Ser piloto de todo-o-terreno, quer de moto ou de camião, envolve muita resistência física e psicológica. Veja-se o caso de Elisabete Jacinto, que treina diariamente, sob a orientação de Fausto Ribeiro.
De início, Elisabete Jacinto julgava que o maior adversário, para uma prova como o Dakar, era o seu físico. No entanto, várias experiências e erros foram-lhe revelando que a sua aposta não devia consistir em fortalecer o físico, mas em ganhar resistência.
«Na altura, achava que precisava de força para andar de mota. O problema é que estava a fazer tudo mal. Tinha muita força realmente, mas andava 100 km e não aguentava mais. Eu tinha de, acima de tudo, apostar na resistência física», afirma a piloto.
Treinar sozinha durante muito tempo também dificultou a sua caminhada. Contudo, o encontro quase casual com Fausto Ribeiro veio alterar a situação, uma vez que, para além da preparação física ser mais adequada, também lhe deu a oportunidade de se conhecer melhor e aprender a lidar com os momentos de cansaço.
Nas palavras do treinador, «Elisabete Jacinto é uma boa aluna e esforça-se bastante. Posso dizer que no início teve alguma dificuldade em adquirir um ritmo razoável e uma consistência do exercício no dia-a-dia. Este factor foi ultrapassado com um empenho constante e determinação da parte dela».
E para uma boa prestação da nossa piloto é, desde logo, essencial haver níveis de saúde muito elevados para que a capacidade de resposta aos obstáculos que se colocam na prova seja imediata.
Corrida e ginásio
O treino é diário, normalmente das 8.30 h às 10.00 h, com um dia da semana para descansar. Durante a semana, os dias são distribuídos alternadamente, isto é, um dia no ginásio, outro dia na pista (ou em qualquer lugar onde se possa correr).
Na pista, a corrida ou a bicicleta são os exercícios seleccionados para se ganhar, no dia-a-dia, é a resistência física. Segundo Elisabete Jacinto, «a corrida é a base para uma boa resistência física. Põe o coração a bater, alarga os vasos sanguíneos e dá mais irrigação aos músculos».
Para Fausto Ribeiro, a corrida e a bicicleta são «dois exercícios que, bem-controlados, permitem à pessoa um prolongamento da actividade no tempo e é deste modo que se ganha resistência. No ginásio procura-se responder aos níveis de intensidade que são exigidos, realizando também exercícios de flexibilidade e de condição postural».
Uma das finalidades é, portanto, colocar a Elisabete Jacinto no máximo das condições possíveis ao nível da resistência. Outros factores como a força e uma boa flexibilidade são igualmente essenciais.
«Ter uma boa flexibilidade requer uma condição postural, porque precisa de saber como é que há-de colocar o corpo nas diferentes situações com que se possa deparar. Se fizer isso bem, defende-se melhor das dores que, normalmente, aparecem com estes esforços», adverte Fausto Ribeiro.
O factor psicológico
Mas participar numa prova como o Dakar não implica apenas resistência física, mas também psicológica. A motivação, a força de vontade e o espírito de sacrifício, no sentido de ter-se capacidade para sofrer, são ingredientes fundamentais para a sobrevivência na competição.
«São muitas horas a conduzir e o desgaste é imenso. A capacidade mental também entra em paralelo, ou seja, se estiver cansada não há capacidade mental», salienta Fausto Ribeiro.
De facto, o esforço realizado durante o Dakar é imenso, originando níveis de stress e fadiga muito elevados. E quando o físico se ressente a parte psicológica interfere e, por vezes, da pior maneira, quando surgem duas vozes na cabeça com intenções diferentes: uma que diz para continuar e outra para desistir.
Elisabete Jacinto conta-nos que «as etapas têm 700 km, ou 1000 km, por vezes, e ao final de 100 km estamos logo cansados e depois na nossa mente surgem pensamentos contraditórios. Chega um momento em que o nosso corpo não aguenta mais e temos de ser muito fortes para ultrapassar a limitação física. Por isso é que chegar ao fim da prova é como receber um troféu por tudo aquilo que fui capaz de fazer».
A determinação e a persistência são características fortes da piloto. A sua maneira de pensar – «O que é que eu preciso de fazer para chegar ao fim?» – revela-nos precisamente esse seu lado mais forte e positivo que procura afastar, à partida, a hipótese de não alcançar a meta. E, se não fosse assim, possivelmente também os resultados seriam outros…
Passar fome no Dakar
A ganância de fazer os quilómetros todos de seguida levava Elisabete Jacinto a estar muito tempo sem comer, permitindo que a fraqueza viesse instalar-se sem pedir autorização.
«Só quando percebi que era melhor fazer paragens e comer é que o meu rendimento e a minha resistência física aumentaram. Passei a fazer paragens de cinco minutos, para tirar o capacete e comer tudo o que trazia nos bolsos, e deste modo conseguia tirar mais partido das etapas. Estes cinco minutos eram preciosos porque depois já não me sentia tão fraca, parava de cair e já conseguia andar mais depressa. No fundo, estes intervalos rendiam mais a prova», salienta a piloto.
Não tem um plano alimentar rígido e faz a sua vida normal, mas por princípio opta por fazer algumas restrições.
«Eliminei da minha alimentação os refrigerantes, os molhos na comida, os refogados exagerados e as batatas fritas», adverte Elisabete Jacinto.
Durante as provas a história é outra. Não há as condições ideais, como uma alimentação certa e umas horas boas de sono e descanso. Além disso, de mota, a situação complica-se até porque a ração é levada nos bolsos do casaco, o que dá para o mínimo. Umas bolachas, uns frutos secos e passas e uns pãezinhos constituem o «manjar dos deuses» que é necessário saber gerir durante uma etapa.
«No Dakar passo sempre uma fome terrível. Lembro-me que um dos grandes incentivos para andar depressa era pensar no que iria comer quando chegasse ao acampamento», conclui a piloto.
Cuidados primordiais
•Os cuidados de higiene são uma tarefa complicada, porque nem sempre há duches e casas-de-banho. Elisabete Jacinto aconselha «os toalhetes, que constituem um elemento prioritário do meu estojo de higiene».
•Em relação à água só podem beber da engarrafada e mesmo assim os antidiarreicos vão sempre na caixinha de primeiros socorros que todos levam e são obrigatórios, assim como anti-inflamatórios e comprimidos de sal.
•As vacinas da malária, da febre-amarela e do tétano são também essenciais quando chega a altura do Dakar.
O estigma de ser-se mulher
em desporto de homens
Um dia estava em frente à televisão e deu por si a ver as imagens do Paris-Dakar e a pensar que era capaz de fazer aqueles quilómetros todos. Decidiu, por isso, arregaçar as mangas e trabalhar até conseguir. Conseguiu, de facto, mas com alguns obstáculos pelo meio, nomeadamente pela questão de ser do sexo feminino.
«Percebi que as pessoas não achavam que eu era capaz de o fazer, pelo facto de ser mulher e de ser uma lingrinhas, sem físico nenhum. Isto alimentava-me o desafio e a força para mostrar às pessoas que eu era realmente capaz, apesar de ter sido sempre descredibilizada.»
Em 2000, Elisabete Jacinto consagra-se mundialmente na modalidade de moto, ao terminar o Paris-Dakar como a melhor piloto feminina, recebendo, por isso, a Taça das Senhoras.
No entanto, como esse Dakar teve menos quatro dias, as pessoas deram os parabéns à motard, referindo que tivera sorte, pois, se a prova tivesse os dias todos, seria difícil tê-la concluído. Se o objectivo era derrubar a motivação da piloto, mais uma vez teve o efeito contrário, pois, os comentários deram força para que se lançasse de novo na corrida, inclusive de camião, sendo uma das poucas senhoras a cometer essa proeza. E, até agora, Elisabete Jacinto já deu provas da sua determinação e do seu profissionalismo.
Pires
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