Chama-se tulipa James Parkinson, assim baptizada por um floricultor holandês numa homenagem ao médico que descreveu pela primeira vez esta doença que é denunciada pelo tremor do corpo. Ficou como símbolo de uma patologia que vai sendo mais frequente à medida que as sociedades envelhecem.
São corpos que vacilam os que sofrem de Parkinson. Mas tudo começa de uma forma discreta, tão discreta como a falta de energia, a dificuldade em dormir e o arrastar de tarefas rotineiras como tomar banho ou comer. Igualmente discretos, surgem os primeiros tremores, nos dedos de uma mão ou num braço. São tremores que, inicialmente, se manifestam apenas de um lado do corpo e em repouso, cessando quando a mão ou o braço faz um movimento.
As pernas também podem tremer. E com o tempo os músculos das pernas ficam como que paralisados, dando origem a hesitações no andar ou a dificuldade em retomar a marcha. Aliás, o caminhar vai-se tornando mais lento e arrastado, o doente adopta uma postura encurvada, até que se colocam mesmo problemas de equilíbrio.
Até os movimentos automáticos, como pestanejar e sorrir, podem ser afectados. O mesmo acontece com a fala, sendo frequente que a voz ganhe um tom monótono e mais baixo, o que dificulta o diálogo e o convívio social.
Não há, no entanto, prejuízo das capacidades intelectuais: o pensamento é mais lento, as respostas demoram mais tempo mas estão certas.
Substância nigra & dopamina
Desde que o médico inglês James Parkinson publicou o primeiro ensaio sobre a doença que lhe herdou o nome, em 1817, muito se conhece já sobre a doença, mas também muito permanece por descobrir, nomeadamente sobre as causas.
O que se sabe é que a dificuldade em controlar os movimentos se vai acentuando à medida que são danificadas ou destruídas determinadas células nervosas na região do cérebro designada por substância nigra.
Em circunstâncias normais, essas células libertam dopamina, um químico que assegura a comunicação com outra região do cérebro, o corpo estriado. São esses sinais que levam os músculos a produzir movimentos controlados.
Com o envelhecimento, há uma perda natural dessas células, mas nos doentes de Parkinson verifica-se uma perda acelerada, que pode atingir mais de metade da substância nigra. A produção de dopamina fica, assim, ameaçada e, em consequência, os músculos ficam limitados na sua função motora.
O que está por conhecer é a razão dessa degradação celular. Há neste processo alguns factores de risco, desde logo a idade. É o mais evidente, com a doença a ser mais comum a partir dos 60 anos, ainda que os adultos mais jovens não estejam completamente a salvo – aliás, um em cada oito doentes tem menos de 40 anos. A hereditariedade também pesa, o mesmo acontecendo com o género: os homens têm uma probabilidade maior de desenvolver Parkinson, se bem que as mulheres com baixos níveis de estrogénios (hormonas envolvidas na reprodução) também sejam vulneráveis.
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Estando a escassez de dopamina na origem da doença é nela que se centra o tratamento, com os medicamentos a fornecerem ao cérebro níveis deste químico suficientes para atenuar os sintomas. O tratamento não envolve a própria dopamina, dado que ela não consegue atravessar a barreira dos capilares que irrigam o cérebro. É que nesses vasos sanguíneos acumulam-se células que funcionam como filtros, os quais deixam passar apenas substânciasque se transformam em dopamina (são os precursores de dopamina).
É essa a principal matéria-prima, por assim dizer, de uma classe de medicamentos utilizados no tratamento de Parkinson. São igualmente usados os chamados antagonistas de dopamina, que imitam os seus efeitos fazendo com que as células nervosas reajam como se tivessem recebido uma dose de dopamina.
Cerca de 20 mil doentes em Portugal
O tratamento é definido caso a caso e ajustado ao longo do tempo, de modo a responder às diferentes etapas da doença. Alguns doentes – entre cinco a dez por cento do total – podem beneficiar de uma alternativa cirúrgica: realizada nalguns centros hospitalares públicos do país, consiste na estimulação eléctrica do cérebro com vista ao controlo dos tremores.
Naturalmente que, como quaisquer medicamentos, também estes podem suscitar efeitos adversos, sendo possível que ocorram movimentos involuntários dos braços ou pernas, sonolência e baixa de pressão arterial quando a pessoa está de pé. Aliás, a doença de Parkinson está associada a um conjunto de complicações, que podem incluir dificuldade em engolir, problemas urinários, obstipação, distúrbios do sono e disfunção sexual.
Na fase mais avançada da doença, uma pequena percentagem de doentes pode desenvolver demência, um distúrbio mental que afecta a capacidade de pensar, raciocinar e recordar e pode envolver mudanças de personalidade. Além disso, estima-se que cerca de metade dos doentes sofram de depressão, que pode estar presente mesmo antes do diagnóstico de Parkinson.
A doença de Parkinson impõe limitações físicas que podem ser frustrantes. Daí que o tratamento contenha uma componente de cuidados que abarcam a fisioterapia, a terapia da fala e a terapia ocupacional e aconselhamento psicológico.
Sem cura, mas com tratamento, a doença afecta, segundo a Associação Portuguesa dos Doentes de Parkinson, cerca de 20 mil pessoas em Portugal, estimando-se que, nos próximos 20 anos, esse número possa subir para os 30 mil. A 11 de Abril, data de nascimento de James Parkinson, celebra-se a nível mundial um dia dedicado à doença e aos doentes.
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Gestos que ajudam
Quem vive com a doença de Parkinson sabe bem como o quotidiano pode ficar afectado. As tarefas do dia-a-dia podem ser muito difíceis quando os movimentos não acompanham a vontade. Pode ser muito frustrante.
Há, no entanto, alguns cuidados que facilitam a vida destes doentes:
• Vá corrigindo a postura enquanto caminha, procurando manter a cabeça e o pescoço alinhados com as ancas e os pés afastados um do outro;
• Use sapatos confortáveis e com sola anti-derrapante;
• Remova os objectos que, em casa, possam constituir obstáculos à marcha;
• Instale apoios junto à sanita e à banheira;
• Use roupas fáceis de vestir e despir, por exemplo com elástico na cintura ou com velcro em vez de botões;
• Pratique a leitura em voz alta;
• Fale com o rosto virado para o seu interlocutor, se necessário um pouco mais alto do que o habitual;
• Faça uma alimentação equilibrada;
• Faça exercício físico com regularidade;
• Informe-se sobre a doença e envolva-se nas decisões sobre o seu tratamento;
• Não se isole.
Diga não ao isolamento!
Este é o lema da Associação Portuguesa de Doentes de Parkinson, criada em 1984 por um grupo de portadores da doença. O lema nasceu da necessidade de promover uma mudança de atitude das pessoas com Parkinson e do público, tendo em conta que o doente é limitado nas suas capacidades motoras mas não deve ser confinado à inactividade e ao isolamento.
Instituição Particular de Solidariedade Social, a associação propõe-se maximizar a autonomia e independência dos doentes, dando-lhes apoio aos mais diferentes níveis, quer na sede, em Lisboa, quer nas delegações espalhadas pelo país.
Com esse objectivo, tem estabelecido parcerias, sendo um dos membros fundadores da Plataforma Saúde em Diálogo, uma aliança solidária entre farmacêuticos, promotores de saúde e associações de doentes e de utentes de saúde.
São os seguintes os contactos da associação:
• Morada: Bairro da Liberdade, lote 13, Loja 20, 1070-023 Lisboa;
• Telf : 21 38 50 042; Fax: 21 38 51 500;
• E-mail: parkinsonsede@parkinson.org.pt;
• Internet: www.parkinson.org.pt.
FARMÁCIA SAÚDE – ANF
www.anf.pt