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Meningite por pneumococo pode ser prevenida

O Grupo de Estudo da Doença Invasiva Pneumocócica apresentou resultados de um estudo retrospectivo que analisou os casos relacionados com esta patologia.

O agente patológico em questão é o pneumococo, uma bactéria responsável não só pela forma mais grave de meningite, como por outros problemas de saúde.

Esta bactéria aloja-se entre a garganta e o nariz, sendo a criança o principal reservatório deste agente. Em condições normais, a bactéria permanece inofensiva mas, se «surgir algum problema que altere o sistema imunitário, a bactéria pode deslocar-se usando para o efeito a circulação sanguínea e alojar-se nos pulmões, articulações e, mais grave, no cérebro».

São palavras da Dr.ª Maria João Brito que coordenou este estudo orientado pela Secção de Infecciologia Pediátrica da Sociedade Portuguesa de Pediatria. Esta pediatra é actualmente responsável pela consulta de Infecciologia Pediátrica do Hospital Fernando Fonseca (HFF).

A investigação abrangeu um período de 10 anos, entre 1991 e 2001 e contou com a participação de 28 hospitais portugueses. Identificaram-se 375 crianças com o diagnóstico de doença invasiva pneumocócica (DIP). Destas, 196 tiveram meningite, 102 pneumonias com bacteriemia, 36 septicemia, 36 bacteriemia oculta e 23 outras bacteriemias.

Esta especialista adianta que «o número de casos de meningite por esta bactéria não tem diminuído ao longo dos anos». As meningites podem ser precedidas por infecções virais, que alteram as «defesas» das crianças e aumentam assim a susceptibilidade a este tipo de doença.

As complicações causadas pelo pneumococo

«Esta bactéria», sublinha Maria João Brito, «é causa de doença muito grave, nomeadamente, meningites, septicemias ou pneumonias graves, entre outros problemas de saúde».

O pneumococo pode não só originar doença e morte como ser ainda responsável por sequelas a longo prazo. «Surdez profunda, atraso no desenvolvimento, epilepsia, dificuldades de aprendizagem, alterações do comportamento e outros tipos de sequelas graves», explica a médica.

O estudo em apreço foi realizado no período que antecedeu a introdução de uma vacina contra o pneumococo, indicada em crianças com menos de 2 anos e licenciada em 2001. «A breve prazo, e numa segunda fase do estudo, será avaliado o impacto da vacina, a partir da altura que foi comercializada, no combate à doença», revela a médica.

No estudo realizado, a incidência da meningite pneumocócica foi maior «em crianças com menos de 1 ano de idade e ocorreu mais frequentemente entre os meses de Outubro e Março».

Do mesmo modo pôde ser retirada a conclusão de que a meningite por pneumococo foi responsável por uma taxa de mortalidade de 3%. Mas as preocupações dos especialistas não se ficam por aqui. Dirigem-se também para as consequências nas crianças que sobrevivem à infecção.

Diz a especialista que «de todas as crianças que não morreram, constatou-se que 39,7% tiveram complicações graves». A saber: problemas neurológicos, como epilepsia, paralisias, alterações na linguagem e outros com compromisso neurológico sério, alguns dos quais que vieram a necessitar de neurocirurgia.

Em relação às crianças que sobreviveram, Maria João Brito explica que «nos dados recolhidos verificou-se que 12% ficaram com surdez grave e 10% com atraso no desenvolvimento e epilepsia».

A vacina

Este estudo permitiu ainda sustentar outra conclusão centrada num grupo específico de crianças – aquelas que já nasceram ou que mais tarde vieram a desenvolver doença crónica. Seja ela pulmonar, renal ou cardíaca. Estes doentes habitualmente são denominados como «grupos de risco». São mais susceptíveis a esta doença grave e «constituíram cerca 25% do total dos casos que vieram a ter meningite por pneumococo», afirma a médica.

Daí que esta pediatra conclua que «é muito importante que estes grupos, considerados de risco tenham acesso à vacina. A Secção de Infecciologia Pediátrica da Sociedade Portuguesa de Pediatria aconselha que a vacina seja administrada gratuitamente aos chamados grupos de risco».

No entanto, a especialista salienta que «pelo facto de ser dispendiosa, impossibilita que todas a crianças, nomeadamente as que pertencem a meios socioeconómicos mais desfavorecidos, possam beneficiar desta vacina.

Este aspecto é preocupante já que também as crianças saudáveis, tal como as outras, podem vir a desenvolver complicações, morrer ou ter sequelas graves devido a uma meningite pneumocócica».

Ainda no âmbito das crianças saudáveis, aquelas com idades até aos 2 anos parecem ser mais susceptíveis às meningites. O mesmo se pode dizer das crianças que não beneficiaram do aleitamento materno, as que têm um grande número de irmãos em casa ou que frequentem o infantário.

O esquema vacinal para o pneumococo inclui a administração de uma dose aos 2, 4 e 6 primeiros meses de vida e depois um reforço com uma quarta dose entre os 15 e 18 meses.

Esta bactéria, no entanto, não é apenas responsável por meningite. As otites, tão frequentes na criança, são também na sua maioria da responsabilidade deste agente patogénico.

«A vacina pode também conferir alguma protecção ao diminuir o número de otites, o número de crianças doentes, a ausência dos pais no trabalho e a utilização de antibióticos. O mesmo acontece em relação à pneumonia em que a vacina já demonstrou ser eficaz», refere a médica.

Maria João Brito acrescenta que a vacina contra o pneumococo «tem também influenciado a doença por este agente em idosos. Paralelamente à diminuição da incidência de doença nas crianças, também os que convivem com elas beneficiam dessa protecção, nomeadamente, por exemplo, os avós».

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