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Cansaço mental » Fadiga a quanto obrigas…

fadiga

Nas grandes cidades de modelo ocidental, o desgaste decorrente do esforço diário leva a um estado quase permanente de agitação e fadiga. O stress é o conjunto de reacções físicas e psíquicas do organismo a diversos factores de agressão externa e às emoções que sentimos, que vai exigindo uma série de mecanismos sucessivos de adaptação.

Todos nós precisamos de algum stress para nos sentirmos motivados para as tarefas do dia-a-dia e sem ele, efectivamente, o tédio tomaria conta das nossas vidas. Além disso, o stress representa também uma resposta útil do nosso organismo, que responde fazendo «soar» uma espécie de alarme ou mecanismos de defesa quando estamos menos preparados para responder a essas solicitações diárias.

Naturalmente que o nível mínimo de stress de que cada indivíduo precisa é relativo, já que cada pessoa apresenta, face a uma situação que o ameaça, um limiar de reacção que lhe é próprio e que depende do estado de saúde, das experiências passadas, da estrutura da sua personalidade e do grau de integração social. São esses factores que lhe permitem, eventualmente, encontrar apoio entre os membros da sua família, dos seus amigos ou mesmo noutras relações mais próximas.

No entanto, seja em que circunstância for, um stress intenso e prolongado tem sempre consequências negativas. Como a duração é também um elemento importante na resposta ao stress, alguns «habituam-se» rapidamente a uma agressão prolongada, outros não conseguem essa adaptação. Nesses casos, pode surgir uma fadiga que pode ser física, psíquica ou ambas e que vem desvirtuar significativamente a qualidade de vida.

Um sintoma, apenas

De um modo geral, «a fadiga é um sintoma que aparece numa série enorme de patologias, quer do foro físico como psíquico, e por si só raramente constitui uma doença», esclarece o Dr. Manuel Gonçalves, neurologista.

No plano psicológico, o stress está ligado à ansiedade e à angústia. Se o estado de stress se mantiver durante um certo período de tempo produzirá fadiga mental e, nas pessoas mais frágeis, pode até levar a uma síndroma denominada astenia crónica, ou seja, um estado de esgotamento, do qual é difícil recuperar. Mas «só in extremis e quando não se encontra uma outra causa associada é que é equacionada a hipótese de síndroma de fadiga crónica», salienta Manuel Gonçalves.

Do ponto de vista neurológico, há uma série de doenças que se acompanham de fadiga, nomeadamente «as doenças degenerativas, como a doença de Parkinson, doenças inflamatórias do sistema nervoso, como a esclerose múltipla, uma série enorme de perturbações do foro muscular, como as miopatias e neuropatias».

Depois há, ainda, as doenças do foro psíquico, «que se revelam com perturbações do humor, como a maior parte das situações depressivas, que a partir de algum tempo começam a acompanhar-se de fadiga, desmotivação, desânimo ou desinteresse».

Por alguma razão as pessoas dizem que têm um esgotamento e sentem a sensação física desse mesmo esgotamento…

Sintomas inespecíficos

Por vezes, torna-se difícil distinguir qual o problema que o doente tem, pois este apresenta um quadro de fadiga em conjunto com outros sintomas pouco claros.

Por exemplo, «numa situação de depressão crónica, as queixas de fadiga e de falta de memória são recorrentes, mas muitas vezes essas queixas a nível cognitivo prendem-se mais com a atenção e a concentração do que propriamente com a memória», explica o neurologista.

Acontece que as perturbações da memória costumam ser patológicas, enquanto que as perturbações da concentração e da atenção têm mais frequentemente origem nos problemas sociais e ambientais.

O tratamento da fadiga e das perturbações cognitivas eventualmente associadas passa necessariamente pelo tratamento da causa, embora haja casos em que a fadiga por si só constitua um problema e possa ser tratada com recurso a fármacos.

«Há situações como a esclerose múltipla em que a fadiga é um sintoma de per si e que, por isso, é tratada com medicamentos próprios. Muitas vezes temos o doente equilibrado, sem surtos, recuperado do ponto de vista motor, mas tem permanentemente uma grande fadiga que não consegue compensar com fisioterapia ou dieta especializada. Nesses casos, há medicamentos destinados a tratar especificamente essa fadiga», analisa o especialista.

Na maioria dos doentes, a fadiga não é um problema isolado, mas antes um sinal de alarme, reflexo de uma alteração física ou psíquica. Sabe-se, contudo, que a ansiedade, o stress, as alterações de humor, as depressões e outros problemas de foro psicológico se revelam como grandes causadores de cansaço e por isso devem ser combatidos desde cedo.

Dormir bem, para acordar melhor…

Quase todas as perturbações do sono se acompanham de fadiga: alterações do ritmo de sono e respiratórias, alterações do movimento também durante o sono, insónias ou parassónias levam a que de manhã a pessoa se levante já fatigada.

«Se o sono não foi reparador, a pessoa sente-se cansada. O sono reparador varia de indivíduo para indivíduo, havendo por isso quem se contente em dormir 4/5 horas (short sleepers), enquanto há quem precise de 9/10 (long sleepers)»

, explica o neurologista.

A maior parte das pessoas que, com regularidade, tem um sono não reparador sente fadiga intelectual, física e menor rendimento laboral. Esse cansaço vai também repercutir-se ao nível de diversas funções cognitivas, como a memória, a concentração e o raciocínio, entre outras…

«A maior parte de nós sabe o que é dormir com qualidade, porque dormiu com qualidade na infância. Muitas vezes são as vicissitudes da vida e os projectos em que a pessoa está envolvida que retiram essa qualidade ao sono»

, admite Manuel Gonçalves, acrescentando:

«Deste modo, é sempre bom saber medidas simples para se poder dormir bem, tais como ir para a cama despreocupado, relaxado do ponto de vista físico e emocional, evitar actividades muito intensas e discussões antes de dormir, não assistir a filmes demasiado excitantes ou interessantes antes de dormir e sem a barriga estar demasiado cheia ou com fome.»

Por outro lado, o consumo de excitantes, como o café, a coca-cola ou o chá preto, também inibem um sono reparador.

Além destas medidas, algumas dúvidas se prendem com o consumo de álcool:

«Muitas pessoas associam o álcool a dormir mais depressa e conseguir adormecer melhor, mas isto não é bem certo. O álcool numa dose baixa descontrai, quebra a ansiedade, proporciona algum relaxamento, mas se nalgumas situações o álcool pode ser um razoável indutor do sono, em excesso será, seguramente, um fragmentador do sono, tornando-o mais superficial»

, defende Manuel Gonçalves.

Há, ainda, casos de pessoas que estando nitidamente cansadas e sentindo que o corpo precisa de descanso, quando se deitam não conseguem adormecer porque estão bastante excitadas e não conseguem relaxar. «Por essa razão, o relaxamento é uma das condições para adormecer depressa e com qualidade. Se a pessoa está especialmente cansada, excitada, agitada ou com algum problema que a preocupa, dificilmente consegue adormecer de imediato», observa o neurologista.

E prossegue:

«O meu conselho para quem fica a trabalhar até tarde e depois deixa o trabalho para ir para a cama é que entre o trabalho e a hora de dormir haja um intervalo. Recomendo que se sentem à frente da televisão, mesmo que seja tarde, descontraiam, leiam um livro desinteressante ou maçador e só depois desse relaxamento é que vão para a cama dormir, já com sono e com facilidade em adormecer.»

Vale a mesmo a pena seguir os conselhos se pensarmos que quem dorme mal não passa o dia bem…

 

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