O retrato actual da fibromialgia
«A fibromialgia não é uma doença, mas sim uma síndrome de dor músculo-esquelética difusa, não inflamatória, não articular, com pontos dolorosos à palpação muscular em locais definidos.
As alterações do sono e a fadiga acompanham frequentemente a dor», explicou o Prof. Jaime Branco, reumatologista do Hospital de Egas Moniz, durante o II Fórum de Fibromialgia da MYOS (Associação Nacional Contra a Fibromialgia e Síndrome da Fadiga Crónica), que decorreu no passado dia 4 de Junho, em Oeiras.
O problema que afecta entre 2 a 5% da população adulta não revela qualquer causa ou sinal bioquímico que justifique a dor, sendo apenas as queixas dos doentes a única forma de adivinhar um diagnóstico.
«A ausência de sinais objectivos dificulta o diagnóstico. Não há inflamação, não há infecção, apenas dor em vários pontos do corpo», avançou o especialista, que é também presidente do Conselho Técnico-científico da Myos.
Cerca de 90% dos doentes são mulheres entre os 20 e os 50 anos.
A fadiga, o sono superficial e não reparador, a depressão psíquica, a ansiedade, as dores de cabeça, a dormência de pés e mãos, a irritabilidade, os problemas psicológicos, a disfunção cognitiva e as dores espalhadas por todo o corpo são os principais sintomas apontados por quem sofre de fibromialgia.
Em nenhum momento se verifica inflamação ou deformidade nas articulações e os movimentos não estão limitados, a menos que, para além de fibromialgia, o doente seja também portador de uma outra doença como a artrite reumatóide, por exemplo.
Causas desconhecidas
Não havendo qualquer causa bioquímica, anatómica ou imunológica que justifique as dores de que se queixam os doentes, o que causará, então, tal sofrimento?
«Encontram-se poucos sinais objectivos no corpo do doente e ignoram-se ainda as causas da fibromialgia. Sabe-se que há um distúrbio no processamento da dor que faz com que esta se mantenha, mesmo depois do estímulo que a causou ter desaparecido.
Pode ter origem numa agressão física ou emocional», proferiu Jaime Branco.
E continuou: «A fibromialgia é a estação terminal resultante do aumento da dor, da fadiga e da depressão. Como se costuma dizer depreciativamente, a fibromialgia até pode estar na cabeça dos doentes, mas não é por isso que deve deixar de ser tratada.»
As causas e os mecanismos que desencadeiam a fibromialgia não estão, portanto, esclarecidos, bem como se haverá ou não uma predisposição familiar para o desenvolvimento da síndrome.
Não há exame, de imagem ou laboratorial, que confirme ou exclua a presença de fibromialgia, daí que as queixas subjectivas dos doentes sejam preciosas para o diagnóstico.
«Qualquer pessoa bem informada sobre a fibromialgia pode simular as dores e conduzir o médico a um falso diagnóstico. Contudo, este facto não deve levar nenhum especialista a desvalorizar ou a subestimar o sofrimento de um doente.
Se há queixas de dor, temos que partir do princípio que o doente está realmente a sofrer.
Se houver durante mais de três meses uma dor generalizada por todo o corpo, dor à palpação em 11 dos 18 pontos de referência, fadiga, alterações do sono, perturbações emocionais e dores de cabeça, então pode estar definido um quadro de fibromialgia», salientou o reumatologista.
Para além das queixas dos doentes, o especialista pode basear-se em exames que afastem ou confirmem a presença de outras doenças caso haja ainda dúvidas em relação à presença de fibromialgia, dado que muitos dos sintomas que revela são semelhantes aos apresentados por outras doenças.
Terapêutica individualizada
Se é difícil diagnosticar a fibromialgia, não menos complicado será tratá-la. A diversidade de sintomas apresentados pode exigir um vasto leque de soluções terapêuticas.
Em primeiro lugar o exercício físico para manter os músculos activos e não permitir que entrem em progressivo declínio de função. As dores levam, por vezes, a que os doentes procurem repousar. Porém, nem sempre essa será a melhor hipótese.
De acordo com as capacidades de cada doente, deve ser elaborado um plano de treino tendo em vista a saúde, a boa forma e a auto-estima.
Ginástica aeróbica, caminhadas a um ritmo certo, exercício em água quente, como hidroginástica, são opções que devem ser escolhidas pelos doentes com aconselhamento do médico.
Para além desta medida terapêutica, a fibromialgia exige também que sejam tomadas medidas farmacológicas.
«Antidepressivos tricíclicos e outros, ansiolíticos, estimulantes, analgésicos, relaxantes musculares e anticonvulsionantes são alguns dos medicamentos recomendados para doentes de fibromialgia, contudo devem ser prescritos de acordo com os sintomas individuais de cada um.
Não há um tratamento padrão que se adapte a todos de forma igual», avançou Jaime Branco.
Abordagem multidisciplinar
Embora esteja, desde 1992, reconhecida pela Organização Mundial de Saúde como uma doença reumática, a fibromialgia exige cada vez mais a abordagem de outras especialidades médicas.
Psicólogos que avaliam o estado psíquico e emocional dos doentes, anestesistas que sabem como lidar com a dor, clínicos gerais que são geralmente quem primeiro detecta a presença da fibromialgia, fisiatras e um vasto grupo de especialidades que melhor ajudam a entender o problema e a procurar respostas terapêuticas.

