A Pediatria Portuguesa
No momento em que escrevo este artigo a pediatria portuguesa está no centro de um debate, infelizmente pouco participado, que tem na Carta Hospitalar apresentada pela Alta Autoridade (1) e, colateralmente, na legislação que reorganiza os cuidados de saúde primários (2), alguns dos seus pólos.
Este país tem hoje 1 874 754 residentes com menos de 17 anos, e esse número, segundo as previsões, diminuirá nos próximos anos. A natalidade baixou substancialmente, compensada pelo aumento da população emigrante.
As taxas de mortalidade infantil, neonatal, e de 1 aos 4 anos em Portugal continuam a baixar e são, habitualmente, apresentadas com orgulho e como prova de sucesso de políticas reformistas no sector materno-infantil, que datam dos anos 80,mas não tiveram o acompanhamento e a monitorização exigível nem intervenções equivalentes nos outros sectores da saúde da criança e do adolescente.
Em 2005, existiam em Portugal cerca de 1400 pediatras, dos quais 1/3 com mais de 60 anos. O número de jovens médicos no internato de pediatria permite substituir, sem sobressalto, os que cessarão a actividade. O ratio é de 1 pediatra para 1 100 crianças, próximo do dos países europeus, mas muito desequilibrado na sua distribuição geográfica.
A população de Lisboa tem muito mais pediatras, muito menos Médicos de Família e menos Centros de Saúde que o resto do país (3). Esta situação excepcional teve, pelo menos, duas consequências: para os que não vêm para lá do vale do Tejo, criou uma falsa imagem dos recursos disponíveis e a ilusão de que os especialistas em pediatria seriam capazes e suficientes para assegurar, na totalidade, os cuidados de saúde.
Aos investidores deu uma margem de oportunidade para o investimento, aproveitada, historicamente pelo pediatra de consultório e, na actualidade, por uma onda de empresas privadas ligadas aos bancos e seguradoras que, sempre com a protecção estatal, assalariou a maior parte dos profissionais que recruta nos hospitais do SNS.
Entretanto, e apesar das distorções criadas pelo crescimento de um sector privado, o modelo assistencial definido pelo SNS entrega os cuidados de saúde primários ao médico de família.
Mais de 90% das consultas são realizadas nos centros de saúde pelos médicos de família e, os dados disponíveis permitem, segundo alguns, concluir que este sistema é eficaz e eficiente. Mas, neste início do milénio, a reflexão sobre o tipo de médico de que as crianças necessitam, das suas competências, dos saberes que deve dominar, do treino que lhe é exigido – e que alguns lançaram em tempo apropriado – está por terminar e, com ela, uma resposta satisfatória a esta questão.
Os pediatras estão sobretudo concentrados nos hospitais. Ao longo dos últimos anos a pediatria desenvolveu áreas com técnicas e saberes específicos. A Sociedade Portuguesa de Pediatria conta actualmente com 15 secções em actividade, reflectindo várias subespecialidades, que a Ordem do Médicos, com a habitual lentidão, vai reconhecendo.
Os Serviços de Pediatria são, agora, dominados pelo modelo da compartimentação subespecialista, que ouve pouco, pede muitos exames e parece detestar o objecto.
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