A memória não está localizada numa estrutura isolada no cérebro. Ela é um fenómeno biológico e psicológico que envolve uma aliança de sistemas cerebrais que funcionam juntos. A diferença entre memorizar a data de aniversário de alguns amigos e aprender a andar de bicicleta reside no facto de existirem diferentes categorias de memória.
A memória não é mais que um mecanismo de retenção de informações. É através desse processo complexo que as nossas experiências são arquivadas e recuperadas quando precisamos delas. A memória está intimamente associada à aprendizagem, pois ela constitui a habilidade de conseguirmos mudar o nosso comportamento através das experiências que foram armazenadas.
A aprendizagem não é mais que a aquisição de novos conhecimentos, enquanto a memória é a retenção dos conhecimentos aprendidos.
Toda a nossa vida, aprendemos coisas e lembramo-nos de factos e experiências, mas estes não são processados sempre pelo mesmo mecanismo neural. Existem diferentes categorias de memórias: de uma maneira geral podemos classificar a memória em recente e de longo prazo. Esta pode dividir-se em memória declarativa, que é a memória para factos e eventos – como números de telefone, factos históricos, datas, entre outros; e a memória processual relacionada com os procedimentos e actividades, de que são exemplo a habilidade para conduzir, jogar à bola ou andar de bicicleta.
Consolidar pela repetição
A memória para datas é mais fácil de se formar, mas ela é facilmente esquecida, enquanto a processual tende a requerer repetição e prática.
Quando alguém nos dita um número de telefone, rapidamente somos incapazes de nos lembrarmos de parte ou de todos aqueles números. Isso porque existe uma memória que é temporária, e que é limitada na sua capacidade, sendo armazenada por um tempo muito curto no cérebro, na ordem de um segundo a poucos minutos, podendo chegar a 24 horas. Esta memória é chamada de memória de curta duração.
Para que ela se torne permanente, requer atenção, repetições e ideias associativas. Mas, através de um mecanismo ainda não conhecido, é comum uma pessoa lembrar-se subitamente de um facto esquecido, como aquele número de telefone…
Neste caso, a informação foi armazenada na memória de longa duração, a qual é mais permanente e tem uma capacidade muito mais ampla.
O processo de armazenar novas informações na memória de longa duração é chamado de consolidação. Uma elaboração do conceito da memória de curta duração que tem sido feita nos últimos anos é a memória operacional, um termo mais genérico para o armazenamento da informação temporária.
Muitos especialistas consideram memória de curta duração e memória operacional como a mesma coisa.
Entretanto, uma característica chave que distingue uma da outra é não somente o seu aspecto operacional, como também as múltiplas regiões no cérebro onde o armazenamento temporário ocorre. Isto significa que podemos não ser conscientes de todas as informações armazenadas ao mesmo tempo na memória operacional, nas diferentes partes do cérebro.
Tomemos como exemplo o acto de conduzir um carro. Esta é uma tarefa complexa que requer diversos tipos de informações processadas simultaneamente, tais como a informação sensorial, cognitiva e motora. Parece improvável que estes vários tipos de informação sejam armazenados num único sistema de memória de curta duração.
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Estimular a memória
Todos sabemos que se não exercitarmos o corpo, ele enfraquece. Depois de algumas semanas na cama, os músculos das nossas pernas diminuem e, por vezes, temos de voltar a “aprender” a andar. É bem possível que, se não usarmos a nossa memória, nos possa acontecer o mesmo.
Pessoas inteligentes e que, durante toda a sua vida, tiveram uma actividade mental intensa têm normalmente menos problemas de memória quando ficam mais velhos. Tal pode estar relacionado com o facto de durante anos terem exercitado a sua mente para estudar, aprender e resolver problemas.
Passatempos como concursos, palavras cruzadas, leitura, jogos de cartas ou, mesmo, tentativas para decorar poesias e outros textos, podem ajudar-nos a evitar os problemas de memória que advêm com a idade.
Existem muitas outras coisas que se podem fazer para melhorar a memória, entre as quais o uso de determinadas técnicas mentais e os cuidados com a nutrição e os medicamentos.
Prestar atenção é também algo decisivo para estimular a memória. Não tente guardar todos os factos que acontecem, mas focalize a sua atenção e concentre-se naquilo que achar mais importante, procurando afastar de si todos os demais pensamentos.
Os inimigos
Para além do esquecimento comum ocorrido normalmente no dia-a-dia das nossas vidas, existem algumas doenças e complicações no cérebro que causam séria perda de memória e também interferem com a capacidade de aprender. A esta inabilidade dá-se o nome de amnésia.
São vários os factores que podem causar perda total ou parcial da memória, desde o alcolismo crónico ao tumor cerebral, passando pela encefalite. Mas as causas mais frequentes de perda de memória reversível incluem o stress, as alterações do sono, depressão e certos medicamentos.
A demência é causa de perda de memória e a sua incidência aumenta com a idade.
Quando o cérebro é sujeito a um traumatismo, pode ocorrer perda da memória manifestada de diferentes formas. A amnésia retrógrada tem lugar quando os eventos ocorridos antes do trauma não são lembrados, mas a pessoa lembra-se de coisas após o trauma. Ao contrário, a amnésia anterógrada ocorre quando os eventos ocorridos após o trauma não são lembrados. Em casos mais severos, a pessoa pode ser incapaz de aprender qualquer coisa nova, como aquele paciente que todas as vezes que encontrava o seu médico o cumprimentava como se fosse a primeira vez que o visse. Existe ainda o caso de amnésia transitória global. É uma forma de amnésia que dura um curto período de tempo e envolve a amnésia anterógrada acompanhada pela retrógrada. Este tipo de amnésia é causado por isquemia cerebral (redução temporária do suprimento sanguíneo).
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Algumas drogas podem causar perda da memória: tranquilizantes, relaxantes musculares, pílulas para dormir, e drogas anti-ansiedade. Algumas drogas cardíacas, usadas para controlar a tensão alta (hipertensão), podem causar problemas de memória e depressão.
O alcoolismo é um dos mais sérios candidatos a afectar a memória. O álcool afecta especialmente a memória de curta duração, o que prejudica a capacidade de reter novas informações. Estudos mostraram que mesmo a ingestão de baixas quantidades de bebida alcoólica durante toda a semana interfere com a capacidade de lembrar.
Já é conhecido que o fumo quebra a quantidade de oxigénio que chega ao cérebro e este facto muitas vezes afecta a memória.
Vários estudos já mostraram que fumadores de um ou mais maços de cigarros por dia tiveram dificuldades em lembrar de faces e nomes de pessoas em testes de memória visual e verbal, quando comparados com indivíduos não fumadores.
Alimentar os neurónios
Uma alimentação equilibrada é essencial em qualquer idade, para as crianças em idade
escolar – uma fase de crescimento e de maiores exigências físicas e intelectuais – assume uma importância particular, que se acentua na altura de testes e exames.
Devem, então, merecer lugar de destaque nas refeições os alimentos ricos em ácidos gordos Ómega3, pois interferem positivamente nas capacidades de memória, raciocínio e aprendizagem. São substâncias que tornam mais fluidas as membranas celulares, facilitando a comunicação entre os neurónios. Um benefício que se retira sobretudo com a ingestão de peixe, que deverão ser consumidos com frequência.
Necessários são também os alimentos que fornecem energia, na medida em que o cérebro a usa como combustível para pensar. É esta a função do pequeno-almoço. Nele devem ter lugar os cereais integrais, uma boa fonte energética, preferível aos chamados açúcares simples – contidos em bolos e bolachas, por exemplo. É que estes são absorvidos muito depressa pela corrente sanguínea, provocando um desequilíbrio químico que afecta a memória e a concentração.
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