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Da puberdade à vida adulta… O universo da mulher

O aparecimento da menstruação é o sinal mais marcante do desabrochar para o mundo de mulher. Mas, embora súbito e repentino, este acontecimento não surge isoladamente. Antes mesmo da menarca, já ocorreram mudanças físicas, que abrem caminho à capacidade reprodutiva de uma mulher.

Com o início da puberdade, ocorrem nas raparigas um conjunto de alterações físicas e biológicas. Os seios começam a crescer, as ancas a alargar e os primeiros pêlos a aparecer. Contudo, o momento mais histórico na etapa de crescimento de uma rapariga é o aparecimento da primeira menstruação. A partir desta altura, mês após mês, tudo muda.
“A puberdade é uma fase de transição, ou seja, um período que leva ao aparecimento da capacidade reprodutora dos jovens, afirma a Dr.ª Maria José Alves, chefe de serviço de Ginecologia e Obstetrícia da Maternidade Alfredo da Costa (MAC) e responsável pela Unidade de Adolescência.

Em média, a menarca – primeira menstruação – surge por volta dos 12 anos. Mas, como explica Maria José Alves, “as alterações da puberdade iniciam-se, por norma, um ano e meio antes do período menstrual”. Depois da puberdade, a rapariga entra numa nova fase da sua vida: a adolescência. Entre o deixar de ser menina, para passar a ser mulher, surge um período de dúvidas e indecisões, algumas raparigas esbarram com as suas primeiras relações sexuais.

Em Portugal, as raparigas iniciam a sua vida sexual, em média, por volta dos 16 anos. Contudo, como indica Maria José Alves, a adolescente deve estar preparada para dar esse passo. “As jovens que decidem iniciar a sua relação sexual devem estar na posse de toda a informação que lhes permita evitar alguns riscos”. Com tal é importante que o início da vida sexual assente num clima de segurança e por decisão da jovem. Contudo, nem sempre estas situações acontecem e, entre o querer e o não querer, muitas jovens esbarram com as suas primeiras experiências sexuais.

“As raparigas podem ser pressionadas para terem relações sexuais. O marketing da sexualidade, as histórias das amigas, que relatam grandes desempenhos sexuais (nem sempre verdadeiros), e os parceiros são, por vezes, motivos de pressão”, defende. Na adolescência vive-se, muitas vezes, “o mito do romantismo e do príncipe encantado”. Acontece, porém, que o “príncipe encantado não tem imunidade às infecções”. É, por estes motivos, que esta especialista defende a necessidade de apostar na prevenção. Até porque uma relação não protegida pode acarretar consequências para a vida, nomeadamente as infecções sexualmente transmissíveis (IST) e uma gravidez não desejada.

Assim, como adianta a ginecologista, “é preciso criar condições e um ambiente favorável para que os adolescentes usem métodos contraceptivos e, desta forma, se poderem prevenir das IST e de uma eventual gravidez não planeada”. Segundo Maria José Alves, em Portugal, formou-se a ideia de que a sexualidade juvenil é um comportamento irresponsável. Na sua opinião, enquanto não se derrubarem estes tabus, “não vai ser socialmente confortável procurar contracepção”.

 

Gravidez na adolescência

Portugal é o País da Europa Ocidental, a seguir ao Reino Unido, com a taxa mais elevada de gravidez na adolescência. De acordo com as estatísticas, ao longo dos últimos anos, tem-se registado uma redução no número de mães adolescentes. Ainda assim, “os dados indicam que, anualmente, cerca de 5000 jovens, com menos de 19 anos, engravidam e conduzem a sua gestação até ao fim”, diz o Dr. Duarte Vilar, director executivo da Associação para o Planeamento da Família (APF).

Segundo este responsável, “estas situações constituem frequentemente um mecanismo de reprodução das condições de pobreza”. Isto porque, continua, “na maioria dos casos, são jovens com pouco apoio social e que vivem em ambientes carenciados”.
Alguns estudos indicam que o risco de prematuridade do recém-nascido é a complicação mais frequente nas grávidas mais jovens e em que a gravidez não é vigiada. Contudo, na opinião de Maria José Alves, esta não é a única consequência da gravidez na adolescência.

“A maternidade precoce interrompe um projecto profissional e impede estas jovens de poderem exercer um papel socialmente mais activo. É uma cascata de acontecimentos: não terminam os estudos, não arranjam bons empregos e, por conseguinte, são mais dependentes economicamente. Tudo somado, cria um ciclo de pobreza.”

 

Ameaças ocultas

As infecções sexualmente transmissíveis são outros riscos que se correm, aquando de uma relação sexual não protegida. Estas ameaças ocultas atacam sem avisar e, na maioria das vezes, não manifestam quaisquer sinais. “O portador desta infecção, grosso modo, nem tem conhecimento dela. Daí a necessidade de prevenção, através do uso do preservativo”, afirma a Dr.ª Cristina Guerreiro, assistente graduada de Ginecologia e Obstetrícia da MAC.

Uma das IST mais faladas no momento, devido à introdução da vacina no Programa Nacional de Vacinação, é o vírus do papiloma humano (HPV). “Esta infecção provoca lesões que, em última instância, se não forem tratadas, podem evoluir para cancro do colo do útero”, refere a especialista. Como tal, aconselha-se a realização anual de um exame ginecológico, vulgo papanicolau, para despistar estas situações.

Mas o leque de IST é muito mais vasto. No caso concreto do VIH/sida, a mulher acaba por ser o “elo mais fraco” de uma relação sexual desprotegida. E isto acontece por duas ordem de razão: “Primeiro, porque o uso do preservativo depende, em grande parte, da opção masculina. Segundo, porque o sexo feminino é biologicamente mais susceptível de contacto com a infecção. Uma mulher que tenha relações sexuais não protegidas com um homem infectado tem um risco mais elevado do que se for o contrário”, sustenta. Segundo os dados mais recentes, o número de novos casos de infecção VIH/sida tem aumentado, sobretudo no grupo dos heterossexuais acima dos 40 anos.

A clamídia – uma infecção de transmissão sexual – atinge, mais frequentemente o grupo das mulheres jovens, entre os 18 e os 27 anos. Segundo a ginecologista, “trata-se de um agente que provoca doença inflamatória pélvica, obstrução das trompas e infertilidade”. Tanto esta infecção, como a sífilis – uma infecção adquirida por contacto sexual que se manifesta com o aparecimento de uma pequena úlcera nos órgãos genitais – podem ser tratadas com antibióticos. No entanto, ainda sem possibilidade de cura está o herpes genital. Em todo o caso, Cristina Guerreiro coloca a tónica na prevenção e na utilização do preservativo, um método de protecção contra as IST.

Balanço da nova lei do aborto
A Lei n.º 16/2007, que entrou em vigor a 15 de Julho do ano passado, despenalizou o aborto até às 10 semanas de gestação. Desde 15 de Julho até 31 de Dezembro – período considerado nas estatísticas – já foram realizados, ao abrigo da lei, 6099 interrupções voluntárias da gravidez (IVG). Este número considera as IVG realizadas nos hospitais públicos portugueses, com Serviço de Ginecologia e Obstetrícia, e nas três clínicas privadas credenciadas para esse efeito.

Do total de IVG, foram realizadas 4124 em mulheres entre os 20 e os 34 anos de idade. O Prof. Jorge Branco, coordenador do Programa Nacional de Saúde Reprodutiva (PNSR) e director da Maternidade Alfredo da Costa (MAC), mostra-se satisfeito com os dados obtidos, até agora, que registam apenas 30 IVG em adolescentes abaixo dos 15 anos. Nas faixas etárias acima dos 40 anos, houve 503 IVG.

“Para interromper a gravidez, a mulher tem duas portas: através do centro de saúde, onde poderá confirmar o tempo de gravidez ou, em alternativa, dirige-se directamente ao hospital da sua área de residência, onde solicitará a IVG”, esclarece Jorge Branco.

Para mais esclarecimentos, as mulheres podem ligar a linha Opções (707 200 249), que funciona de segunda a sexta-feira, entre as 12 e as 20h. De acordo com Duarte Vilar, “através desta linha é possível obter informações e apoio nas situações de gravidez não desejada, para além de acompanhamento contraceptivo no pós- IVG”.

 

Como calcular o período fértil?

Ao longo de seis meses a um ano, as mulheres devem anotar o primeiro dia de cada menstruação, para calcularem o ciclo menstrual. O intervalo de tempo que vai desde o primeiro dia de menstruação de um mês ao primeiro dia do período menstrual do mês seguinte corresponde a um ciclo. De todos os ciclos, escolhe-se o maior e o mais pequeno. Ao maior subtraem-se 19 dias; ao mais pequeno, retiram-se 11 dias. O período fértil situa-se entre esses dois números.

Jornal do Centro de Saúde

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