É uma dor muito comum nas crianças (especialmente entre os três meses e os três anos de idade) e a sua causa mais frequente chama-se otite, infecção do ouvido. Em geral, manifesta-se como uma complicação de uma constipação comum, dor de garganta ou outras infecções do trato respiratório e ocorre sobretudo nos meses de Inverno, especialmente entre Janeiro e Março.
Para entender o porquê desta dor comum nas crianças temos de falar com algum pormenor destes órgãos tão sensíveis que são os ouvidos.
Como não se fecham, os ouvidos estão pouco protegidos, o que os torna mais atreitos à entrada de vírus, bactérias e poluição. O ouvido é constituído por três partes: o ouvido externo (a orelha e o canal auditivo), o ouvido médio (tímpano e uma câmara de ar) e o ouvido interno (órgãos da audição e do equilíbrio).
Ora, a que se deve a dor de ouvidos? É motivada pela acumulação de líquido e por aumento da pressão no ouvido médio. Mas a causa da dor de ouvidos pode não ser necessariamente uma doença do ouvido: infecções e outros problemas do nariz, boca, garganta e articulação do maxilar também podem causar dor. Outra causa da dor de ouvido pode ser a otite externa, devido a processos inflamatórios na orelha, canal auditivo externo ou superfície exterior da membrana do tímpano. Contudo, é a infecção do ouvido médio – otite média – a causa mais frequente da dor de ouvidos na criança.
Mas porquê a importância do ouvido médio? O ouvido médio está ligado à nasofaringe através da trompa de Eustáquio, o que assegura o equilíbrio da pressão entre o ouvido médio e o ambiente exterior. Dito de outro modo, do ouvido médio sai um canal (a trompa de Eustáquio), através do qual os fluídos são drenados para o nariz. Muitas vezes o desconforto começa quando este canal fica entupido. Nos fluídos acumulados, proliferam bactérias ou vírus que podem causar otites.
Como é evidente, há sintomas da otite a que se deve estar atento: dor no ouvido persistente e forte (chamada otalgia), febre, vómitos e diminuição da audição. Em crianças de idade inferior a um ano, a otite pode manifestar-se por irritabilidade, prostração, rejeição dos alimentos, febre (até 40º C), vómitos e diarreia.
Importa ter em conta a particularidade de que nas crianças a trompa de Eustáquio é mais curta e mais estreita do que nos adultos: daí se compreender a maior vulnerabilidade da criança à otite.
[CONTINUA NA PÁGINA SEGUINTE]E HÁ SITUAÇÕES DE MAIOR RISCO QUANDO A CRIANÇA:
> Tem menos de dois anos
> Tem antecedentes familiares de doenças respiratórias ou alérgicas
> Tem uma alergia e/ou constipa-se com frequência
> Partilha espaços fechados com muitas crianças > Está exposta a ambientes poluídos, (basta pensar no tabaco).
> Não é amamentada (durante esta fase da vida o leite materno possui anticorpos que ajudam a prevenir infecções).
QUAL A PREVENÇÃO DA OTITE EXTERNA NA CRIANÇA
> Durante o banho (ou duche), o champô e o sabão devem ser mantidos fora do canal auditivo já que podem provocar irritação e prurido favoráveis à infecção;
> Os ouvidos devem ser mantidos tão secos quanto possível. Após tomar banho ou duche ou mesmo nadar, deve-se abanar a cabeça para remover a água do canal auditivo, e secar os ouvidos suavemente com uma toalha;
> O canal auditivo limpa-se por si só, deslocando as células cutâneas mortas desde o tímpano até ao exterior. Recorde-se que o ouvido tem um sistema de autolimpeza, como tal não se deve utilizar nada que empurre a matéria residual para o tímpano, onde se acumula. Os resíduos acumulados e a cera tendem a reter a água que entra no canal quando a criança toma banho ou nada. E a pele molhada e macia do canal auditivo está predisposta a contrair infecções bacterianas ou fúngicas.
QUAL A PREVENÇÃO DA OTITE MÉDIA AGUDA NA CRIANÇA
Não se pode completamente evitar um quadro de otites, no entanto o risco pode ser atenuado quando se tomam vários cuidados:
> Amamentar, pelo menos até aos quatro meses, pois existe comprovadamente uma menor incidência de otites nos bebés amamentados, já que o leite materno confere imunidade;
> Não alimentar as crianças na posição deitada;
> Manter a criança longe de fontes poluidoras, como é o caso do fumo do tabaco;
> Vacinar a criança contra influenza e pneumococos Quando procurar o médico;
> Se a criança tem menos de dois anos, dor de ouvidos e febre, deve levá-la ao médico nas primeiras 24 horas;
> Se tem mais de dois anos e tem dor e febre, deve levá-la se não melhorar com o tratamento indicado pelo médico depois de 48 horas;
> Se tem vómitos e a criança está muito prostrada;
> Se sai líquido ou sangue pelo ouvido;
> Se após três dias de tratamento médico a criança continua com dores, febre ou supuração de ouvido;
> Em crianças com idade entre os 4 e os 24 meses, os pais devem estar atentos, sobretudo após uma constipação, se a criança dorme bem, apresenta irritabilidade ou falta de apetite por mais de um dia.
[CONTINUA NA PÁGINA SEGUINTE]USE E ABUSE DO ACONSELHAMENTO FARMACÊUTICO
Quando a dor de ouvidos é muito frequente, pode causar perda auditiva e, na criança, afectar até o desenvolvimento da fala e da linguagem. Por isso, há que zelar pela saúde dos ouvidos da criança com a ajuda do seu farmacêutico. Com este aconselhamento pode prevenir infecções e tratar a dor de ouvidos mais ligeira.
O farmacêutico dir-lhe-á que a dor de ouvidos não deve ser aliviada mediante a aplicação de gotas, excepto se for receitada pelo médico, mas sim com analgésicos tomados por via oral, como o paracetamol (está absolutamente proibido o uso da aspirina até aos 12 anos). São poucos os casos de afecção dos ouvidos que podem ser tratados com recurso à automedicação, mas o aconselhamento farmacêutico é indispensável nestes casos restritos.
A prevenção é fundamental: o cerúmen não deve ser removido mecanicamente com cotonetes; no ouvido não se introduz nenhum objecto, os cotonetes só servem para secar ou limpar as orelhas. Informe-se com o seu farmacêutico sobre os pormenores da aplicação de gotas nos ouvidos, se o médico lhas tiver receitado; no caso de dor provocada por variações de pressão pode preveni-las mantendo o nariz da criança descongestionado; se a criança manifesta sintomas de “otites do nadador” (motivada geralmente pela entrada de água no ouvido externo após exposição prolongada do ouvido a água doce ou salgada, na praia ou piscina), é recomendada a utilização de tampões nos ouvidos.
Conversando com o seu farmacêutico, ele também alertará para o facto das otites médias agudas serem infecções que requerem observação do especialista e tratamento com antibióticos tomados por via oral e durante o tempo recomendado pelo médico. Contudo, se o ouvido não estiver infectado ou se a infecção for causada por um vírus, a toma do antibiótico não vai resolver o problema.
Há ainda outras circunstâncias em que é recomendável a consulta médica, em todos os casos em que não se registe alívio ou cura depois de um tratamento adequado.
Sempre que houver necessidade de remover corpos estranhos do ouvido, o farmacêutico recomendará a ida pronta ao médico, já que qualquer tentativa que seja feita para a remoção de um corpo estranho pode provocar agressões na pele do ouvido e predispor para infecções e outros problemas futuros.
FARMÁCIA SAÚDE – ANF
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