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Como proteger as crianças no Verão?

O Verão é época de calor e de alguma descontracção. Mas com as crianças todo o cuidado é pouco nesta altura do ano, porque o perigo espreita em cada esquina. Por essa razão, passamos em revista todas as precauções que deverá ter, desde que sai de casa até chegar ao destino. Se todas as medidas forem cumpridas, é possível evitar até 80% dos acidentes com os miúdos.

Com a suspensão das escolas, em período de férias, é habitual que as crianças se sintam mais à vontade para explorar as actividades ao ar livre, já que as temperaturas são convidativas. “Nesta altura, é natural haver mais acidentes em locais onde a criança brinca ao ar livre: espaços de jogo e recreio, praias, piscinas ou na rua”, explica Sandra Nascimento, presidente da Associação para a Promoção da Segurança Infantil (APSI). Mas os percalços podem ocorrer em qualquer sítio, razão pela qual lhe traçamos o itinerários de cuidados antes, durante e depois da viagem de férias. Siga viagem, mas sem nunca esquecer as medidas de segurança.

 

Férias sobre rodas

Segundo a presidente da APSI, os acidentes rodoviários são a primeira causa de morte nas crianças. Assim, e independentemente da duração da viagem, Sandra Nascimento insiste na utilização dos sistemas de retenção (também conhecidos por “cadeirinhas”). “A utilização deste equipamento de protecção, ajustado ao peso e ao tamanho da criança, poder fazer a diferença entre a vida e a morte”, defende a responsável. Mesmo quando o destino final é o estrangeiro, a segurança rodoviária lá fora deve estar sempre acautelada, quando se aluga um carro. “Felizmente, as empresas de rent-a-car já possuem ‘cadeirinhas’ para alugar”, completa.

Contudo, independentemente da distância e do local de destino, a presidente da APSI diz que continuam a existir situações de falta de zelo por parte dos adultos. “Em tempo de férias, é comum ver os carros sobrelotados, com passageiros a mais e excesso de bagagem. Isto é um erro, ainda por cima se considerarmos que, nesta altura do ano, as estradas são mais perigosas. Por isso, para além de respeitar a lotação do carro, a bagagem tem de ser sempre colocada nos seus compartimentos próprios.”

Segundo a responsável, quando se prepara uma viagem longa de férias, devem-se fazer “paragens constantes para os mais pequenos descansarem e beberem água”. Mas a regra de ouro para que a viagem corra sobre rodas é a utilização do cinto de segurança por parte de todos os ocupantes. Já as crianças nunca devem ser transportadas sem as “cadeirinhas”. Embora, “com o passar dos anos, haja uma maior preocupação com o transporte de crianças”, há ainda famílias que não salvaguardam a segurança infantil na estrada. “Praticamente, 80 a 83% das famílias já usam a ‘cadeirinha’, mas ainda sobra 20% daqueles que ainda não utilizam este sistema”, lamenta.

Segundo o sítio da Autoridade Nacional da Segurança Rodoviária, “uma colisão a 50 km/h, para uma criança que não esteja devidamente protegida, equivale a uma queda de um terceiro andar”. Por esta razão, é imperioso “explicar aos mais pequenos, desde muito cedo, a importância dos sistemas de retenção para a sua protecção em caso de acidente”, indica a mesma fonte. “Para uma instalação correcta e segura, devemos ler sempre atentamente os manuais de instruções do fabricante da cadeirinha e do veículo e respeitar essas instruções. O sistema de retenção deve, também, estar bem fixado à estrutura do veículo, nomeadamente através dos cintos de segurança do próprio veículo ou do designado sistema ISOFIX. As precintas do sistema de retenção (cintos internos da cadeirinha) devem estar sempre correctamente apertadas, ou seja, sem folgas, embora garantindo o conforto da criança.”

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Perigos dentro e fora de quatro paredes

“Normalmente, associa-se o período de férias a uma altura em que a família vai viver temporariamente para um local novo, que esconde novos riscos”, afirma Sandra Nascimento. Mas, antes de se ir de férias, há uma regra fundamental para não haver surpresas desagradáveis: fazer uma preparação e antecipar alguns percalços. Para isso, “os adultos devem avaliar, previamente, as condições do local e da habitação sazonal, antecipar os riscos existentes e certificar-se que existem medidas de protecção adequadas para os mais novos”.

“Os pais devem tentar saber previamente se existem varandas e escadas e se estão devidamente protegidas com guardas, cancelas e limitadores de abertura”. Estas medidas servem para prevenir a ocorrência de quedas dos mais pequenos. Mas é ainda importante conhecer o meio envolvente à casa de férias. Para tal, os pais devem certificar-se que, na eventualidade de existirem piscinas, poços ou tanques, estes se encontram vedados ou tapados. Quanto mais autónoma for a criança, mais longe consegue ir.”

Para os mais velhos e autónomos, “as medidas passam por estabelecer regras e limites para determinado tipo de actividades fora de casa”. Se a criança for praticar desportos náuticos, “é preciso confirmar se usa o equipamento correcto, se vai para locais vigiados e se vai acompanhado”. Alguns estudos indicam que os afogamentos acontecem no primeiro dia de férias e, na maioria das vezes, enquanto as famílias estão a desfazer as malas. Por este motivo, é essencial “fazer sempre o reconhecimento do local: explorar o interior da casa e espaço envolvente, no momento da chegada”. Dentro de habitação, é preciso averiguar a localização das tomadas e protege-las se necessário, verificar a protecção de das escadas, varandas ou janelas, e guardar os produtos potencialmente tóxicos em locais altos e fechados.

 

Surpresas “envenenadas”

“Nas férias, não deve aliviar a vigilância quando se muda o habitat natural”, comenta a Dr.ª Fátima Rato, coordenadora do Centro de Informação Antivenenos (CIAV). “Globalmente, nos meses de Verão há um maior número de contactos, tanto em crianças como em adultos. E há uma série de factores que contribuem para isso. No que diz respeito às crianças, no período do Verão, os pais andam mais distraídos. As pessoas não estão tão concentradas nos locais que frequentam fora de casa e, devido a essa situação, as crianças podem ter contacto com produtos químicos, ingerindo-os.”

Segundo a responsável, o número de intoxicações ou envenenamentos que ocorrem em crianças entre 1 e os 4 anos de idade (o grupo mais atingido) rondam os 60 a 65%. “Isto Isso prende-se com o facto de as crianças começarem a andar, terem uma grande curiosidade e estarem a descobrir o mundo nessas idades.” Mas, por vezes, alguns destes acidentes são evitáveis, desde que se tenha atenção a alguns “pormenores que fazem a diferença”. Para a coordenadora do CIAV, “deve-se evitar colocar os detergentes em embalagens de água ou de sumo. Isto pode ter consequências graves”. Deve-se, ainda, “manter os produtos tóxicos fora do alcance das crianças, principalmente os detergentes da máquina de roupa ou da loiça, que são os que acarretam mais problemas”.

“Habitualmente, e na esmagadora maioria das situações, há uma tendência para dar azeite a uma pessoa que tenha ingerido um produto químico. Mas isto é contra-indicado.” Perante a ingestão inadvertida de medicamentos ou produtos químicos, os pais ou acompanhantes devem ligar imediatamente o 808 250 143 para obterem orientação médica, antes de qualquer outra medida. Nesta linha, está um especialista que tenta dar instruções sobre o modo como se deve agir.

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Há mar e mar…

Com o Verão surge, também, a tentação de ir a banhos. Mas os locais com água ser motivo de perigo, nomeadamente de afogamento. Se por perto da casa estiver uma piscina, um tanque ou um poço, a regra número um é vedar o acesso a esses locais. “Embora a criação de barreiras físicas não seja cem por cento à prova de crianças, dão mais margem de manobra para o adulto intervir”, completa Sandra Nascimento.

Perto dos locais com água, as crianças devem usar sempre braçadeiras ou coletes salva-vidas. Mas atenção: estes acessórios não são brinquedos, daí que devam obedecer a determinadas características. “Bóias ou outros materiais que não sejam coletes ou braçadeiras são brinquedos e não devem ser usados como equipamentos de protecção.”

As braçadeiras devem “ser garridas, ter duas câmaras-de-ar em forma de anel à volta do braço”, ao passo que “o colete salva-vidas não deve ser insuflável”. Os equipamentos devem ser usados conforme o ambiente aquático em que a criança está a brincar. Mesmo que estejam fora de água, “devem usar braçadeiras, porque há o risco de escorregarem e caírem à piscina”. Mas, independentemente da protecção, “há que reforçar a vigilância activa e em permanência de um adulto, capaz de agir em caso de perigo”.

Nas situações de afogamento, a intervenção imediata é fundamental. “A morte por afogamento é rápida e o que se faz logo nos primeiros minutos é fundamental para a criança se salvar.” Daí que o vigilante deva “ser uma pessoa que saiba nadar e que possa fazer o suporte básico de vida, no caso da criança deixar de respirar”.

 

Ao ar livre

O bom tempo é um convite irrecusável para as brincadeiras ao ar livre, na rua, em parques ou em recreios. Mas, mesmo parecendo solo seguro, os acidentes com crianças acontecem quando e onde menos se espera. “As quedas normalmente ocorrem quando as crianças estão a andar de bicicleta, de skate, de trotineta ou mesmo em parques infantis”, acrescenta Sandra Nascimento.

Ao andar de bicicleta, as crianças “devem usar equipamentos de protecção adequados, sobretudo capacete, que faz toda a diferença na prevenção dos traumatismos cranianos em caso de queda”. Se a criança andar de bicicleta em zonas perto de trânsito deve usar material reflector na roupa e ter luzes nas bicicletas, mesmo durante o dia.

Os pais devem ter atenção à roupa e ao calçado que a criança usa na altura do Verão. “É comum ver as crianças a andar de bicicleta com pouca roupa ou com peças de vestuário largas e de chinelos. Uma criança com está a correr ou a jogar à bola deve usar sapatos adequados e que dêem segurança ao pé. O uso de calçado adequado e que dê uma boa estabilidade pode prevenir acidentes perfeitamente evitáveis.”

Acresce o facto de, ao andar com pouca roupa, “os raios solares poderem provocar queimaduras, pelo que se aconselha a colocação de um protector solar nas brincadeiras ao ar livre”. É ainda recomendável que as crianças não utilizem fios ao pescoço nas brincadeiras com grande actividade motora, nomeadamente na utilização de equipamento de espaço de jogo e recreio. Mas em qualquer situação de brincadeira, os pais devem estar sempre por perto, para acompanharem os filhos.

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Redobrar os cuidados

“Quando as praias não estão devidamente enquadradas e vigiadas, podem ser espaços mortais e muito perigosos para as crianças”, realça o comandante Nuno Leitão. Mas não só as praias escondem perigo. Há ainda as piscinas, local onde normalmente ocorre o maior número de afogamentos. O porta-voz do Instituto de Socorros a Náufragos (ISN) deixa alguns conselhos úteis para os pais.

– Vigiar sempre as crianças na praia: um simples golpe de distracção pode representar a perda de uma criança;

– Nunca deixar as crianças brincarem sozinha perto da linha de água;

– Se estiver a decorrer uma festa perto de um ambiente aquático, responsabilizar sempre um adulto pela vigilância das crianças;

– A única forma de prevenção dos afogamentos é vigilância contínua e apertada;

– Vedar os acessos à piscina (numa casa de férias), para que a criança não entre na água sem um adulto;

– Nunca deixar os brinquedos das crianças perto do alcance da piscina. Após o período de piscina arrumar os brinquedos numa zona longe da água;

– Na praia, não deixar uma criança numa poça de água na areia. Uma criança de um ano e meio ao cair com a cabeça para a frente, com um palmo de água, morre afogada;

– Nos períodos de férias, atenção aos poços, aos baldes de água, bebedouros de animais, aos rios, às praias fluviais e aos tanques. Tudo o que possa conter uma mão-travessa de água é um risco escondido para uma criança morrer se não estiver devidamente vigiada.

 

Protecção a dobrar

Há cuidados que não se devem descurar em tempo de férias. Um deles é com a protecção da pele das crianças. Mas existem outros, como explica Nuno Leitão.

– Antes de ir para a praia, os pais devem aplicar abundantemente um protector solar nas crianças; a colocação na praia não surte efeito, porque a criança, com a viagem, está transpirada, o que dificulta a absorção do protector na epiderme;

– Ao chegar à praia, deve-se colocar uma nova camada de protector solar, incidindo essa protecção solar nas orelhas, palmas das mãos, pés, pescoço e cara;

– A criança deve usar um panamá de abas e não um chapéu. Quando uma criança se perde na praia, ao usar um panamá, caminha sempre com o sol nas costas. E as buscas são mais eficazes, havendo uma probabilidade de 50% de encontrar a criança. Com um chapéu de palha a criança caminha contra ou de frente para o sol. Neste caso, as buscas são mais complicadas, porque não se sabe a orientação em que a criança caminha relativamente à linha de costa;

– Dar bastantes líquidos sem açúcar, para não haver desidratação;

– Garantir que, após, a refeição são respeitadas as três horas de digestão;

– Não levar crianças com menos de um ano e meio para a praia, mesmo estando à sombra, recebem cerca de 30% dos efeitos nocivos do sol.

Jornal do Centro de Saúde

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