O primeiro dente de um bebé é sempre recebido com entusiasmo. Muitas vezes é anunciado por algum desconforto, mas raramente passa disso. Importante é começar logo a cuidar dos dentes de leite para que sobrevivam saudáveis até que os definitivos cheguem.
Como em qualquer etapa do desenvolvimento do bebé, o romper do primeiro dente é geralmente aguardado com alguma ansiedade. E em nome dessa ansiedade quantas vezes se olha para o bebé do vizinho ou do amigo, numa tentativa de perceber se a dentição do nosso estará ou não atrasada.
Contudo, não vale a pena fazer comparações – nem sobre os dentes, nem sobre o gatinhar e o andar, nem sobre as primeiras palavras… É que cada bebé tem o seu próprio ritmo. E no que respeita à primeira dentição há um espaço de tempo relativamente alargado em que ela pode acontecer – o primeiro dente pode apressar-se e romper pelos três meses ou pode ficar adiado até perto do primeiro aniversário. E até há casos – raros – em que o bebé já nasce com dentes…
Assim acontece porque os dentes começam a ser formados durante a gravidez: pela oitava semana de gestação, pequenos bolbos ovais constituídos por células desenvolvem-se no embrião, começando a endurecer à 16ª semana. Primeiro desenvolve-se a coroa, a parte coberta por esmalte que vai emergir na boca, e só depois cresce a raiz do dente.
Este é um processo que acontece no interior das gengivas, quer com os chamados dentes de leite, quer com os definitivos: nenhum deles está visível quando o bebé nasce, mas estão todos já formados e alinhados, prontos para romper.
A erupção do primeiro dente dá-se com a coroa completa, mas a raiz ainda não. São 20 os dentes que constituem a primeira dentição, que, geralmente, está completa pelo terceiro ano de vida. Estes dentes nascem por uma ordem pré-definida: primeiro os dois incisivos centrais da gengiva inferior, depois quatro em cima (os dois incisivos centrais e dois laterais), seguindo-se-lhes os dois incisivos laterais de baixo.
Os primeiros molares vêm a seguir e só depois os quatro caninos (localizados ao lado dos incisivos laterais superiores e inferiores). Finalmente, os últimos molares no espaço que sobra em cada gengiva.
Incomodam, mas…
A chegada do primeiro dente é, com frequência, anunciada por alguns comportamentos do bebé: ele começa a babar-se mais e a levar à boca os dedos e todos os objectos que apanhe à mão. Assim acontece porque as gengivas estão naturalmente mais sensíveis e o bebé procura aliviar esse incómodo, esfregando-as.
O bebé pode ficar um pouco mais agitado do que o costume, assim exteriorizando o seu desconforto. E quanto muito pode declarar-se alguma febre, mas habitualmente não costuma ser elevada, além de se circunscrever aos dias que antecedem o romper do dente.
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O que há a fazer é aliviar o desconforto. Para o efeito, estão disponíveis acessórios próprios, nomeadamente anéis de borracha contendo um gel e que se colocam previamente no frigorífico: são perfeitamente seguros para o bebé morder, ajudando a refrescar a boca. Existem ainda geles com a mesma função, mas antes de serem aplicados nas gengivas do bebé é conveniente procurar o conselho de um profissional de saúde: o pediatra, o dentista ou o farmacêutico indicarão se o produto em causa é adequado para o bebé.
Quando se instala um estado febril, é possível atenuá-lo administrando um medicamento específico, por exemplo à base de paracetamol: mais uma vez deve aconselhar-se com o médico ou com o farmacêutico, tendo em conta, aliás, que a aspirina e medicamentos dela derivados não podem ser dados a crianças, pois estão associados a uma doença rara mas grave (síndrome de Reye).
E porque é normal que o bebé se babe, devido à maior produção de saliva gerada pelo facto de levar os dedos à boca, a pele do rosto – e mesmo a do pescoço e do peito – pode ficar ligeiramente irritada, com vermelhidão e pequenas borbulhas. Se isso acontecer pode aplicar-se uma loção hidratante ou calmante.
De pequenino…
Já se viu que os dentes começam a ser formados logo às primeiras semanas de gestação, apesar de só a partir do terceiro mês de vida estarem preparados para romper. A mesma lógica deve ser respeitada em relação à saúde oral, iniciando-a ainda antes do primeiro dente estar cá fora. Pelas gengivas deve ser passada uma gaze (um tecido húmido também serve) de modo a remover os vestígios do leite (seja materno ou não).
O mesmo cuidado se deve ter com os primeiros dentes. Pelo primeiro ano de vida, a dentição já está mais ou menos composta, podendo começar a usar-se uma escova de dentes: de filamentos suaves e apenas com água, passando a usar pasta dentífrica, mas sem flúor, pelos 18 meses. Duas vezes ao dia, porque nessa altura a alimentação da criança já é bastante diversificada.
Os primeiros cuidados de higiene oral são, naturalmente, praticados pelos pais – afinal, está em causa um bebé… Mas a partir dos dois anos a criança já pode ser envolvida, deve mesmo ser estimulada a fazer a sua própria higiene. E tornar este hábito diário num momento de brincadeira ajuda: os modelos de escovas são cada vez mais atraentes e os dentífricos têm sabor a tudo, desde fruta a pastilha elástica.
As primeiras vezes devem ser acompanhadas por um adulto, até como forma de dar o exemplo. Mas aos cinco, seis anos as crianças já estão em condições de serem autónomas nesta tarefa e a isso devem ser incentivadas.
Afinal, é de pequenino que se zela pela saúde oral.
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Definitivos à espera
Uma adequada saúde oral permite que os dentes de leite cheguem intactos até ao momento de serem substituídos. O que começa a acontecer, mais mês, menos mês, por volta dos seis anos, altura em que cai o primeiro dente.
Este é outro marco na vida da criança, pois geralmente coincide com a entrada na escola. Um olhar sobre o recreio do primeiro ano do primeiro ciclo mostra decerto muitos sorrisos desdentados…
Se não houver qualquer problema com a saúde oral, os dentes de leite caem pela mesma ordem em que romperam. Os incisivos centrais vão, pois, à frente. E isto acontece porque os definitivos também nascem por essa ordem.
Quando começam a pressionar a gengiva, a raiz do dente de leite vai-se dissolvendo e ele perde a sustentação: isso significa que o dente definitivo está pronto para nascer, pelo que o de leite cai.
São 32 os dentes definitivos que se vão alinhando ao longo dos 15 anos seguintes, estando a dentição completa com os chamados sisos ou terceiros molares: nalgumas pessoas nunca chegam, porém, a romper, por falta de espaço, podendo ser, ou não, necessário removê-los (depende do incómodo que causam).
Cuidar dos dentes – praticando uma boa higiene oral e fazendo consultas regulares no dentista – é importante desde a primeira hora. É com eles que cortamos e mastigamos os alimentos, mas o seu papel é muito mais do que mecânico – é que os dentes também estão envolvidos na articulação dos sons, tendo pois uma palavra a dizer no modo como comunicamos.
A culpa não é do biberão
Chama-se cárie do biberão, mas a culpa não é do biberão – é do seu conteúdo. O biberão não causa danos aos dentes, mas quando o seu conteúdo – mesmo que seja leite – permanece na boca da criança sem ser engolido acaba por favorecer o desenvolvimento de bactérias e abrir caminho a cáries.
É um risco que está associado ao hábito de dar um último biberão – com leite ou um sumo de fruta – à criança quando ela já está deitada. Apesar de adormecida, a criança mantém a capacidade de sucção – por reflexo – e bebe o que lhe é oferecido.
Contudo, há sempre uma porção de líquido que não é engolida e acaba por ficar retida na boca: aí fica em contacto com os dentes e os ácidos produzidos pelas bactérias entram em acção.
Se esta situação se repetir muitas vezes, os dentes acabam por sofrer danos. É a chamada cárie do biberão.
FARMÁCIA SAÚDE – ANF
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