Os indivíduos têm reacções emocionais em relação ao que sucede ao seu redor que interferem de forma decisiva com os seus padrões de humor, podendo ser estes estáveis ou instáveis. Os padrões de humor podem oscilar devido a vários factores, principalmente, à personalidade, aos factores genéticos, relacionais, físicos e atmosféricos. Saiba onde termina a normalidade e começa a doença bipolar.
O padrão saudável emocional não implica que a pessoa seja tranquila e que não tenha emoções, pois “um indivíduo normal reage às situações do quotidiano, sendo alvo de um processo de adaptação emocional constante”, explica José Manuel Jara, director de serviço do Hospital Júlio de Matos.
Por isso mesmo “o ser humano é um ser perturbável emocionalmente, o que não significa que a pessoa seja doente. A perturbabilidade é a reactividade”.
A forma como as pessoas reagem ao que ocorre à sua volta varia de acordo com a sua personalidade, sendo esta uma das principais variáveis que se considera na reacção emocional, existindo também outros factores. “Há pessoas que são mais serenas e que se adaptam mais facilmente às situações sem serem muito afectadas emocionalmente, enquanto outras são mais temperamentais e reactivas”, explica o psiquiatra. Estas características de personalidade poderão ser transmitidas de pais para filhos, daí que possa dizer-se que “traços temperamentais e emocionais se herdam em certa medida”.
As emoções regulam o nosso comportamento e não são totalmente irracionais. A irracionalidade emocional só existe se houver um desajustamento significativo em relação à forma de lidar com uma situação, acrescenta o psiquiatra.
Outros factores que interferem com o humor
O ambiente externo é outra das condicionantes do estado emocional da pessoa, sobretudo aquele que envolve as relações humanas e o ritmo de trabalho. “Se o contexto de relacionamento é tranquilo, a pessoa tende a reagir menos emocionalmente, ou seja, a não se irritar e tem emoções positivas, muito importantes no plano motivacional”, adianta José Manuel Jara. No entanto, o psiquiatra ressalva que nem sempre as emoções negativas acarretam apenas aspectos negativos. Até porque “por vezes, é necessário as pessoas irritarem-se, porque perante coisas desagradáveis as pessoas têm que reagir.
Outra das variáveis que interfere na reacção emocional é o padrão sócio-cultural mutável de geração em geração. “Os portugueses são menos exuberantes do que os espanhóis, na medida em que são mais introvertidos e melancólicos”.
Afirma ainda que alguns padrões de humor podem também ser aprendidos o que propicia a emergência de comportamentos emocionais muito imitativos.
As condições atmosféricas e as mudanças de estação constituem dois outros factores que influenciam o estado de humor das pessoas.
“Nos dias em que há uma mudança súbita de tempo – caracterizada por humidade e chuva miúda – os indivíduos podem ficar mais tristes ou mais irritadiços, sem motivo evidente.
Os próprios níveis de glicémia no sangue podem fazer a diferença quando se considera a dinâmica das oscilações de humor que dependem também de regulações metabólicas.
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Visão psicanalítica das oscilações de humor
É normal as pessoas terem oscilações de humor ao longo do dia, desde que estas não afectem a sua saúde mental, explica Seabra Diniz, presidente da sociedade portuguesa de psicanálise A existência de oscilações deriva da vivência de momentos que geram bem-estar e de outros que induzem mal-estar, como por exemplo, desconforto ou irritação. Pode haver igualmente umaalternância entre um estado de humor entusiasta e outro pouco motivado. Segundo afirma, “o estado de humor de uma pessoa resulta de um equilíbrio de factores muito complexos, sendo um dos principais a relação entre o mundo interno da pessoa e o que se passa no exterior”.
De frisar que a forma como as pessoas reagem ao que lhes acontece varia em função da sua história. Daí que factores externos semelhantes possam gerar reacções distintas, esclarece.
Isto porque “estas são condicionadas pelas experiências anteriores, as sensações de bem-estar, perda, solidão, abandono, satisfação ou entusiasmo, explica o psicanalista”.
Especifica que a história individual de cada um acaba por criar zonas sensíveis condicionadoras da interpretação de certos sinais. “Deixa uma forma particular de interpretar determinados sinais que são pessoais, influenciando a forma como as pessoas reagem”.
As oscilações de humor podem ser condicionadas pelo perfil psicológico das pessoas, variando, por exemplo, com o seu grau de extroversão.
Um dos modelos que Seabra Diniz apresenta é o de pessoas introvertidas com dificuldade em gerir as suas emoções. Para o especialista, este tipo de indivíduos é susceptível de ter variações de humor, justamente devido ao seu perfil introvertido. “Os fantasmas e os aspectos inconscientes que as pessoas imaginam, pressupõem ou antecipam são muito importantes em psicanálise e vão influenciar a sua leitura acerca do que ocorre”, afirma. Dá o exemplo de uma pessoa que é tímida e que tem dificuldades em expressar as suas emoções. “Ela pode ter receio do que os outros irão pensar de si.
A questão que se deve colocar é: Porquê? Porque se habituaram a duvidar de si mesmas e se tornaram inseguras”. De acordo com Seabra Diniz, geralmente, esta insegurança tem por base a vivência de um conjunto de experiências em que este tipo de pessoa não sentiu interesse por parte dos outros em ser ouvida. A socialização das crianças pela família pode criar problemas de bem-estar psicológico a este nível. Até porque “muitos pais exigem dos seus filhos um conjunto de acções, dão instruções, mas não os ouvem”, remata.
Da timidez à agressividade
A lembrança de algo desagradável relacionado com experiências com certas pessoas pode propiciar um episódio de indisposição que reflecte raiva. “Como estes movimentos são muito violentos e espelham muito sofrimento, vencem a inibição e saem bruscamente sem filtro. As pessoas acabam por não medir as palavras e, depois, arrependem-se”, explica Seabra Diniz.
Embora, este estado de humor origine, posteriormente um estado de boa-disposição e inibição.
“Como disseram coisas de que se arrependem, ficam caladas”. Este estado de humor e postura culminam, com o decurso do tempo, com uma nova fase de irritação. Segundo o especialista, “estas pessoas controlam mal estes fluxos de humor e têm dificuldades de relação”.
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Como ajudar?
O tipo de ajuda deve ser ponderado caso a caso, muito embora, Seabra Diniz sugira o seguimento de uma terapia psicanalítica que constitui uma ferramenta de diálogo com o especialista e compreensão das dificuldades e emoções da pessoa, para mudar a sua forma de sentir. Mas o processo não é simples e linear.
“A pessoa pode entender cognitivamente, o que não significa dizer que consiga mudar celeremente a sua forma de sentir. Para ser bem sucedida, deve seguir uma terapia longa e cuidadosa”, justifica.
Qual a justificação para estas dificuldades?
De acordo com Seabra Diniz, estas limitações estão relacionadas com o desajustamento entre os raciocínios e os sentimentos, pois “os primeiros não controlam os segundos”. Daí que a alteração da forma de sentir constitua o principal desafio que pode, no entanto, ser bem sucedido e ter várias vantagens.
Pois “há determinantes inconscientes do nosso estado de humor que a pessoa desconhece, mas que poderá vir a conhecer através da psicanálise”, remata.
Como resolver a inibição e insegurança dos jovens derivada, por exemplo, da interacção desigual entre si e os seus pais? Seabra Diniz sugere aos pais que, “em vez de perguntarem coisas aos filhos, os oiçam”, sugere. Acrescenta que quando houver este espaço de diálogo saudável, os filhos sentirão à vontade para conversarem com os pais acerca dos mais diversos temas. “O desejo de ouvir é o que proporciona o desejo de contar.
A rotina semanal e as oscilações de humor
Segundo José Manuel Jara, a dicotomia número de dias de trabalho vs fim-de-semana interfere com as reacções emocionais. “O início da semana é sempre mais aborrecido do que o fim. A maioria das pessoas está mais bem-disposta na sexta do que na segunda”, explica o especialista.
Se o trabalhador tem excesso de trabalho apresenta uma maior predisposição para a irritação, estado emocional que poderá ser acentuado ou minimizado pela qualidade das relações humanas e profissionais, incluindo o tipo de chefia. Para funcionar bem o sistema de organização do trabalho deve regular-se por emoções positivas e as pessoas devem sentir-se alegres no desempenho das suas tarefas. De acordo com José Manuel Jara, “os indivíduos que trabalham por turnos poderão ficar mais vulneráveis, devido a um descanso insuficiente : devendo descansar para compensar estes horários”.
Geralmente, as pessoas têm um melhor humor de manhã, mas se tiverem tendência depressiva ou um temperamento um pouco ciclotímico poderão apresentar um humor matinal mais negativo, refere.
“Indivíduos com predisposição depressiva, acordam, por vezes, mais lentos e menos entusiastas, mesmo sem razões aparentes para tal e melhoram ao fim do dia, contrastando com a lógica da relação entre o repouso e o humor”. O temperamento influencia igualmente a energia e disposição das pessoas ao longo do dia, pois umas estão mais ágeis de manhã e outras à noite.
Gestão das emoções na empresa
O líder pode apresentar oscilações de humor e é livre de “descarregar” as emoções negativas nos seus subordinados, liberdade que estes não têm, o que pode originar uma cadeia de transmissão de mau-humor e tensão no seio familiar, explica José Manuel Jara. “Ninguém punirá o chefe caso ele seja agressivo para os seus empregados. Estes têm que conter as suas emoções. Hipoteticamente, um indivíduo pode ser mal tratado pela chefia, descarrega na pessoa que está subalterna a si próprio, essa pessoa subalterna vai descarregar na mulher ou no filho”, acrescenta.
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Onde começa a doença?
Dada a complexidade da compreensão dos padrões emocionais das pessoas e, nomeadamente, das oscilações de humor que estas podem ter mesmo se forem saudáveis, interessa definir qual a fronteira entre estados de humor saudáveis e os patológicos. Quando existe adaptação ao ambiente exterior, significa que o indivíduo tem alguma flexibilidade em termos de plano emocional e de humor. “Ou seja, alegramo-nos com as coisas que nos alegram e entristecemo-nos com as tristes”, explica José Manuel Jara. Ressalva, no entanto, que efectivamente, há mesmo pessoas que têm um perfil de humor que oscila muito, pois reagem excessivamente às situações, o que não significa que sejam bipolares, pois estas reacções inserem-se num padrão normal.
“Há pessoas com oscilações de humor e que têm dias bons e outros maus e que nunca desenvolverão a doença bipolar”, afirma. Embora, essas mudanças possam ser sinais do futuro desenvolvimento da doença, caso exista predisposição genética.
Segundo afirma, “a doença é um estado de humor endógeno mais persistente, mais rígido e desajustado em relação à realidade, ou seja, não é tão modificável pelo ambiente”. Esclarece que “quando a pessoa está muito deprimida, não consegue alegrar-se mesmo com as coisas mais alegres. Se o indivíduo estiver eufórico, mesmo as coisas mais tristes não o deprimem ou mexem com o seu estado de humor. Os doentes bipolares oscilam muito e intensamente de humor, para além de um certo nível”. A hereditariedade é a principal causa da doença bipolar ou maníaco-depressiva.
Sinais de alerta
Antes das primeiras crises de doença bipolar, verificam-se pequenas oscilações ou seja ciclotimia. “Os indivíduos podem ter períodos de hiperactividade, nos quais têm muita energia e pouca necessidade de dormir e terem outros em que se sentem cansados e dormem muito, sem haver uma motivação plausível e incapacitação laboral”, especifica José Manuel Jara.
A doença evidencia-se quando surgem crises depressivas caracterizadas por ausência de reacção e incapacidade para trabalhar ou inversas em que as pessoas estão hiperactivas e começam a comportar-se de forma inadequada e, por exemplo, a gastar muito dinheiro. A ausência de consciência desse desajustamento de comportamento agudiza a situação, acrescenta.
O psiquiatra refere que, muitas vezes, quando surge a primeira crise e se diagnostica, fazse uma retrospectiva do historial do doente e constata-se que este já tinha tido indícios da doença.
Sabia que?…
As reacções emocionais são mais breves e imediatas e transitórias, enquanto que os estados de humor são mais persistentes, mas são influenciados pelas emoções. Se tivermos muitas emoções negativas ficamos com o humor negativo. Mas… Por vezes, uma emoção negativa não altera o humor.
As emoções são balizadas pelas sensações de bem e mal estar. O indivíduo tem que ter um grau de tensão emocional óptimo que lhe permita resolver os seus problemas.
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Mudança súbita de humor
Uma pessoa pode estar irritada durante algum tempo, ir ver um filme e, após duas horas, estar tranquila e o seu rosto evidenciar uma expressão diferente, pois durante momentos, abstraiu-se de alguma preocupação.
Embora ela possa regressar e originar a ocorrência de uma nova mudança de humor. A acumulação de frustrações ou tensões pode ser um dos principais factores que determinam a emergência de oscilações de humor.
Prevenção começa no local de trabalho
Segundo afirma José Manuel Jara, a prevenção pode começar pela higiene no trabalho.
É fundamental não trabalhar em excesso, dormir o número de horas necessárias, não ter sobrecargas excessivas, trabalhar em equipa e com satisfação. “Um simples ambiente musical, a interrupção para descanso, a existência de uma atmosfera de diálogo e não de competição e de uma hierarquia participativa e pouco rígida contribuem para que um local de trabalho seja alegre”, sugere o psiquiatra.
Outra das formas de prevenção da doença bipolar é permitir que os colaboradores quando estão doentes possam tratar-se sem recearem perder o emprego devido à sua ausência nessa fase. É assim fundamental, acrescenta, que “as capacidades das pessoas sejam reconhecidas e adaptadas às funções que exercem num grau de exigência normal, para que fiquem mais satisfeitas e produzam mais”, remata.
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