Cronobiologia e nutrição
Já alguma vez se questionou sobre a razão de acordarmos frequentemente antes de o despertador tocar? Ou de sentirmos fome a determinadas horas do dia mesmo sem termos visto alimentos? Estes são exemplos de comportamentos que se manifestam por indicação do nosso “relógio biológico”, o núcleo supraquiasmático.
Esta pequena estrutura cerebral dita o ritmo dos processos fisiológicos e comportamentais. A duração de cada ciclo é circadiana (ou seja, cerca de um dia), pelo que o núcleo supraquiasmático precisa de receber informação das células ganglionares da retina para “acertar o relógio” às 24 horas.
Desta forma, o sincronizador mais potente do nosso “relógio biológico” é, sem dúvida, a luz solar. A evolução deste mecanismo foi fundamental para a adaptação do organismo ao movimento de rotação da Terra, permitindo organizar temporalmente as tarefas biológicas em função das necessidades.
O núcleo supraquiasmático integra a informação ambiente e comunica, por via neuronal ou hormonal, com os tecidos periféricos ritmando e sincronizando a sua função.
O relógio circadiano controla vários processos biológicos, tais como os ciclos de sono, a actividade cardiovascular, o sistema endócrino, a temperatura corporal, a actividade renal, a fisiologia do tracto gastrointestinal e o metabolismo hepático. Os níveis mais elevados de pressão arterial, frequência cardíaca e vasoconstrição, por exemplo, são atingidos no segundo quarto do dia (6h-12h), o que pode explicar a maior taxa de mortalidade cardiovascular neste período. Esta conjuntura levantou algumas questões quanto ao melhor momento para a administração de fármacos para a redução do risco cardiovascular. Noutro contexto, há alguma investigação em humanos que indica que o risco de recidiva tumoral é 2,5 vezes maior quando a quimioterapia é feita de manhã do que à noite.
Consequências das perturbações de sincronização
A perturbação da sincronização entre o núcleo supraquiasmático e os estímulos ambientais pode levar ao desequilíbrio hormonal, doenças psicológicas, desordens do sono, doenças cardiovasculares, redução da esperança de vida e aumento do risco de cancro. A descrita associação inversa entre o número de horas de sono e a obesidade pode dever-se ao desregulamento do ciclo hormonal. A hormona de crescimento é segregada maioritariamente durante a primeira metade da noite e, teoricamente, um sono reduzido poderia leva a menores concentrações desta hormona com actividade lipolítica.
Uma vez que as hormonas e enzimas envolvidas no metabolismo dos nutrientes também exibem oscilações circadianas, a resposta metabólica ao que comemos pode ser diferente conforme o momento do dia em que o fazemos.
Um exemplo paradigmático é o aumento exacerbado dos níveis de glicose e triacilgliceróis às refeições ingeridas durante a noite. Esta resposta biológica alterada pode explicar o motivo dos trabalhadores nos turnos da noite apresentarem uma maior prevalência de obesidade e síndrome metabólico.
Alimentação e ritmo biológico
Por outro lado, a restrição energética ou o momento da ingestão das refeições podem influenciar o ritmo dos processos biológicos. A alimentação é um sincronizador do “relógio biológico”, ainda que não tão potente como a luz. Podemos recorrer à manipulação das horas das refeições como ferramenta para amenizar a dessincronização entre os estímulos externos e os ritmos circadianos endógenos que se instala, por exemplo, quando se cruzam vários fusos horários numa viagem de avião. O quadro sintomático desse desajuste (jet lag) pode ser minorado por intervenções nutricionais.
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