à fisioterapia consegui levantar-me da cadeira de rodas”, afirma. Se é verdade que, só 10% dos doentes conseguem recuperar-se integralmente, “a intervenção de um programa de reabilitação conduz a uma melhoria dos resultados funcionais na esmagadora maioria das situações”.

Para a Dr.ª Cecília Vaz Pinto, coordenadora da Unidade de Fisiatria do Serviço de Assistência Médico-Social (SAMS), “o objectivo da reabilitação no AVC é tornar o doente tão independente quanto possível, optimizando a sua qualidade de vida”. As sequelas físicas podem ser minoradas com a ajuda de programas, que, utilizando “técnicas de neurodesenvolvimento, de reaprendizagem motora (por repetição de tarefas), de treino de marcha com suporte parcial do corpo, entre outros exercícios”, permitem aumentar a plasticidade cerebral”.

Devido à falta de camas de reabilitação nos Serviços de Medicina Física e de Reabilitação (MFR) dos hospitais, os doentes têm de prosseguir as sessões de em regime ambulatório. “O internamento tem a vantagem de permitir uma recuperação intensiva e multidisciplinar com um período de tempo de tratamento superior a três horas. E isto permite-nos também uma melhor avaliação dos resultados.”

Segundo a fisiatra, a maioria dos doentes que integra programas de reabilitação fazem-no em unidades de ambulatório, convencionadas pelo Serviço Nacional de Saúde, em virtude do défice de camas. Acontece que, “por não haver uma resposta organizada na transição para o domicílio”, os doentes, por vezes, “são obrigados a aguardar até duas semanas para iniciarem o tratamento, após alta hospitalar”.

“O acesso a estas unidades é, normalmente, realizado por credencial passada pelo médico de família. Mas, nem sempre, estas unidades correspondem à estrutura mais adequada para um determinado indivíduo num determinado tempo da evolução da sua recuperação. Falta fazer esseestudo e essa avaliação.”

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