Com o advento do Inverno, as baixas temperaturas propiciam o aparecimento de um sintoma, no mínimo, incómodo: a tosse. Mas, à partida, não há sinal para alarme. Não fossem os ataques de tosse, antes de mais, um mecanismo de defesa do organismo para libertar as vias aéreas.
Surge sorrateira e, a dada altura, já está presente quase minuto a minuto do dia e da noite. Durante o período nocturno, os ataques de tosse podem tomar de assalto o sono das crianças, ao ponto de se tornarem um verdadeiro pesadelo até para os próprios pais. Mas, para além do incómodo e preocupação que provoca, não há motivos para pânico, a não ser que este sintoma persista. A tosse não é mais do um mecanismo de defesa natural do organismo, quando confrontado com substâncias que podem congestionar as vias respiratórias, nomeadamente, a expectoração, as poeiras ou o fumo do tabaco. “Trata-se de um acto reflexo, que protege da acumulação de muco nos pulmões, ao mesmo tempo que promove a secreção de substâncias estranhas ou irritantes”, explica o Dr. Armando Fernandes, pediatra. Por norma, os episódios de tosse têm uma duração média de dias. Caso este sintoma permaneça mais do que três semanas, será necessário, junto do médico pediatra, perscrutar a sua origem. De acordo com o especialista, estas são “situações particulares e crónicas”, que necessitam de uma observação mais atenta, por poderem denunciar a presença de uma patologia subjacente: asma, doença cardíaca ou fibrose quística. A tosse não é toda igual À primeira vista, não será fácil identificar o tipo de tosse. O som ruidoso, emitido aquando da libertação brusca de ar, não permite, só por si, categorizar a sua tipologia. E como se pode definir? Na perspectiva de Armando Fernandes, a classificação da tosse depende da presença ou ausência de expectoração. “Quando se trata de tosse seca e presa, não existe expectoração associada. Por outro lado, perante uma tosse não produtiva com congestão, a falta de humidificação das vias respiratórias ou a existência de uma broncoconstrição excessiva, impede a libertação da expectoração, contrariamente ao que se passa na tosse produtiva com congestão, em que se observa a expulsão de secreções”, salienta o pediatra. E adianta que, opostamente ao que acontece com os adultos, “as crianças dificilmente expectoram”. Através do vómito – um mecanismo indirecto de libertação – “expelem, involuntariamente, o conteúdo gástrico e as secreções brônquicas deglutidas previamente”. Os tratamentos, tal como indica o pediatra, devem estar direccionados ao tipo de tosse, tentando, “sempre que possível, eliminar a sua causa”. No entanto, algumas receitas caseiras podem ajudar a resolver o problema. “Em bebés com menos de um ano, pode-se administrar um xarope de milho. Em crianças mais crescidas, os pais podem recorrer ao tradicional ‘ xarope de cenoura’, que consiste numa fórmula simples: bater a cenoura num liquidificador, coar, adicionar mel e ferver o preparado, até ficar com um aspecto mais espesso ”, esclarece o especialista. Existem estudos recentes que demonstram os efeitos benéficos do mel na atenuação da tosse. Aliás, como aconselha Armando Fernandes, a ingestão de líquidos mornos, como seja o chá de limão, complementados com mel, podem ajudar a acalmar a tosse. Em situações de corrimento nasal, os pais devem, sempre que possível, “reforçar os recursos hídricos, aplicando soro fisiológico ou água do mar esterilizada”. Os habituais xaropes para a tosse – os antitússicos – “raramente são úteis”, diz o pediatra, acrescentando que, por outro lado, “alguns expectorantes ajudam a soltar as secreções”, nomeadamente em situações de tosse seca.
O que é a tosse convulsa? Geralmente, é um tipo de tosse irritante, dolorosa e persistente no tempo. A tosse convulsa, considerada “uma doença altamente contagiosa e perigosa para as crianças”, provocada pela bactéria Bordetella pertussis, é passível de prevenção, através da vacina. Como explica o pediatra Armando Fernandes, a vacinação é, até ao momento, “a única medida eficaz, capaz de erradicar esta patologia”. Segundo o especialista, a tosse convulsa – principalmente em lactentes com idade inferior a meio ano – apresenta uma taxa de 1% de mortalidade nos dois primeiros meses de vida. Os sintomas iniciais de tosse convulsa não se revelam “muito inquietantes: constipação, tosse, um pouco de febre”. Mas, à medida que os sintomas se avolumam, “as crises sucessivas e violentas dificultam a respiração, até à altura em que a criança emite uma espécie de silvo agudo [respiração ruidosa]”. Esta doença, “em geral, não é especialmente grave, mas é longa – pode ter uma duração de 6 a 8 semanas – e fatigante para a criança”, adianta o pediatra. E prossegue: “Para um bebé, sobretudo se tem menos de 3 meses, é mais perigosa. As crises de tosse tornam a respiração mais difícil e produzem vómitos que podem desidratar ou, pior, conduzir à asfixia.”
Jornal do Centro de Saúde
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