X
    Categories: EspecialidadesInformaçõesNutrição

Distúrbios Alimentares

O que são? Trata-se de um conjunto de doenças com origens psicológicas, emocionais e sociofamiliares. Têm vindo a crescer nas últimas décadas, e hoje o leque de patologias abrangido por esta denominação é bastante amplo. Manifestam-se por alterações significativas nos hábitos alimentares e na imagem corporal percepcionada pelo doente. Por exemplo, as pessoas consideram-se muito gordas, independentemente do peso que apresentam. Os jovens de ambos os sexos são os mais afectados (não se trata de uma patologia exclusiva do sexo feminino, estima-se que 20% dos doentes sejam do sexo masculino).

A que se devem estas patologias e como se manifestam?

A causa exacta não é conhecida. Tal como acontece com outras doenças do foro psicológico, há uma gama de factores inter-relacionados, a saber:

• Biológicos: admite-se que haja genes que tornam certas pessoas mais vulneráveis ao desenvolvimento de distúrbios alimentares;

• Psicológicos e emocionais: comprovadamente todos os indivíduos com distúrbios alimentares revelam manifestações de baixa autoestima, comportamento impulsivo, relacionamento conturbado, quadros depressivos;

• Socio-ambientais: na medida em que o sistema cultural da sociedade de consumo incita ao corpo estilizado, promove o “body-building”, qualquer excesso de peso é apresentado quase como uma obscenidade ou uma razão profunda para a discriminação,…

Devido ao conhecimento actual sobre tais patologias, sabe-se que cada distúrbio alimentar tem os seus sintomas e sinais de alerta característicos. Mas na generalidade, os doentes manifestam-se por sinais de isolamento, baixa autoconfiança e elevados níveis de ansiedade ou stresse.

Apesar de serem problemas graves, todos estes distúrbios podem ter cura, desde que a pessoa ganhe consciência de que está doente, provocando sofrimento a si próprio e, por vezes, à família e tenha força de vontade para pedir ajudar e mudar comportamentos e atitudes.

 

Quais os principais distúrbios alimentares?

À luz dos conhecimentos actuais, podemos falar em sete patologias, a saber: anorexia (restrição alimentar), bulimia (comer compulsivamente e, em seguida, vomitar), distúrbio alimentar não específico (apresenta-se como uma pré-anorexia e/ou bulimia), overeating (comer compulsivamente, sem tréguas), permarexia (o doente vive obcecadamente a pensar em dietas), ortorexia (o doente pensa constantemente em comida saudável, travando uma batalha fundamentalista com tudo o que come) e vigorexia (o doente recorre ao exercício compulsivo para atingir o peso que considera ideal, pois aquele que tem é sempre percepcionado como insatisfatório).

[Continua na página seguinte]

Vejamos os seus sinais e consequências. A anorexia, sem margem para dúvidas, é um distúrbio alimentar muito grave, que pode até colocar em risco a própria vida.

O doente submete-se voluntariamente a um “jejum prolongado” de modo a perder peso, que na sua opinião é sempre excessivo.

O doente anorético cria uma imagem completamente distorcida de si próprio, acha que é avaliado socialmente pela sua imagem física, vive uma relação conturbada com o seu corpo, peso e forma, e nega “a pés juntos” que está quase “pele e osso”, mesmo perante os médicos.

Os sinais de alerta da anorexia estão hoje devidamente repertoriados: a perda dramática de peso é um plano inclinado que pode levar à morte; o doente fala constantemente no peso, em comida, em calorias, recorrendo a manhas e habilidades para simular à mesa que comeu uma refeição adequada quando na realidade não o fez. Nas suas conversas é permanente a ansiedade com hipotéticos ganhos de peso, existindo sempre um sobressalto quando se vê ao espelho; em círculo social, o doente nega ter fome, tendo sempre desculpas para evitar as horas de refeição; sempre que possível, pratica exercício em excesso, quase até cair de fadiga, como se fosse um ritual obrigatório para “queimar” calorias. Outro sinal de alerta preocupante é quando o doente começa a evitar os amigos habituais e as actividades em conjunto.

As consequências da anorexia são de grande diversidade e algumas delas podem manifestam-se a prazo: osteoporose, aumento da pilosidade facial (particularmente incómodo nas mulheres), problemas circulatórios, insuficiência renal, impotência sexual, transtornos gastrointestinais, “tensão” arterial baixa, tonturas e desmaios, danos ao nível do coração e pulmões, queda abundante de cabelo, etc.

Em casos extremos, o doente pode mesmo acabar por morrer. A bulimia é o distúrbio alimentar mais comum, sendo duas a três vezes mais prevalente que a anorexia. A pessoa com bulimia exige muito esforço ao sistema digestivo: numa primeira fase, o doente come compulsivamente, parece que quer devastar o frigorífico de cima a baixo, numa segunda fase procura adoptar comportamentos compensatórios, eliminando o excessivo consumo calórico através da auto-indução do vómito, ou da utilização abusiva de laxantes e diuréticos, ou ainda pela prática compulsiva de exercício físico. O doente bulímico sofre frequentemente de sentimentos de culpa, ansiedade e até depressão.

Os sinais de alerta, tais como os da anorexia, também estão devidamente identificados: desaparecimento de grandes quantidades de comida no recheio do frigorífico; idas frequentes à casa de banho, após as refeições, para vomitar; dentes descolorados ou manchados, estilos de vida complexos, com planeamentos rigorosos de excessos alimentares a que se seguem sessões de vómitos ou o recurso a purgantes. As consequências que mais interessa relevar são: hipoglicémia (baixo nível de açúcar no sangue), eventuais ferimentos graves com sangramento no esófago, enfraquecimento e entorpecimento dos músculos, insuficiência cardíaca, problemas no cólon.

[Continua na página seguinte]

Para o distúrbio alimentar não específico ou pré anorexia e/ou bulimia convergem muitas das características da anorexia e da bulimia. Os sinais e consequências que importa destacar são: afins dos que encontramos na anorexia e da bulimia.

O overeating é uma doença que se caracteriza pela ingestão desmedida de comida sem qualquer recurso ao vómito. A pessoa fica horas sem comer, na esperança de estar a fazer dieta, de seguida, sente uma necessidade desmedida de ingerir alimentos.. Quem tem esta doença manifesta uma excessiva preocupação com o peso e corpo, tendo grande dificuldade em estabelecer e manter relações interpessoais. É um “vício” ou uma dependência pois gera obrigatoriedades nesta prática descontrolada de consumo alimentar. Os sinais e as consequências mais relevantes são: tensão arterial alta; e até problemas cardiorrespiratórios, colesterol elevado e, em alguns casos, problemas de mobilidade.

Na permarexia, os doentes tornam-se completamente obcecados por dietas, nomeadamente as de emagrecimento, passando a viver num estado de dieta permanente, e têm uma curiosidade infindável por experimentar todas as novas dietas – cada um inventa o seu menu saudável.

Os sinais e consequências desta doença são muito próximos aos da anorexia. A ortorexia revela-se como uma obsessão por uma alimentação saudável. Quem sofre deste distúrbio rejeita qualquer alimento que tenha químicos ou aditivos, vivendo obcecado pela escolha e preparação dos alimentos. As consequências podem ser: anemia, carência vitamínica, uma vida de relação muito pobre já que o regime alimentar é muito rígido, tornando-se incompatível comer com os outros.

Inventam restrições e temem o sal, o açúcar e os conservantes. Na ortorexia, a grande maioria das consequências anda próxima das da anorexia.

A vigorexia atinge sobretudo os homens, que por mais músculos que tenham querem sempre mais; é um distúrbio centrado na forma física e na procura obsessiva do corpo perfeito, forte e musculado.

Quem sofre desta doença passa todo o tempo que pode em ginásios ou espaços destinados à atividade física, procuram suplementos alimentares, dão primazia a uma alimentação excessivamente proteica, acompanhada da toma de suplementos vitamínicos e chegam mesmo a usar esteróides. Estes indivíduos acabam por sofrer de insónias, falta de apetite, são irascíveis, andam cansados, têm dificuldade de concentração e podem vir também a sofrer de doenças cardiovasculares, disfunções sexuais e até mesmo cancro da próstata.

[Continua na página seguinte]

Diagnóstico e tratamento

O diagnóstico precoce pode ser determinante para evitar sofrimento ao doente e à sua família. O tratamento destes distúrbios envolve quase sempre um plano multidisciplinar e abrangente com assistência médica, terapia psicossocial, aconselhamento nutricional e eventualmente uma terapêutica medicamentosa. O tratamento visa que se retome, de forma gradual e progressiva, os comportamentos alimentares normais, bem como a recuperação do peso corporal aconselhável, nos casos em que se justifique, providenciando a sensação de controlo e aumento de autoestima.

Para além da psicoterapia individual, a terapia com a família também é importante, pois a família e os amigos são essenciais no quadro do tratamento. Feito o diagnóstico, segue-se o tratamento onde se procura abordar todos os aspectos do distúrbio: os sintomas depressivos e ansiosos, as crenças inadequadas ou desajustadas acerca de grupos alimentares e sobre o modo como o indivíduo se percepciona.

 

Saiba mais, converse com o seu farmacêutico

Não existindo uma forma completamente eficaz para prevenir os distúrbios alimentares, há, contudo, um conjunto de medidas que podem ajudar a evitar a sua manifestação nas pessoas que vivem connosco e que nós mais amamos. Converse abertamente com o seu farmacêutico se suspeitar que alguém próximo manifesta sinais de algum distúrbio alimentar, particularmente se for um adolescente ou jovem adulto.

O seu farmacêutico recomendar-lhe-á, certamente, que se envolva directamente adoptando práticas alimentares diversificadas, podendo até dar exemplos de escolhas correctas para uma alimentação diversificada, com refeições a horas certas, que trazem bem-estar, espírito positivo e constituem um importantíssimo contributo para estilos de vida saudáveis.

Além disso, o seu farmacêutico dir-lhe-á que é possível cultivar uma imagem corporal saudável e como o esclarecimento é bom dissuasor daqueles distúrbios, que podem tornar-se numa calamidade quando o jovem envereda por práticas alimentares autodestrutivas. O seu farmacêutico pode dar-lhe dicas de como intervir junto dos adolescentes, por exemplo quanto ao uso do computador onde há numerosos “sites” que procuram promover a anorexia como uma opção de vida, em vez de um distúrbio alimentar grave, e ainda dos tentadores sites que instilam um apelo doentio à forma física, por vezes com consequências nefastas. É por isso muito importante assegurar um diálogo aberto com quem sofre destes distúrbios Por último, se verificar que o seu amigo ou familiar apresenta manifestações como aquelas que aqui se descrevem, não hesite em falar com o seu farmacêutico sobre a necessidade de uma consulta médica urgente.

FARMÁCIA SAÚDE – ANF

www.anf.pt

admin: