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Higiene Íntima: da Puberdade à Menopausa

O conceito de higiene íntima não está bem esclarecido e suscita dúvidas e más interpretações, como confundir higiene de uma região íntima para a mulher com a prática de irrigação vagina.

Quando nos referimos ao conceito de “higiene íntima” estamos a falar do recurso à utilização de um produto que não agrida os genitais externos, com características diferentes da restante superfície corporal, contribuindo para o bem-estar, conforto, segurança e saúde da mulher.

Assim, existe antes de mais um desconhecimento anatómico e fisiológico que, sendo apreendido, evitará a adopção de hábitos prejudiciais de higiene íntima e que vão sendo transmitidos. Um exemplo é o facto de muitas mulheres não usarem um produto de higiene íntima durante a menstruação.

 

MEIO VAGINAL: PH ÁCIDO

O pH vaginal da mulher em idade fértil, após a puberdade e até à menopausa, é ácido. Esta acidez deve-se à presença de ácido láctico. A presença de estrogénios leva à secreção de glicogénio na vagina que, por acção dos bacilos de Doderlein, é transformado em ácido láctico.

É este o elemento responsável pela manutenção do pH ácido (3.8 – 4.2) da vagina, o que impede o crescimento das bactérias “desnecessárias” existentes no meio vaginal, e pela defesa contra as infecções. A maior concentração de glândulas sebáceas, contrariamente ao que se poderia supor, encontra-se na vagina.

A secreção por elas produzida, sebo, deposita-se nas pregas da mucosa vaginal e oxida em contacto com o ar, favorecendo a posterior colonização bacteriana e consequente odor desagradável. Daqui advém o interesse no uso de produtos específicos para higiene íntima e que preservem o pH fisiológico ácido.

Sendo o pH vaginal na pré-puberdade e após a menopausa quase neutro, a aplicação directa de produtos com pH ácido provoca desconforto e irritação. O maior exemplo é a utilização do mesmo produto que a mãe usa para a filha ainda criança.

 

INFECÇÕES

As infecções mais comuns são a candidíase e a tricomoníase. Um outro quadro que não corresponde exactamente a uma infecção mas antes a um desequilíbrio entre as populações que habitualmente povoam o ambiente vaginal é a vaginose.

A candidíase é causada pela Candida albicans, um fungo que faz, habitualmente, parte da flora vaginal e que tem o seu desenvolvimento inibido pela acidez característica da vagina. No entanto, há alturas em que há uma maior susceptibilidade ao seu desenvolvimento, como são períodos de maior tensão emocional – stress -, nos dias que antecedem e durante o período menstrual, bem como durante a gravidez e pós-parto.

Estas alturas justificam a utilização de um produto de higiene íntima, com o intuito de acidificar o meio vagi-nal, alterado nessas circunstâncias.

Outros factores de risco para esta infecção são o uso de antibióticos, a diabetes mellitus e déficits imunológicos. Outros factores predisponentes são a colonização gastrointestinal (higiene menos apropriada, como seja usar o papel higiénico de trás para a frente) e a utilização de vestuário mais justo e de fibra.

As manifestações clínicas induzidas pela infecção com a Candida podem passar pelo desconforto vulvar, ardor, eritema, dispareunia e corrimento esbranquiçado, grumoso, associado a prurido e sem odor marcado.

A tricomoníase tem como agente causador a tricomonas, um parasita associado a maior parte das vezes à transmissão sexual. Os seus sintomas traduzem-se também no eritema e por vezes edema da região vulvar (sobretudo dos grandes lábios), prurido, ardor (sendo este mais acentuado a maior parte das vezes do que o prurido), dispareunia e aparecimento de um corrimento amarelado, por vezes esverdeado, com cheiro forte e desagradável.

A vaginose ocorre, como já foi referido, sem infecção propriamente dita, mas associada a um aumento de determinadas populações bacterianas que se aproveitam da debilitação ou dimi-nuição de outras.

Os agentes mais habitualmente associados a esta situação são a gardnerella e o mobiluncus, e caracteriza-se pelo aparecimento de um corrimento muito abundante, por vezes branco acinzentado, com odor fétido. Em metade dos casos não coexiste qualquer outro sintoma para além do aparecimento deste corrimento.

 

TERAPIAS

O tratamento pode ser feito quer localmente, com a utilização de comprimidos vaginais ou creme, quer por via oral e de curta duração com bons resultados. Por vezes, o desequilíbrio da flora vaginal por deficiência crónica nos bacilos de Doderlein, os responsáveis pela acidificação da vagina, facilita a rep-tição das vulvovaginites por Candida albicans o que pode implicar tratamentos mais prolongados.

 

PRODUTOS

Um produto adequado à higiene íntima deve contemplar o objectivo de prevenir situações que desequilibrem a normal proporção das populações que habitam o tracto genital feminino. Assim, é recomendável um produto com propriedades descongestionantes e tonificantes que mantenha intactas as defesas naturais da mucosa genital.

Não é objectivo desses produtos abolir qualquer tipo de “corrimento”, já que o aparelho genital inferior da mulher, em particular vagina e vulva, têm uma humidade natural, causada por secreções naturais que variam em volume, cor, odor, consistência e viscosidade de mulher para mulher e de acordo com a fase da vida. Antes da puberdade e após a menopausa existe uma secura vaginal característica motivada pelos níveis reduzidos de estrogénios.

É de recordar que o sabão é um detergente e como tal facilita a dissolução e remoção dos resíduos ligados às gorduras, pelo que não tem qualquer vantagem o seu uso no aparelho genital.

Como se não bastasse, apresenta um pH alcalino o que será desde logo agressivo para a vagina que apresenta um meio ácido. O sabonete é habitualmente partilhado e como tal apresenta um risco acrescido de contaminação; por outro lado, a sua exposição leva à deposição de poeiras e sujidade.

Não devem também ser utilizados produtos perfumados, desodorizantes íntimos ou produtos de irrigação vaginal. Por vezes, estes produtos são demasiado agressivos e como tal provocam reacções inflamatórias, tal como o sabão.

 

HIGIENE ÍNTIMA E SEXUALIDADE

O aumento do pH vaginal leva a sinto-mas de desconforto vaginal, tais como secura vaginal e dispareunia (dor durante as relações sexuais). Um bom produto para higiene íntima da mulher é aquele que protege o meio vaginal tendo em conta as suas características, ou seja, não esquecendo que os tecidos que envolvem o aparelho genital têm um pH (4,5) diferente do resto da pele, que é neutro (7).

Além de um pH muito mais próximo do pH da vagina, um bom produto de higiene não deve ter odor, já que o cheiro está associado a substâncias desodorizantes que podem provocar reacções alérgicas, irritações, desconfortos, etc. Por receio dos maus odores ou dos agentes infecciosos, acaba-se por correr o risco de exagerar, utilizando produtos pouco adequados à higiene íntima.

Verifica-se, ainda, que muitas mulheres continuam a recorrer aos anti-sépticos, altamente desaconselháveis para a mucosa vaginal. Isto porque a mulher confunde odor natural com o de uma infecção, ignorando que a maior concentração de glândulas sebáceas é a nível da vagina e não do couro cabeludo ou das axilas.

Uma higiene íntima adequada é a melhor estratégia para prevenir o aparecimento de inflamações vaginais.

O pH vaginal é um marcador de bem-estar ginecológico, e deve ser considerado como um pré-requisito a uma adequada sexualidade feminina. Mais de metade das mulheres com dores durante o acto sexual tiveram mais do que um episódio de infecção vaginal, nomeadamente candidiase, nos últimos anos, depreendendo-se daí o importante papel de uma higiene íntima com produtos específicos.

 

Dr. Fernando Cirurgião,
Ginecologista e Obstetra no Hospital de S. Francisco Xavier

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