A Pediatria Portuguesa
Importa contrariar este modelo patológico através de uma cultura e de uma organização que preservem uma visão global da criança, nomeadamente através da exigência de contratação de um núcleo duro de pediatras gerais para os serviços de urgência, internamento e ambulatório de referência, bem como de cuidados continuados, sobretudo para os portadores de patologia crónica, que reduzam ao mínimo o tempo de internamento, encarado sempre como uma descontinuidade nociva à estabilidade e ao desenvolvimento.
A comunicação entre os médicos de família, nos Centros de saúde, e os pediatras hospitalares, é vital e passa por soluções de articulação que algumas regiões desenvolveram, mas que, infelizmente, a legislação mais recente (2), inspirada pela Unidade de Missão dos Cuidados de Saúde Primários, menosprezou.
A sociedade ocidental, em crise regressiva, gosta de declarar o seu apreço à infância, e os temas infantis parecem ocupar um lugar de relevo. É preciso que esta prioridade declarada tenha reflexos nas decisões. Que os critérios de financiamento dos serviços e hospitais respeitem a circunstância pediátrica.
Que o Programa Nacional de Saúde não se limite a declinar metas relativas à saúde da criança e do adolescente, mas tenha meios para as levar a cabo e modo de as controlar, nomeadamente através de um Alto Comissário adjunto ou da revitalização da Comissão Nacional para a Saúde da Criança e do Adolescente, no que diz respeito à sua composição e funções.
Tal como exige estar presente onde se decida da saúde da criança também a Pediatria tem de estar aberta aos outros profissionais que dela se ocupam. À enfermagem, praticando nos locais de trabalho os estilos de cooperação e complementaridade que se defendem para o exterior.
Aos profissionais de outras áreas: psicólogos, nutricionistas, fisiatras, terapeutas, educadores, assistentes sociais, técnicos de saúde, directa ou indirectamente implicados no bem-estar da criança e do adolescente. Tem que mergulhar na sociedade. Estar aberta à diferença, das novas famílias, das crianças emigrantes, das crianças negligenciadas ou vítimas de violência.
A realização em Outubro deste ano do congresso da Sociedade Portuguesa de Pediatria, escolhendo como temas transversais o desporto, o medicamento e o comportamento, com mais de 60% de conferencistas provenientes destas áreas afins à pediatria médica, será um bom momento para avaliar os ventos que sopram, e em que direcção, na pediatria portuguesa.
(1) No site do Alto Comissariado para a Saúde (http://www.acs.min-saude.pt/2008/04/04/) e no da SPP (www.spp.pt), proposta da Comissão Nacional da Saúde da Criança e Adolescente (CNSCA) para a Carta Hospitalar de Pediatria
(2) Decreto – Lei nº 28/2008
(3) José Carlos Peixoto, comentário no site da SPP, http://www.spp.pt/noticias/default.asp?IDN=46&op=2&ID=132
Dr. Luís Januário,
Presidente da Sociedade Portuguesa de Pediatria
Saúde em Revista
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