Esta descoberta vai permitir que no futuro os doentes possam receber tratamento recorrendo ao conceito de Cronoterapia
Uma equipa de investigadores do Instituto de Medicina Molecular, liderada por Luísa Figueiredo e em colaboração com o grupo de Joe Takahashi da Universidade Southwestern, Dallas, EUA, demonstrou pela primeira vez que o parasita responsável pela doença do sono, o Trypanosoma brucei, tem o seu próprio relógio interno. Este relógio permite ao parasita antecipar as alterações diurnas do meio que o rodeia, tornando-se assim mais virulento.
O artigo, publicado na revista Nature Microbiology, revela que os parasitas vão modificando ligeiramente a sua composição a as suas funções consoante a hora do dia. Estas alterações são altamente previsíveis e repetem-se todos os dias. Uma das consequências é que os parasitas são mais sensíveis ao tratamento com um certo fármaco durante a parte da tarde do que de manhã.
Todos nós temos um relógio interno que permite que o nosso organismo saiba que “horas são”, mesmo sem olharmos para o relógio. Quando viajamos para países com uma grande diferença horária da origem, ficamos com “jet lag” precisamente porque o nosso corpo julga que estamos a uma determinada hora do dia, mas o relógio do destino indica outra hora muito diferente. O relógio interno, chamado também relógio circadiano, permite aos organismos estarem ajustados e anteciparem variações diurnas que acontecem a cada 24 horas.
A equipa já sabia que o parasita interfere com o relógio interno do seu hospedeiro, e daí surgirem os episódios de sono que dão o nome à doença. No entanto, não se sabia se o parasita teria o seu próprio relógio.
“Este foi um daqueles projetos de alto risco! Mas valeu a pena porque funcionou,” comentou Filipa Rijo-Ferreira, a estudante de doutoramento do GABBA, que liderou este projeto.
A equipa identificou uma forma de sincronizar os parasitas para a mesma hora do dia e a partir daí sequenciou o seu transcriptoma, uma espécie de impressão digital genética. Com a ajuda de ferramentas de bioinformática, a equipa encontrou padrões de variação diurna que, no fundo, indicam que há processos dentro do parasita que oscilam ao longo do dia.
No tratamento de doentes com a doença do sono, “podemos no futuro vir a administrar o fármaco a determinadas horas do dia por se saber que nessa altura o tratamento será mais eficaz. Este conceito de administrar uma terapia a uma determinada hora do dia, conhecido como cronoterapia, já se faz em outras patologias como asma e cancro, mas nunca foi aplicada para o tratamento de doenças infecciosas”, concluiu Luísa Figueiredo.
A doença do sono é uma doença infecciosa que, na maioria dos casos, é fatal. É transmitida pela mosca tsetse e, por isso, existe apenas na África sub-sariana. Não há vacinas contra desta doença e as
formas de tratamento apresentam vários problemas, como serem difíceis de administrar e serem tóxicas. Atualmente há cerca de 7000 casos por ano. A Organização Mundial de Saúde (OMS) pretende eliminar a doença até 2020.